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Em janeiro deste ano surgiu um rebuliço em redes sociais, jornais e revistas de grande circulação sobre a ameaça de fechamento do “Dog Aging Project” (Projeto de Envelhecimento Canino), uma iniciativa de pesquisa científica americana visando estudar como quase 50 mil cães domésticos envelhecem. O projeto, que é em sua quase totalidade financiado pelo National Institute on Aging (NIA, Instituto Nacional de Envelhecimento) está chegando ao fim de seu período de apoio pela agência em junho, e há indícios de que não será renovado seu financiamento.
A ameaça de fechamento de um projeto que pode ajudar a entender como podemos ter mais e melhor tempo de vida para nossos cães domésticos (além de entender mecanismos básicos do envelhecer que se traduzem para humanos também) gerou revolta no público geral. Organizaram-se petições para solicitar ao NIA a continuidade do projeto, e também mecanismos buscando obter financiamento por meio de doações. Esta mobilização popular não me espanta, afinal de contas cães evoluíram para fazerem humanos gostarem e cuidarem deles. São animais adoráveis e que consideramos membros de nossas famílias. Assim, mesmo sabendo que os resultados não serão imediatos, não é nada surpreendente que nós conjuntamente queremos estudos científicos que possam nos fazer compreender, e talvez até retardar, processos de envelhecimento canino. O que me espanta é a diferença de tratamento deste projeto científico envolvendo animais e outros que têm modelos animais mais usuais na prática científica.
Há milhares de cientistas no mundo, eu inclusa, estudando envelhecimento utilizando animais, desde modelos animais muito simples e evolutivamente mais distantes de humanos, como moscas e vermes, até animais vertebrados e mais parecidos conosco e, portanto, sujeitos a normas e análises específicas de práticas éticas diferenciadas. Quando apresentamos os nossos estudos para o público geral, as respostas que temos tipicamente incluem perguntas sobre quando iremos ver os resultados se traduzirem para humanos, numa previsível incompreensão de que esse tipo de transferência requer não somente anos de trabalho, mas também muitos grupos de pesquisa agindo em conjunto, com especialidades distintas somatórias. Não raro também recebemos críticas e até ameaças da população geral, nos dizendo que pesquisar animais de laboratório é ultrapassado, desnecessário, e antiético. Como cientistas, sempre tentamos explicar a realidade de que a pesquisa animal ainda é necessária em vários momentos, embora todo pesquisador procure sempre alternativas, além de ter que seguir normas restritas e passar por avaliações éticas rigorosas para fazê-la. Explicamos que todos os medicamentos, procedimentos e tratamentos médicos que nos fazem poder viver vidas longas e saudáveis hoje precisaram de dados obtidos da ciência animal. Mas mesmo assim ainda há uma percepção prevalente de que usar animais para pesquisa em laboratório é cruel e desnecessário.
Poderíamos interpretar isso como especismo, ou uma discriminação da população contra a pesquisa científica com determinadas espécies animais. Vislumbra-se ganhos de conhecimento e valida-se pesquisa em cães e humanos, mas não em roedores como ratos e camundongos (a maioria dos vertebrados em estudos de animais de laboratório). Mas ações populares não confirmam que o problema é a espécie estudada. Em 2013, um grupo de cerca de 100 supostos “ativistas” pela causa animal invadiu o Instituto Royal no Brasil, roubando quase 200 cães estudados lá, todos mantidos sob condições reconhecidas pelas instituições de boas práticas de laboratório e ética animal. Esses indivíduos, contando com grande apoio popular, eram claramente contra pesquisas com cães, que beneficiavam os humanos e pets semelhantemente. O resultado de sua ação não somente levou à perda dos experimentos em curso e de equipamentos avaliados em centenas de milhares de dólares que foram destruídos na invasão, mas também ao fechamento do instituto e inabilidade nacional de se realizar pesquisa com modelos mais diversos, limitando nossa soberania na inovação biotecnológica até hoje.
Os apoiadores da invasão do Instituto Royal dirão, é claro, que a diferença entre os estudos de lá e os do Dog Aging Project é que os cães do segundo projeto são domésticos, e que vivem “em liberdade”, na casa e aos cuidados de seus tutores. Eu, conhecendo a realidade de nossa sociedade, duvido que todos os humanos com cães os tratem tão bem; é sabido que há muitos que maltratam. Se verificou inclusive que alguns dos cães do Instituto Royal foram parar nas ruas, fugidos ou expulsos pelas famílias que originalmente diziam tê-los “libertado”. Além disso, as mesmas pessoas que invadiram o Instituto Royal usualmente trabalham em organizações que se organizam para remover animais das ruas. Não há nada de errado com isso, pois a vida nas ruas é de fato muito sofrida para animais domesticados, mas a posição desses ativistas que se acham “libertadores” em relação aos animais mantidos sob cuidados institucionais se contrasta completamente com a ideia de que animais que vivem completamente livres na rua precisam ser “resgatados”.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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