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Somos bombardeados diariamente com propagandas e ofertas de alimentos etiquetados como “saudáveis”, muitos dos quais proeminentemente indicam ter alto conteúdo de proteínas. Mas afinal de contas o que são proteínas? E quanta proteína devemos comer?
Proteínas são moléculas grandes (macromoléculas) presentes em todos os seres vivos, construídas a partir de moléculas menores chamadas aminoácidos, que se interligam. Os aminoácidos são como pecinhas de Lego, que se encaixam e interagem entre si, gerando as estruturas das proteínas. Como temos 20 tipos de aminoácidos diferentes, podemos construir uma imensa variedade de proteínas, com estruturas tridimensionais muito distintas. Essas diferentes estruturas permitem diferentes funções no nosso corpo, o que rende às proteínas a classificação de molécula biológica com maior abrangência funcional: proteínas servem para manter a estrutura física das nossas células, para carregar moléculas de um lugar para outro, para transmitir informações, defender nossos corpos de invasões e catalisar reações químicas, como aquelas que fazem parte do nosso metabolismo. Sem as proteínas, moléculas-coringa multifuncionais, não há vida.
Proteínas possuem uma grande variedade de estruturas tridimensionais, como algumas das apresentadas aqui. Isso lhes dá a possibilidade de exercer funções muito distintas
Embora todos os organismos vivos tenham proteínas, incluindo os animais e plantas com os quais nos alimentamos, nós não usamos as proteínas inteiras que vêm desses seres vivos. Proteínas na nossa alimentação são quebradas em seus aminoácidos (“Legos”) individuais, absorvidas nos nossos intestinos e espalhadas pelo corpo. Ao chegar nas nossas células, os 20 aminoácidos diferentes são recombinados de formas variadas, e usados para montar as diversas estruturas das nossas proteínas, utilizando como instruções as informações contidas no nosso DNA. A partir dessa informação, já dá para perceber que não adianta comer uma proteína específica, como o colágeno, e esperar que ela se torne a mesma proteína na sua pele ou articulações, pois a proteína vai virar os seus aminoácidos “desmontados” ao ser digerida. Por esse mesmo motivo, tratamentos que envolvem proteínas, como a insulina, precisam ser injetáveis; se ingerida, a insulina é “desmontada” em seus aminoácidos e perde seu efeito.
Por outro lado, a proteína que você come vai fornecer aminoácidos, importantes materiais para a construção de proteínas variadas e diferentes dentro de nós. Aminoácidos contêm também átomos de nitrogênio em suas estruturas, o que é diferente de carboidratos e gorduras, que são formados por átomos de carbono, oxigênio e hidrogênio. Nosso corpo é capaz de rearranjar átomos através do metabolismo, e, portanto, fazer gorduras a partir de carboidratos, por exemplo, mas não é capaz de criar átomos diferentes. Por isso, para fazer proteínas, precisamos comer proteínas, que contêm o nitrogênio na forma necessária de aminoácidos.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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