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No dia 21 de junho, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) lançou seu relatório sobre desafios e estratégias na luta contra a desinformação científica. O documento argumenta que a desinformação é “sustentada por um ecossistema lucrativo que inclui a monetização de conteúdo enganoso e a exploração das crenças e emoções do público”, e conclui dizendo que a disseminação de informações falsas reduz a confiança nas instituições científicas e governamentais. Também aponta medidas para combater o problema, que incluem a promoção da divulgação da ciência, o fortalecimento da comunicação das instituições de ensino e pesquisa, o investimento em educação midiática e científica e a regulação das redes sociais.
O Brasil está longe de ser o único país preocupado com o tema. Um relatório sobre riscos globais do Fórum Econômico Mundial em janeiro considerou a desinformação o maior risco global de curto prazo, à frente de guerras, eventos climáticos, polarização social e adversidades econômicas. A ideia, porém, é contestada por alguns, que questionam tanto o real impacto das informações falsas sobre o comportamento das pessoas quanto a possibilidade de definir objetivamente o que constitui desinformação, o que traz o risco de que o conceito seja usado para censurar indevidamente o debate público.
Tentar policiar a desinformação geralmente equivale a enxugar gelo. Talvez seja mais útil concentrar forças na tarefa mais factível de fortalecer a informação confiável
Tais críticas levaram um grupo de pesquisadores da área a publicar um editorial na revista Nature chamado “a desinformação é um risco maior à democracia do que você pensa.” O editorial alega que pesquisadores que combatem falsidades estão sob ataque, da mesma forma que cientistas do clima e da saúde pública antes deles. Em resposta a dúvidas sobre a dimensão do problema da desinformação, fazem alusão a campanhas anteriores colocando em dúvida consensos sobre os danos do tabaco e o aquecimento global. Por fim, fazem um apelo ao controle da desinformação como uma prioridade fundamental para a defesa da democracia.
Assim como o relatório da ABC, o apelo é incisivo, convincente e fácil de empatizar para qualquer um que tenha participado do ambiente online em tempos recentes. Pelo menos na minha humilde opinião, porém, ele erra o alvo em uma série de suposições.
Em primeiro lugar, o discurso sobre desinformação costuma estar imbuído de uma ideia de passividade do público, como se o cidadão comum fosse uma vítima da desinformação por não ter discernimento ou acesso à informação correta. A suposição parece intuitiva, mas um corpo de evidência crescente sugere que ela não seja exatamente verdade.
Algumas pesquisas americanas na última década estudaram o efeito do acesso ao conhecimento científico sobre a posição de indivíduos sobre temas politicamente conflagrados. Um deles mostrou que quanto maior a “inteligência científica” da população americana, medida por uma escala de conhecimento de fatos científicos, probabilidade e matemática básica, maior era a polarização. Para os que se descreviam como democratas ou liberais, quanto mais conhecimento, maior a crença em causas humanas para o aquecimento global; no entanto, a relação oposta era observada entre conservadores e republicanos.
Da mesma forma, mais conhecimento se correlacionava positivamente com a adesão à teoria da evolução por pessoas pouco religiosas, mas tinha um efeito mínimo – e no sentido contrário – em pessoas mais religiosas do que a média. A observação foi replicada em um estudo subsequente incluindo os mesmos temas, acrescidos das opiniões sobre pesquisa em células tronco, em que uma vez mais o conhecimento reforçava a polarização partidária. A mesma polarização, aliás, parece existir no Brasil, em que a desconfiança de consensos científicos também se correlaciona com outras posições ideológicas, como opiniões sobre o papel do Estado na saúde e na educação.
Uma das explicações propostas é que indivíduos mais proficientes em ciência sejam mais capazes de encontrar argumentos que sustentem a posição do grupo a que pertencem, ou de racionalizar motivos para rejeitar evidência em contrário. A ideia faz eco à descrição do ecossistema das redes sociais não como uma selva de desinformação, mas como um “mercado de racionalizações”: uma fonte infindável de argumentos a serem ser consumidos como forma de sustentar convicções pré-existentes, em que o cidadão não é vítima mas consumidor ativo.
