O Complexo do Alemão é uma grande favela, localizada na zona norte do Rio de Janeiro. Um lugar de pessoas incríveis, criativas, de histórias inspiradoras e de uma garra incomparável. Ruas movimentadas, comércio vivo, transporte alternativo a todo vapor (Kombis e motos-táxi).
Porém, muitas vezes tudo isso é silenciado diante de uma outra situação. Aqui também é um local muito estigmatizado por conta da chamada “guerra às drogas” e toda a violência gerada a partir disso.
Em meio a esse cenário, faço parte de um coletivo de comunicação independente chamado Papo Reto, que usa de ferramentas diversas, somadas ao audiovisual e à internet, para buscar, afirmar e tentar garantir direitos para a favela, publicizando informações, realizando ações e disputando narrativas.
Como nos anos anteriores, 2017 também tem sido de intensos conflitos, oriundos de uma política pública que só dialoga com a nossa realidade a partir da violência, justificada pela clássica hipocrisia da “guerra às drogas”.
Quanto a isso, me pego lembrando quando em 2010 chegou na favela um projeto chamado UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), em que um contingente policial ficaria de forma permanente dentro do Alemão. A ideia “inovadora” não deixou de ser mais do mesmo, o Estado novamente agiu acreditando que construir diálogo e avanço com a favela é chegar a nós observando-nos a partir da mira do fuzil da polícia.
Logo ficou exposto o que isso era, uma verdadeira contenção da camada popular, com muito discurso de que haveria investimentos em diferentes áreas, mas na prática, presença massiva da polícia e apenas.
Desde então, muita mídia havia sido feita em cima desse novo padrão de ação, que chegou também acompanhado do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal. Este que no seu ápice construiu o teleférico do Alemão. Mais à frente, tudo isso se desdobrando em cenário de novela e filme. Essas foram só algumas das coisas que se juntaram ao espetáculo, alimentando o discurso falso e arrancando sorrisos e aplausos de muitas pessoas que normalmente olham para as favelas com desdém.
Hoje em dia se você olhar para o alto, verá o teleférico parado. Faz quase um ano que está assim. Tamanha obra construída com o dinheiro de todos nós sem funcionar virou o símbolo da farsa.
Em 2017, mês de março, momento em que escrevo o texto, já foram vários os dias de confrontos, aliás, já são anos, passados aquele 2010 em que discursaram mudanças, enquanto se iniciava a maior era de brutalidade que essa favela viveria, infelizmente.
No mês passado, por exemplo, todos os dias houveram confrontos, como podemos ver neste mapeamento , feito pela equipe do Coletivo Papo Reto.
Dentre as coisas mais absurdas deste ano está o recente fato que acontece na área da UPP Nova Brasília, uma das localidades aqui da favela, onde policiais invadiram casas de moradores, expulsaram essas pessoas e fizeram a moradia dessa gente humilde, de base militar!

Casa invadida pela PM no alto da Praça do Samba, alvorada, Complexo do Alemão
O cúmulo do absurdo, violações graves de diversos direitos, que começaram a ser denunciadas e comprovadas por meio da página do Coletivo Papo Reto que, na tentativa de expor esse absurdo e recuperar as casas das pessoas que continuam ocupadas, começam a ter seus integrantes ameaçados por servidores públicos.
Ao mesmo tempo, também recebem parcerias importantes, como a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), Comissão de Direitos Humanos da OAB, DDH – grupo composto por advogados e advogadas que atuam no campo dos direitos humanos, do #MeuRio, que por meio do Defezap, criou esta mobilização direta dentre outros.
Daquilo que se iniciou em 2010, com promessas de investimentos em diversos setores, apenas a polícia permanece, jogada aqui dentro, violenta e violadora, diante da não sustentação do governo dessa política de (in)segurança, que baseada apenas em discurso, hoje segue aos trancos e barrancos, com policiais morrendo, matando e esculachando muito as pessoas, baseando tudo na falsa – e perversa – “guerra às drogas”, que em momento algum discute sobre essas substâncias.
Há 28 anos eu convivo com a violência da chamada “guerra às drogas” e fico indignado de como existe a audácia de chamarem de guerra “às drogas” ações que matam muito mais pessoas do que o uso dessas substâncias. É uma guerra, sim. Mas contra as drogas? Não mesmo.

