No dia 2 de junho de 2021, veio à mídia a notícia de que pais de alunos da Móbile, escola de alto padrão na zona sul da capital paulista, haviam endereçado uma carta de descontentamento à direção da instituição. No abaixo-assinado, cerca de 90 pais criticam o “constrangimento” de seus filhos que haviam sido expostos a “aspectos eróticos da narrativa” da versão em quadrinhos do clássico “O diário de Anne Frank”.
Na carta, eles se queixam de a escola ter abandonado a versão anterior, em que as interrogações e experimentações da jovem de origem judaica não constavam no texto. Como se sabe, o pai de Anne, Otto Frank, optara por deixar os trechos de fora da primeira edição estabelecida do famoso diário.
Com o tempo, no entanto, a versão expurgada foi abrindo espaço para a apresentação do documento mais completo, enriquecido com os trechos que, ainda que sensíveis ao pai, davam um matiz mais humano e complexo à figura da garota. A versão em quadrinhos, de autoria de Ari Folman e David Polonsky, incorporou esses “novos” trechos.
O tom dos pais é direto e a carta é bem redigida. Ela cita trechos do original – “the hole [vagina] is so small I can hardly imagine how a man could get in there” (“o buraco é tão pequeno que eu mal consigo imaginar como um homem poderia entrar lá”, em tradução livre), “every time I see a female nude, I go into ecstasy” (“toda vez que vejo uma mulher nua, eu entro em êxtase”, em tradução livre), etc. – e, em maior volume, relatos de pais horrorizados – “Minha filha me perguntou… Mamãe por que eu colocaria um dedo dentro da minha perereca? Quase morri…”, “Minha filha que leu sobre pênis e vagina. Disse que deu risada. Certamente pq ficou constrangida” [sic], “A cena é constrangedora para um adulto. Imagino para uma criança”, etc. Alguns acrescentam que a temática da sexualidade banaliza e torna secundário o tema principal: o Holocausto .
De certa forma, os pais têm razão: uma temática dessa magnitude não pode ser trazida à baila de supetão, tão abruptamente. Mas têm razão pelos motivos errados. As dúvidas das crianças quanto à sexualidade são bastante precoces, bem anteriores aos 11 e 12 anos, e é preciso que essas interrogações sejam respondidas de forma delicada e paulatina, na língua das crianças, desde cedo. Concordo com a mãe abaixo-assinante que se diz psicóloga: “a sexualidade tem que ser trabalhada no tempo das crianças”. Mas lhe devolvo uma pergunta: que criança de 4, 5 ou 6 anos não quer saber o que é o “faz-pipi” ou “de onde vêm os bebês”? É hediondo sonegar à criança uma resposta tão importante.
Enfim, trata-se de um quiproquó que, em condições ideais, envolveria uma boa conversa dos pedagogos com os pais sobre a necessidade de esclarecer os alunos quanto ao processo da puberdade. A escola teria a oportunidade de explicitar à clientela suas diretrizes pedagógicas e tirar as dúvidas que os pais, leigos no assunto, pudessem eventualmente ter sobre esse campo do conhecimento. Em um mundo ideal, aliás, os pais poderiam levar aos divãs os motivos por que eles interpretaram as risadas como “constrangimento” e qual a relação que eles travam com a sexualidade deles e de seus rebentos.
Tinha tudo para ser um contratempo local, resolvido localmente. Logo, porém, o “caso Móbile” se tornou mais uma peça na retórica paranoica globalista dos círculos bolsonaristas.
No mesmo dia 2 de junho, a blogueira Pietra Bertolazzi publicou para os 159 mil seguidores de sua página do Instagram um vídeo comentando o ocorrido. Bertolazzi se apresenta na minibio como “Cristã, Antifeminista e Antiglobalista”.
Após ler os trechos acima citados, ela interpela seus seguidores dizendo que eles certamente julgaram se tratar de “um conto erótico” ou da “autobiografia de uma atriz pornô”. Para ela, esse “remake desconstruidão” [sic] é uma afronta e um insulto à comunidade judaica. Para Bertolazzi, “não dá para falar outro nome”: o livro é “nojento”.
