Tribuna

Paulo Paim

Sobre 20 de novembro: com racismo, não há democracia

13 de novembro de 2020

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Os ventos democráticos parecem avançar pelo continente americano, trazendo novos ares, respeito às diversidades e aos direitos humanos. É preciso que não esqueçamos, no entanto, do genocídio orquestrado contra o povo negro

Com quase 56% da sua população sendo negra, o Brasil ainda é um dos países mais racistas do mundo, onde, estatisticamente, as mulheres negras estão na base da pirâmide social. No dia 20 de novembro, celebramos a Consciência Negra, data de resistência e de conscientização para a população brasileira sobre o processo de colonização do país, da escravidão e dos seus reflexos.

O marco foi incluído no calendário escolar nacional em 2003 e, em 2011, foi instituído oficialmente pela lei federal de nº 12.519. A regulamentação, no entanto, não transformou a data em feriado e fica a critério de cada estado e cidade optar por adotá-la como tal. Dos 5.570 municípios brasileiros, menos de 15% consideram a data como feriado, de acordo com levantamento elaborado pelo jornal O Estado de S. Paulo, com base em dados apresentados em 2019 pela Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ainda assim, o dia é marcado por atividades culturais, debates e manifestações organizadas pelos movimentos negros em diferentes regiões do país.

A data foi fomentada, em meados da década de 1970 no meu estado, o Rio Grande do Sul, por militantes universitários negros como o poeta Oliveira Silveira, Vilmar Nunes, Ilmo da Silva e Antônio Carlos Côrtes, que questionavam o dia 13 de maio. Para eles, a abolição da escravatura não representava a liberdade dos negros escravizados, pois, depois da assinatura da Lei Áurea, a população negra não recebeu nenhum tipo de indenização ou reparação do Estado Brasileiro.

Assim, o dia 20 de novembro, em homenagem a Zumbi e sua luta histórica, seria mais apropriado para o movimento negro brasileiro. A data veio para fortalecer em nossas memórias esse período secular tão nefasto, que não podemos esquecer e jamais repetir.

Indígenas escravizados, povos africanos sequestrados e escravizados, crianças, mulheres e homens. Foram mais de 12,5 milhões de africanos sequestrados, em que 10,7 milhões conseguiram sobreviver a essa desumanidade e 1,8 milhão morreram na travessia do Atlântico. Corpos jogados ao mar alteravam os trajetos dos cardumes de tubarões, que começaram a seguir os navios negreiros.

Paulo Paim

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