Nesse panorama, a causalidade entre a exposição a informações questionáveis e o comportamento dos indivíduos não é óbvia: é bem possível que sejam as convicções pré-existentes que levem a busca por determinadas fontes de informação, e não o contrário – o que coloca em cheque a importância dada à desinformação. Para além disso, a correlação inversa entre o conhecimento sobre ciência e a adesão a alguns de seus consensos coloca em dúvida o quanto ações de formação e divulgação científica – estratégias frequentemente invocadas por documentos como o da ABC – de fato ajudam a resolver o problema.
Se as recomendações sobre formação científica têm seus percalços, a ideia de que a desinformação pode ser controlada – seja por agências de checagem de fatos, regulação das redes sociais ou medidas judiciais – parece ainda mais complicada. Primeiro pela dificuldade logística: em tempos de inteligência artificial generativa, avaliar e retirar conteúdo no ritmo alucinante em que ele pode ser gerado é provavelmente impossível. Para além disso, retirar conteúdo de plataformas específicas acaba levando os interessados nele a migrar para cantos mais obscuros e menos regulados da internet – afora alimentar teorias conspiratórias de que a verdade está sendo censurada.
Para além disso, há a questão ainda mais problemática do que classificar como “desinformação”. É óbvio que existem informações inquestionavelmente falsas. Dito isso, estas são uma parcela pequena do que circula na internet ou é veiculado na mídia – e provavelmente daquilo que influencia as pessoas. A impressão é confirmada por um estudo de informação antivacinas no Facebook que mostra que mais de 99% do conteúdo antivacinas não foi marcado como falso por checadores de fatos. Mais do que isso, o artigo estima que este conteúdo teve um impacto quase 50 vezes maior sobre a hesitação vacinal do que notícias classificadas como falsas. Como exemplo, destaca um artigo do Chicago Tribune, visto por mais de 50 milhões de usuários, sobre um médico morto duas semanas depois de tomar uma vacina contra a covid-19.
O problema aí é óbvio – o médico realmente morreu nessas condições. É claro que pode se fazer um argumento de que isso não estabelece causalidade, de que a notícia da forma com que foi veiculada construía uma narrativa potencialmente enganosa, e de que ela pode ter causado um estrago importante. Mas rotulá-la como “falsa” seria mentira, o que faz com que nem um milhão de agências de checagem de fatos seja capaz de contê-la.
Isso tem levado alguns pesquisadores e instituições a defender que a definição de desinformação seja ampliada. A American Psychological Organization, por exemplo, propõe que o termo seja definido “no sentido mais amplo possível como qualquer informação que seja demonstravelmente falsa ou enganosa, independente da fonte ou intenção.” No entanto, tentar abarcar toda informação usada de forma enganosa – mesmo que não seja falsa – torna a definição tão ampla que ela deixa de ser operacionalizável.
Mais do que isso, a maior parte da informação científica não é categórica, mas quantitativa, com margens de erro consideráveis, o que faz com que o limiar entre a informação e a desinformação seja arbitrário. O consenso de que o aquecimento global é antropogênico é bem estabelecido, mas o tamanho do problema depende de quantos graus o mundo vai aquecer nas próprias décadas, uma questão em que mesmo os relatórios de consenso do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) dão respostas probabilísticas. Da mesma forma, vacinas carregam riscos – o que faz com que até o bordão de que “vacinas são seguras”, se tomado de forma absoluta, possa ser chamado de desinformação. A questão que importa, porém, é a comparação entre esses riscos e os benefícios da imunização em diferentes segmentos da população, e as distintas políticas de vacinação de diferentes países estão aí para mostrar que a questão nem sempre é óbvia.