Segundo a blogueira, a escola alegou que os autores eram artistas premiados, o que seria uma forma de autorizar “uma sexualização das crianças sem precedentes” que faz parte “de um projeto político e cultural engendrado contra o que é natural na criança” (grifos meus). Ela acusa a diretora pedagógica por ter um “histórico bastante progressista” com trabalhos sobre erotismo “desde sua pós-graduação”. Por fim, queixa-se de não haver em São Paulo parlamentares trabalhando contra esse tipo de “agenda progressista”.
Estamos aqui às voltas com um dos argumentos paranoicos mais recorrentes no meio bolsonarista. O anti-intelectualismo bolsonarista prega que as universidades, entregues aos esquerdistas, são um antro de doutrinação em marxismo cultural que serve aos fins da agenda globalista.
São teorias conspiratórias que fizeram um salto do discurso esquizoparanoide de Olavo de Carvalho para as escrivaninhas do Poder Executivo, via figuras como Abraham Weintraub. Olavo de Carvalho vem difundindo suas teorias em ambientes semieruditos de baixa intensidade intelectual e científica, entre pessoas que querem saber “a Verdade”, mas se veem excluídas dos bancos universitários. “A Verdade” existe, é acessível, mas não pode ser comprada das mãos de esquerdistas sectários.
No dia seguinte, o “Morning Show” da rádio Jovem Pan trouxe o tema para a pauta do debate entre Joel Fonseca e Adrilles Jorge. O programa, como muitos outros, tira proveito dos ventos de polarização – que sopram fortes desde 2013 – para encenar o embate entre uma pessoa de esquerda (Joel) e outra de extrema-direita (Adrilles). Não é segredo de ninguém que as opiniões de Adrilles apenas repercutem a linha editorial da Jovem Pan.
Depois de uma introdução de senso comum sobre “O diário de Anne Frank”, Adrilles diz que não teria problemas com as partes do livro que tratam da sexualidade “se fosse, eventualmente, comprovadamente, real”. Isto é, ele coloca em dúvida, sem qualquer tipo de conhecimento de causa ou alusão aos estudiosos do manuscrito, a autenticidade do texto. Entre “negação” (da sexualidade púbere) e o “negacionismo” (histórico) não há mais que um “ismo”: o bolsonarismo…
Da perspectiva que for – pedagógica, psicanalítica, sociológica – privar crianças e adolescentes de esclarecimentos quanto à sexualidade é uma forma de imbecilizá-las
Daqui em diante, o senso comum descamba em obscurantismo conspiracionista. Adrilles defende a “hipótese” de que as partes em que Frank descreve a atração homoerótica pela amiga podem ter sido acrescentadas pela “Instituição Anne Frank” [a Anne Frank Foundation].
Seguindo a linha argumentativa de Bertolazzi, Adrilles Jorge defende que há uma agenda progressista de sexualização de crianças levada a cabo pela Unicef (Fundo da Nações Unidas para a Infância) e pelas instituições por ela endossadas, dentre as quais consta a AFF (Anne Frank Foundation). A Unicef – e por extensão a AFF – promove aquilo que Adrilles chama de “apologia a um tipo de educação sócio-sentimental-sexual-afetiva-social” [sic], o que teria levado ao declínio do ensino em escala mundial. Não muito tempo depois, no dia 6 de junho, Adrilles tuitou que a Unicef considera o controle à pornografia uma violação aos direitos humanos.
Aqui, não temos como deixar de recordar o artigo “Chegou o Comunavírus” , do ex-chanceler Ernesto Araújo. Durante a oitiva com o ex-ministro na CPI da Pandemia, toda a ênfase quanto ao texto caiu sobre as insinuações que ajudaram a entravar as relações diplomáticas com a China e a compra de insumos para a produção de vacinas. Isso é compreensível, uma vez que foi Kátia Abreu quem deu o tom ao que todos nós assistimos, a demolição pública da imagem de Araújo.
