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Jonathan Vicente e Hélio Cunha Filho
Há tempos o Brasil escolheu o caminho da descrença que agora mostra as suas terríveis consequências: somos o terceiro país mais afetado pelo novo coronavírus em todo o planeta
Há mais de nove meses travamos uma batalha contínua para conter a pandemia de covid-19, a maior crise sanitária do século. O surgimento do chamado “novo coronavírus” pegou diversos cientistas, profissionais de saúde, governantes, e, especialmente, a população de surpresa. O Sars-Cov-2, vírus até então desconhecido pela comunidade científica, preocupava pela sua alta capacidade de contaminação. Com as novas possibilidades tecnológicas, o enfrentamento da primeira pandemia do século 21 já se mostra diferente dos anteriores, pois rapidamente tomou-se conhecimento que a adoção de políticas públicas com uma série de medidas não farmacológicas poderiam contribuir de maneira efetiva para a redução de possíveis danos, até o aparecimento de uma vacina ou medicamento eficaz.
Como mostram estudos produzidos por diversos pesquisadores e academicistas ao redor do mundo, muitos óbitos poderiam ter sido evitados com uma melhor política de planejamento por parte dos governos, dando a devida importância à prevenção da doença, estimulando a adesão coletiva ao isolamento social e ao uso de equipamentos de proteção individual.
Um artigo publicado pela revista Nature (“The effect of large-scale anti-contagion policies on the COVID-19 pandemic” ) em junho aborda exatamente a importância das autoridades governamentais em aplicar medidas de contenção para a covid-19. Os autores analisaram as medidas adotadas por China, Coreia do Sul, Itália, Irã, França e EUA a partir de dados disponibilizados entre o início da pandemia o dia 6 de abril. Os resultados comprovaram que sem as políticas de contenção, alguns desses países poderiam ter quase o triplo de infectados. Se a Itália não adotasse as ações de contenção, por exemplo, ela teria cerca de 2 milhões de infectados a mais nesse mesmo período. O país, inicialmente, tinha cogitado em não aplicar as medidas, quase gerando uma catástrofe sanitária, que aos poucos colapsou seu sistema de saúde. Outro exemplo é o do Irã. O país estaria com cerca de 4,9 milhões de infectados a mais caso não tivessem tomado tais atitudes.
No Brasil, a atual gestão federal segue com o seu padrão político ideológico: o negacionismo científico, além da adoção de medidas já comprovadamente ineficazes e, muitas vezes, perigosas. No dia 27 de março, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, assumiu publicamente o erro em veicular uma campanha publicitária chamada “Milão não para”, que ia contra o distanciamento social. Na data, o país havia contabilizado 909 mortes em 24h, seu recorde até então.É interessante constatar que, nesse mesmo período, o governo federal brasileiro também lançou uma campanha quase homônima chamada “Brasil não pode parar”. Essa situação ilustra bem o caminho contrário tomado pelo país, em uma pretensa e ficcional busca pelo controle da pandemia.
O posicionamento negacionista do governo, alinhado ao descumprimento das recomendações sanitárias, geraram consequências não só no campo prático como também no simbólico
Agora, em dezembro de 2020, às vésperas de um novo ano, nos aproximamos da marca de 200 mil óbitos e voltamos a registrar novos recordes de contaminação e mortes diárias. Nesses nove meses de pandemia, três diferentes ministros chefiaram a pasta da Saúde; o governo liderou a compra de 5,8 milhões de comprimidos de cloroquina, medicamento sem nenhuma comprovação científica contra a covid-19; 6,86 milhões de testes prestes a atingirem sua data de validade ficaram parados em um depósito em vez de serem distribuídos pelo sistema de saúde; o presidente da República proferiu diversos comentários (indiretos) contra a vacinação. Todo esse panorama mostra que não soubemos lidar com a pandemia, e que o negacionismo de líderes nacionais diante de estudos científicos, permitiu também a complacência da população no relaxamento das medidas de segurança.
Segundo o Datafolha, em pesquisa publicada no dia 19 de dezembro, vivemos hoje o menor índice de isolamento social desde abril. O dado demonstra que o posicionamento negacionista do governo, alinhado ao descumprimento das recomendações sanitárias, geraram consequências não só no campo prático (falta de insumos médicos básicos e descontrole do isolamento) como também no simbólico. Piadas, insinuações e passeatas apoiadas pelo próprio presidente propiciaram uma banalização da pandemia, levando o Brasil a uma assustadora segunda onda de contágio.
Países como a Nova Zelândia, com pronunciamentos diários da primeira-ministra, Jacinda Ardern, demonstraram que a posição segura, sincera e científica de líderes nacionais, não só tranquilizam a população, como controlam os índices de contágios e, especialmente, salvam vidas. Durante toda a pandemia foram registradas apenas 25 mortes de neozelandeses em decorrência da covid-19.Outros exemplos como esse podem ser encontrados em vários continentes com diferentes modelos e situações econômicas, políticas, sociais e demográficas, como a Coréia do Sul, o Uruguai, a China, o Vietnã e a Austrália.
Precisamos compreender que pandemias podem ocorrer a qualquer momento, sem hora ou lugar. Por isso, o investimento em centros de pesquisas científicas que possam nos preparar para o que pode estar por vir se faz tão necessário. Todos fomos pegos despreparados pela covid-19, mas, ainda assim, alguns países que já possuem conhecimentos de como se prevenir (também por já terem passado por outros surtos epidêmicos) conseguiram conter a pandemia atual de forma mais eficiente. A China é um grande exemplo. Foram as políticas anti contágio implementadas pelo país ainda no final de 2019 que permitiram que a China conseguisse rapidamente conter o número de infectados. No que se refere ao futuro e a novas pandemias, talvez a prevenção mais eficiente seja um maior investimento em ciência, tecnologia, pesquisas acadêmicas e estruturação das nossas agências de fomento científico, além da retomada da industrialização do Brasil, sem termos que depender de insumos básicos vindos do exterior.
Tivemos tempo e exemplos para nos preparar, mas escolhemos – talvez muito antes da pandemia – o caminho da descrença. Somos o terceiro país mais afetado pelo novo coronavírus em todo o planeta, talvez esse seja o real intuito do “Brasil acima de todos”.
Jonathan Vicente é biomédico, especialista em ciência política com ênfase em saúde pública pela USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) e mestrando em medicina e saúde coletiva na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Membro do coletivo negro Ayé da USP e da Aliança Pró-Saúde da População Negra.
Hélio Cunha Filho é jornalista formado pela Uern (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte) e especialista em gestão de comunicação pela Faculdade Católica do Rio Grande do Norte.
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