Se separar o que é informação e desinformação já é difícil no quesito vacinas, a coisa fica ainda mais complicada em campos em que o consenso científico simplesmente não existe. A origem da covid-19 – em que parece impossível cravar uma alternativa entre a origem animal e laboratorial – é um exemplo recorrente usado pelos que temem que a ampliação do conceito de “desinformação” acabe por censurar ideias dissidentes mas válidas. Num artigo recente no New York Times, a socióloga Zeynep Tüfekçi critica posturas do governo americano de criar consensos artificiais sobre temas ainda controversos durante a pandemia – incluindo a origem do vírus – e classificar posturas discordantes como anticientíficas.
E ao ver as respostas a esse tipo de crítica – incluindo aí as dos especialistas em desinformação –, é difícil não dar razão aos críticos. Um artigo no The Nation em que um epidemiologista e um microbiologista respondem a Tüfekçi parece ter como principal argumento o fato de que ela não é bióloga ou epidemiologista, e que portanto o Times não deveria lhe dar espaço. Já uma rusga entre o estatístico Nate Silver e o psicólogo Sander Van der Linden – autor de “Foolproof” e um dos principais proponentes do conceito “ampliado” de desinformação – acabou com Van der Linden apelando a autoridades no Twitter para “provarem” que ele estava certo sobre o consenso em relação à origem da covid-19. Tais argumentos de autoridade feitos de forma canhestra mostram o quão difícil é achar critérios para definir o que é “verdade” em boa parte dos assuntos – ainda que não em todos.
Nesse cenário pra lá de complicado, como enfrentar a desinformação? É óbvio que eu não tenho uma resposta pronta, mas meus dois centavos de leigo sobre a desinformação são que talvez devêssemos dar menos bola para ela. Não porque ela não seja importante, mas porque tentar policiá-la geralmente equivale a enxugar gelo, e talvez seja mais útil concentrar forças na tarefa mais factível de fortalecer a informação confiável.
Até porque, convenhamos, tanto o ativista antivacinas médio como a sua tia bolsonarista que não se vacinou contra a covid-19 em 2021 sabiam muito bem que a imensa maioria dos cientistas e órgãos de saúde recomendava fazê-lo. E se eles não o fizeram, provavelmente não foi por desconhecerem o consenso científico, e sim por terem desconfianças em relação a ele.
E na ausência de confiança institucional, o problema da desinformação científica não tem solução. Exterminar todas as mentiras do mundo é impossível. Entrar na guerrilha de informação nas redes sociais com uma gritaria de vozes independentes tampouco funciona – podemos falar o quanto quisermos, mas as pessoas ainda vão escolher em quem acreditar. E a ideia de que conseguiremos “treinar as pessoas para distinguir ciência de pseudociência” pode dar certo em questões como o formato do planeta Terra. Mas para qualquer coisa mais complexa, é praticamente impossível para o cidadão médio “formar sua própria opinião” de forma consistente – não só por falta de formação, mas por falta de tempo e paciência. Eu mesmo só acredito que o aquecimento global é antropogênico porque me contaram, e porque o consenso parece vir de instituições nas quais eu aprendi a confiar. Posso ter faculdade e doutorado nas costas, mas avaliar evidência em algo fora da minha área de expertise com um emprego em tempo integral e três crianças pra criar é simplesmente impensável.
E como criar confiança nas instituições? O relatório da ABC fornece algumas propostas. Uma delas é fortalecer a comunicação institucional das instituições de pesquisa e ensino – algo em que nossas universidades têm bastante a melhorar. Mais do que isso, é fundamental que consensos sejam articulados de forma clara por instituições científicas – apontando não só a visão preponderante sobre um tema, mas também o grau de incerteza associado a ela. Isso ocorre em algumas áreas – como em recomendações de órgãos de saúde e sociedades médicas, ou nos relatórios do IPCC sobre a questão climática. Mas para a maior parte dos temas científicos, entender o que é consenso e o que não é requer tempo e expertise, deixando jornalistas, checadores de fatos, geradores de políticas públicas e outros cidadãos interessados a ver navios – ou a consultar especialistas cujas posições já são conhecidas de antemão.