A leitura do artigo, no entanto, chama a atenção por colocar no cerne do redespertar do “pesadelo comunista” não a China, mas sobretudo a ONU, na figura da OMS (Organização Mundial da Saúde), o que em nada é menos escandaloso. Para Araújo, a OMS tem grande “valor” para “a causa da desnacionalização, um dos pressupostos do comunismo”. Isto porque “transferir poderes nacionais à OMS, sob o pretexto (jamais comprovado!) de que um organismo internacional centralizado é mais eficiente para lidar com os problemas do que os países agindo individualmente, é apenas o primeiro passo na construção da solidariedade comunista planetária”.
“Seguindo o mesmo modelo”, continua Araújo, “o poder deve ser transferido também para outras organizações, cada uma em seu domínio”. É aí que a Unesco entra como peça central no jogo geopolítico comuno-globalista. A Unesco e, por extensão, a Escola Móbile.
Enfim, é um desfiladeiro delirante que, depois de um ponto, se torna maçante e estéril. Afinal, já que o assunto é escola, podemos tirar alguma lição?
É eticamente aberrante que os pais dos alunos da Escola Móbile sejam ridicularizados publicamente.
Da perspectiva que for – pedagógica, psicanalítica, sociológica – privar crianças e adolescentes de esclarecimentos quanto à sexualidade é uma forma de imbecilizá-las. Imbecilizar uma criança, como bem aponta o psicanalista Christian Dunker, é deixá-la sem suporte simbólico para enfrentar processos de difícil elaboração. Um imbecil precisa ser pastoreado, pois ele não sabe o que fazer com seu sadismo, seu sofrimento, seu sexo.
É difícil de imaginar que, dentre os pais de alunos da Móbile, não haja reacionários conspiracionistas de má-fé da mesma cepa que Bertolazzi ou Adrilles Jorge. Ainda assim, a carta constrangida, mas educada que escreveram não deixa de revelar que a posição deles, de ignorância frente ao sexual, não difere tanto da dos filhos.
O moralismo pequeno-burguês não priva ninguém de acessar as coisas do sexo: ele apenas incita que isso seja feito pelas vias da hipocrisia. É sobretudo nos sintomas e nos tabus que o adulto manifesta sua angústia quanto à sexualidade. Se é hediondo privar uma criança das respostas que ela tanto busca, por que não deveríamos ter compaixão de seus pais? Espero que a escola não perca a oportunidade de mostrar a que veio a pedagogia…
Outra coisa são os delírios lunáticos bolsonaristas. As teorias conspiratórias das quais vimos uma pequena amostragem revelam o oposto da ignorância infantil: escancaram a ardilosidade retórica de quem é capaz de tudo para produzir, perversamente, uma realidade que sirva a seus propósitos. Por mais doloroso que seja admitir, não seria esse o trunfo último, a maestria de Bolsonaro? Ele não responde ao desejo das pessoas: ele o produz. Ele não opera na conjuntura dada: ele a cria no gabinete de seu, vejam só, filho.
É uma estratégia canalha. Daí vemos nascer mamadeiras de pirocas, globalismos, cloroquinas e tantos outros avatares do oportunismo. Dentro dessa lógica, debates como o da Jovem Pan são uma encenação melancólica de um falso diálogo. Se uma realidade pode ser negada e recriada ao sabor das conveniências, qual é o ponto em debater?
É preciso escancarar a operação verdadeiramente perversa, a dos gurus da desinformação que levariam ao palanque o que fosse necessário – fetos abortados, crianças abusadas, 500 mil mortos – tudo o que servisse a seus fins. É por causa gente como eles que garotas como Anne Frank, de uma auto-honestidade espantosa e inteligentes, foram privadas de ter um amor, um sexo, uma vida.
William Zeytounlian é psicanalista formado pelo Instituto D’Alma e fez cursos no Sedes Sapientiae. É mestre em história pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e em 2015 publicou pela Demônio Negro o livro de poemas “Diáspora”.