Em artigo anterior, mostramos que a distância social entre eleitores e deputados federais pode se traduzir em um desalinhamento de preferências políticas a respeito de temas econômicos, especialmente entre os estratos sociais mais baixos. Isso acontece porque os posicionamentos ideológicos são geralmente fixados por aspectos simbólicos e afetivos. Na psicologia política, é cada vez mais forte a ideia de que o “sentir” é parte do “saber”. Conceitos e preferências sustentam-se em afetos que moldam tanto a coerência das convicções quanto o raciocínio lógico.
Pesquisas relativas ao perfil sociodemográfico de parlamentares brasileiros costumam revelar uma diferença acentuada em relação às características sociais dos eleitores. Entre nossos legisladores, temos, proporcionalmente, mais homens, mais ricos e mais brancos do que no conjunto da população. O gráfico abaixo, com dados para 2014, é exemplificativo:

Em termos de classe ou estrato social, a imagem da Câmara dos Deputados é praticamente inversa àquela da população geral. Mais de 3/4 dos representantes vêm de ocupações profissionais relativas aos estratos mais altos da sociedade, por exemplo, assim como não brancos e mulheres sequer alcançaram 20% ou 15% das cadeiras parlamentares em 2014, respectivamente.
Já nos perguntamos o que afasta pretos e pardos do Congresso . Também já vimos que o desalinhamento nos postulados relativos à condução da economia entre estratos sociais é exemplo importante de como posições identitárias desiguais produzem visões de mundo divergentes. E observamos que os deputados federais não são igualmente engajados em relação a temas de políticas públicas específicos, antes pelo contrário, como no caso do clima e meio ambiente — o que pode estar associado à origem social. Neste ensaio, optamos por outro caminho. Qual seria um dos efeitos práticos dessa sub-representação e da dissonância quanto às inclinações políticas? Sendo mais específico: esse afastamento está relacionado, de alguma maneira, à satisfação dos cidadãos com a democracia?
Para buscar essa resposta, analisamos os níveis de satisfação com a democracia de diferentes estratos sociais, com base nos dados para 2014 do Barômetro das Américas , pesquisa conduzida pela Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos. Num exercício rápido, olhamos para a posição social dos indivíduos mediante uma variável composta por renda e escolaridade, separando os estratos mais baixos dos mais afluentes em duas categorias. A figura abaixo mostra os resultados de um modelo de regressão logística que relaciona posição social a satisfação com a democracia, usando as variáveis sexo e raça como medidas de controle, a fim de melhorar os achados.

Simplificando, o gráfico mostra ser mais provável que eleitores dos extratos sociais mais baixos, aqueles menos representados no parlamento, estejam insatisfeitos com a democracia (por volta de 60%), enquanto os mais abastados — e melhor representados — tendem a mostrar menor insatisfação, embora ainda em níveis importantes (por volta de 50%). O quanto essa informação importa?
Sem ignorar que a condição social da pessoa é, por si só, um aspecto relevante de sua opinião sobre o mundo político, o desalinhamento nas atitudes e comportamento dos representantes em relação aos representados pode ser um dos fatores-chaves na formação da percepção que os eleitores têm sobre a democracia, num processo que afetaria, no seu limite, a própria legitimidade do regime político. E num cenário de crescente fragilização na imagem das instituições, esses desencontros na representação são mais um problema sem solução mágica. Vale ficar atento.
Thiago Moreira da Silva é doutor em ciência política pelo Ipol-Unb e pós-doutorando no Iesp-Uerj.
Júlio Canello é pós-doutorando no Iesp-Uerj e pesquisador no Necon (Núcleo de Estudos sobre o Congresso) e no OLB (Observatório do Legislativo Brasileiro).

Este texto é parte de um projeto de parceria do Nexo com núcleos e institutos acadêmicos que vão analisar semanalmente os seguintes temas durante a campanha eleitoral: a eleição parlamentar, a agenda urbana e social e o comportamento dos eleitores na internet.
O Iesp (Instituto de Estudos Sociais e Políticos) da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) publica às sextas-feiras análises sobre a eleição parlamentar.