Mais do que isso, fortalecer instituições também envolve torná-las mais robustas e isentas. Quando seu ativista antivacinas diz que a medicina foi comprada pela indústria farmacêutica, o grande problema é que ele tem razão. A pesquisa clínica de grande escala foi em larga medida terceirizada para a indústria, e as listas de conflitos de interesses de seus autores costumam ocupar páginas inteiras em letras miúdas. Membros de agências regulatórias frequentemente recebem pagamentos dos fabricantes dos medicamentos por cuja aprovação eles são responsáveis. E a grande maioria dos médicos recebem representantes de laboratório, com brindes e pequenas benesses que somados podem tomar proporções milionárias. É claro que isso não significa que toda a ciência médica seja mentira. Mas é difícil desfazer essa percepção quando somos incapazes de resolver problemas escancarados que vêm sendo apontados há décadas.
Da mesma forma, o argumento de que estudos científicos dizem uma coisa e depois se desdizem – e logo não deveriam ser levados a sério – também tem seu quê de verdade. Parte disso é inerente ao fato de que a ciência é um processo contínuo de refinamento de modelos, em que as verdades mudam ao longo do tempo. Mas parte disso é simplesmente ciência mal feita. Taxas de replicabilidade de resultados são chocantemente baixas em inúmeras áreas de pesquisa, e a ideia de que “a revisão por pares garante a confiabilidade da ciência” é pura balela. E achar que vamos conseguir ensinar o cidadão comum a diferenciar os artigos que prestam dos que não prestam parece improvável se os próprios cientistas não conseguem resolver seu problema de controle de qualidade.
Enquanto não resolvemos esses problemas – vários dos quais têm inúmeras soluções possíveis –, a maneira mais sólida de criar confiança institucional me parece ser transparente a respeito deles. Admitir limitações e incertezas, deixando claro que elas não são infinitas, e que no fim do dia o consenso científico costuma acertar mais do que errar. E se conseguirmos tornar esses consensos explícitos de uma forma isenta e desvinculada de outros interesses, o cidadão médio provavelmente acredita o suficiente na ciência para confiar neles e não no grupo de WhatsApp do condomínio.
Mas para criar essa confiança, “a ciência” – ou, mais concretamente, os envolvidos na pesquisa acadêmica – tem que encarar sua parcela de culpa. No fim das contas, o que me incomoda no debate sobre desinformação é o fato de que ele fornece espantalhos fáceis – sejam eles governos populistas ou redes sociais malvadas – para explicar a perda de confiança da população na ciência. Enquanto isso, pesquisadores tomam a bandeira da “Ciência” com cê maiúsculo e se colocam como heróis de uma batalha maniqueísta da luz contra as trevas, ao invés de como parte do problema.
E lendo o relatório da ABC, o que mais me chama a atenção é que a conclusão final é de que “essas ações [de controle da desinformação] fortalecerão a confiança nas instituições científicas e na mídia globalmente.” Não é mentira, mas o problema maior é justamente o contrário: é antes de tudo a falta de confiança nas instituições que torna a desinformação um problema. Ainda dá tempo de inverter a frase para quebrar esse ciclo vicioso, mas isso requer que as tais instituições se livrem da soberba e aceitem o desafio de se olhar no espelho.
Olavo Amaralé médico, escritor e professor da UFRJ. Foi neurocientista por duas décadas e hoje se dedica à promoção de uma ciência mais aberta e reprodutível. Coordena a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, uma replicação multicêntrica de experimentos da ciência biomédica brasileira, e o No-Budget Science, um coletivo para catalisar projetos dedicados a construir uma ciência melhor. Como escritor, é autor de Dicionário de Línguas Imaginárias e Correnteza e Escombros
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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