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Marcos Antonio Tavares Lira
É possível sairmos dos muros da universidade e mudarmos a realidades de centenas de pessoas
A UFPI (Universidade Federal do Piauí), instituição à qual sou vinculado desde 2010, está instalada no estado com maior incidência de radiação solar do país, o que o coloca numa condição natural para o aproveitamento de energia solar. Notadamente nos últimos oito anos tenho atuado em projetos de pesquisa e de extensão, cujo objetivo tem sido a difusão das tecnologias energéticas ambientalmente sustentáveis, sobretudo a partir da energia solar.
Em um cenário em que as instituições públicas de ensino superior têm sido cada vez mais cobradas sobre o seu real papel diante de soluções práticas, que resolvam os principais problemas do homem contemporâneo, eu tenho como motivação a inquietação de como eu posso tirar as pesquisas da gaveta e transformá-las em ações que possam melhorar a condição de vida das pessoas, em especial aquelas sem acesso às tecnologias de uso de energia solar.
Como servidor público, tenho como princípio norteador o propósito de zelar pelo ensino, pela pesquisa, mas sobretudo pela extensão, pois é nessa dimensão que ocorre a relação dialógica entre universidade e comunidade. É na comunidade externa à universidade que percebemos a pluralidade de realidades e como podemos intervir no sentido de transformar positivamente as mesmas. Em nossas ações, faz-se essencial a participação dos alunos de graduação e de pós-graduação bem como de outros colaboradores servidores da UFPI e de outras instituições parceiras.
Nossas ideias sempre partem do desejo de transformar/melhorar a realidade de determinada comunidade a partir de iniciativas inovadoras. De todas as ações desenvolvidas por nosso grupo, selecionamos três para compartilhar: a) energia solar em comunidades do semiárido para uso no bombeamento de água; b) instalação de sistema de energia solar em uma escola para se trabalhar os conceitos de educação ambiental e c) uso da energia solar para um maior conforto térmico dos usuários de paradas de ônibus.
O projeto de bombeamento de água no semiárido usando energia solar, realizado entre 2017 e 2020, foi implementado a partir de recursos prospectados em uma emenda parlamentar. Com a mobilização de docentes, técnicos e alunos, realizamos a instalação de 11 sistemas de energia solar para o bombeamento de água em comunidades que possuíam poços, mas não tinham acesso à energia elétrica. O projeto foi reconhecido pela ONU (Organização das Nações Unidas) como uma das seis experiências mais inovadoras do Piauí, resultando em uma premiação de R$ 100 mil. Posteriormente, com o prêmio recebido pela ONU, instalamos mais 11 sistemas, beneficiando aproximadamente 80 famílias. Considerando que o Piauí tem um rico lençol freático e o maior índice de radiação solar do Brasil, juntamos essas duas riquezas para justificar a escolha. As comunidades atendidas tinham o poço, mas não tinham a energia. Com os sistemas solares de bombeamento, as famílias passaram a contar com 5.000 litros de água por dia para uso na agricultura familiar, piscicultura e abastecimento humano.
É preciso zelar pelo ensino, pela pesquisa, mas sobretudo pela extensão, pois é nessa dimensão que ocorre a relação dialógica entre universidade e comunidade
O Projeto Escolas Solares, realizado entre 2018 e 2022, foi viabilizado também com recursos advindos de uma emenda parlamentar. Com o apoio de docentes, técnicos e alunos, realizamos a instalação de um sistema de energia solar em uma escola na zona rural no município de Oeiras (primeira capital do estado). Tal iniciativa se configurou como a melhor opção, uma vez que, além da economia de R$ 1.000 mensais com o pagamento de energia elétrica, queríamos realizar ações envolvendo educação ambiental, tais como uso eficiente da energia, reuso de água de bebedouros e ares-condicionados, aproveitamento de água da chuva, coleta seletiva e hortas orgânicas. Além disso, por meio de kits didáticos, os alunos realizam experimentos que mostram o processo de conversão de energia do sol em energia solar. Esta foi a primeira escola rural do Brasil a ter um sistema de energia solar.
O projeto-piloto Parada Solar foi aprovado e financiado com recursos oriundos de um edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí. Teresina é uma cidade que possui temperaturas em torno de 38 ºC durante sete meses do ano. Pessoas que fazem uso das paradas de ônibus neste período sofrem com o calor. Partindo dessa realidade, em 2019, instalamos um sistema de energia solar em uma parada de ônibus no interior do campus da UFPI. O sistema fornece energia elétrica para oito ventiladores e 16 tomadas no interior da parada. A parada escolhida foi a que fica mais próxima do Hospital Universitário, local frequentado por muitos idosos.
Para o pleno desenvolvimento dessas iniciativas, destaco algumas características pessoais, sem as quais, minha trajetória teria sido mais difícil. Dentre elas estão a capacidade de diálogo, a prospecção de parcerias, o espírito de liderança, a qualificação técnica e sobretudo a inquietação e a vontade de transformar a realidade em minha volta. Todas essas ações podem ser replicadas em outros contextos (em áreas urbanas, outros sistemas de paradas em municípios, o projeto escolas solares pode ser replicado, por exemplo, na área de saúde).
Com os projetos integrando o eixo meio ambiente, nossas ações estão alinhadas com os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentáveis), da ONU, sobretudo os ODS 7 e 13, que tratam do uso da energia renovável e práticas que mitiguem o impacto das mudanças climáticas. Em todos os projetos, tivemos um ganho em termos de qualificação de recursos humanos. Nossas ações contribuem para o desenvolvimento de capacidades institucionais no setor público, na medida em que mostram o papel da universidade e como a mesma pode desenvolver ações voltadas para sociedade civil. Fica como lição que é possível sairmos dos muros da universidade e mudarmos a realidades de centenas de pessoas. Também que não basta implementar a tecnologia, é preciso viabilizar a apropriação tecnológica das comunidades atendidas.
Marcos Antonio Tavares Lira é docente do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPI (Universidade Federal do Piauí). doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente e mestre em Ciências Físicas Aplicadas.
Este conteúdo é parte da cobertura especial “a serviço do público”, que tem o apoio da república.org, um instituto apartidário e não-corporativo, dedicado a melhorar a gestão de pessoas no serviço público, em todas as esferas de governo.
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