Casa de morador toda fuzilada próximo a praça do samba, no alto da Alvorada, Complexo do Alemão. Os rostos dos moradores foram borrados a pedido do autor.
Se realmente fosse pelo motivo das drogas, estas que estão em todos os lugares, então por que somente na favela acontece essa violenta guerra?
É doloroso perceber que a única política pública que chega de forma efetiva e permanente para a favela, vem por meio da secretaria de segurança, que “passa a bola” para a polícia e o contato direto do Estado com a favela, se dá dessa forma tão absurda.
É triste perceber que na chamada “guerra às drogas”, essa parte violenta só acontece nas favelas, expondo o grave problema dos preconceitos, racismo, estigmas diversos e selecionando nossa juventude e gerações como a que vai presa ou é executada, nessa seletividade perversa, em vez de se discutir tudo isso amplamente.
Essa guerra historicamente vem causando prejuízos diversos para quem mora na favela, por meio de operações problemáticas que não constroem nada, pelo contrário, só têm causado destruição e a piora da situação. Problemas que têm evoluído com a chegada de novos armamentos bélicos, como o carro blindado usado pela polícia, conhecido como Caveirão, que com sua imponência e blindagem, deixa prejuízos diversos para moradores onde passa: sempre acaba amassando carros e motos, derrubando muros de casas, postes, pela força do quase tanque militar.

Carro blindado usado pela polícia é conhecido como Caveirão
É inaceitável que durante todos esses anos e ainda hoje os maiores investimentos públicos para a favela só chegaram na lógica de guerra às drogas, repetindo o mesmo modus operandi, por tanto tempo, já que esse formato nunca trouxe solução. Só causa prejuízos financeiros, psicológicos e físicos para moradores, além de matar pobres de farda e sem farda, TODOS OS DIAS!

Morador do Complexo do Alemão na janela de casa. O rosto do morador foi borrado a pedido do autor.
Vemos pessoas em solidariedade com países em guerra no mundo, mas não se tem empatia com os graves dados anuais apresentados por uma série de instituições de iniciativas civis ou públicas, que expõem a violência, apontam que há preconceito com a pobreza e um racismo muito presente, mas ignorado, negado.
Então como negar corpos presos ou mortos?
Como negar as falhas gravíssimas de um sistema prisional que está explodindo e só torna as pessoas cada vez menos humanas?
Cadeias lotadas de pessoas presas com pequenas quantidades de drogas e um sistema lento que faz grande parte da população carcerária ser de presos provisórios. Alimentando todo tipo de revolta.
É preciso aceitar e encarar os fatos, precisamos trilhar caminhos que não sejam pautados na lógica do ódio e fortalecer educação, saúde, acesso e formas não violentas de tratar a situação.
É preciso questionar o fato de que diante das rotas feitas por quem traz drogas e armas, um caminho internacional num percurso que enriquece tanta gente… por que apenas quando chega ao varejo das favelas, é que se “enfrenta” o caso, historicamente tratado a partir da guerra nas áreas pobres.
Questionar também termos como “bala perdida”… assim chamada a munição que matou, dentre tantas pessoas, o menino Eduardo de Jesus, 10 anos, sentado na porta de casa no Complexo do Alemão. O menino teve a cabeça estourada por um tiro de fuzil. Caso que fará dois anos agora no dia 2 de abril.
Bala perdida é algo mentiroso e cruel. Não são perdidas as munições que se disparam em locais específicos, endereço de pessoas humildes, que por preconceito, racismo e estigmas, nos rotularam como inferiores e matáveis dentro das favelas.
De 2010 até hoje, é incalculável o número de pessoas que morreram de forma violenta ou por consequência dessa situação. Isso contando apenas esses anos, pois são muitos mais.
Tudo isso por causa das drogas?
Em nome de uma absurda guerra declarada às drogas, essas substâncias que poderiam ser abordadas e discutidas a partir de qualquer outra forma não violenta, escolheram prender e matar pobre como solução.
É preciso explodir essa Matrix que afoga parte da população em soberba ou acordá-la do estado vegetativo, para que comecem a perceber e também se entender como responsável pelo derramamento de tanto sangue.
Não é assim que se criarão mudanças, não com essa polícia, não com essa política de violência, mas com investimentos reais em médio e longo prazo na educação, na saúde, na melhoria estrutural da favela, no fortalecimento da criação de oportunidades para nossa juventude. É preciso discutir amplamente o racismo e as drogas criando diálogos, e não nos matando usando as drogas como justificativa.
Raull Santiago é ativista de direitos humanos e comunicador independente do Coletivo Papo Reto.