Comecemos pelo óbvio: eu sou um cérebro que fugiu, muito prazer. Nessa história não tem mocinha nem bruxa nem moral. Sou alguém que comenta de longe, sem “ter a ver” com essa conversa de como reconstruir a ciência no Brasil. Mas, de longe, eu também faço ciência, e ciência é política.
Os Estados Unidos, país onde trabalho, têm explorado um modelo alternativo de fomento científico, bancado pela iniciativa privada e à margem das agências governamentais de fomento.
Se isso consola quem lê, eu divido com os pesquisadores estabelecidos no Brasil as agruras de pedir subsídio às agências nacionais americanas. Um modelo que começou bem-intencionado (todas as propostas passam pelo crivo de uma banca de pesquisadores), hoje tem o impacto de reduzir a inovação científica. As bancas, concebidas como idôneas, mas populadas por humanos que somos, refletem preconceitos, conchavos e um utilitarismo burro (“dinheiro só é bem gasto em pesquisa que dá resultado positivo, e no curto prazo”). Por vezes, propostas interdisciplinares têm de agradar a duas bancas diferentes. Assim, a velha guarda sanciona e pontifica uma ciência incremental.
Três prêmios Nobel deram entrevista afirmando que, dado o clima de fomento científico prevalente, no presente eles não conseguiriam fazer o trabalho que lhes deu a honraria (se você quiser googlar, são Haroche, Weiss, Higgs). Pensando bem, não sei se essa é uma discussão nova: em 1789 (!), Schiller, o poeta alemão, deu uma aula magna comparando a “cientista ganha-pão” com a “cientista de mente filosófica”. A primeira — tenho certeza que você conhece uma — se alimenta de fama e quer engessar o status quo porque a novidade ameaça seus privilégios; a segunda, espécie em extinção já no século 18, se deleita com a extensão inesperada de seus conhecimentos (“Eles têm mais amor à verdade do que a seus próprios sistemas”).
Estou começando a achar que meu argumento é mais genérico, e mais cíclico, do que eu pensava. É ele: a iniciativa privada, faz tempo, tem possibilitado saltos tecnológicos que, depois de estabelecidos, possivelmente se ramificam financiados pelo governo.
A iniciativa privada, faz tempo, tem possibilitado saltos tecnológicos que, depois de estabelecidos, possivelmente se ramificam financiados pelo governo
Vejamos a evidência a favor. A iniciativa privada nos deu a Renascença — basta lembrar os Médici, que foram patronos de todas as Tartarugas Ninja. A iniciativa privada nos deu a mecânica e a termodinâmica clássicas — desde Newton até a aristocracia inglesa que se autofinanciava. A iniciativa privada nos deu a física de altas energias — como detalhado no livro “Tuxedo Park”, que conta a história de Alfred Lee Loomis, um tipo que fez fortuna com o crash de 1929 e começou a financiar cientistas como Orlando Lawrence, que então construiu o primeiro acelerador de partículas. No famoso Bell Labs, produto do monopólio de telefonia da finada Bell, nasceram o laser, o transistor, o sistema operacional Unix, a rádio-astronomia, linguagens de programação importantes… Na boa: cite uma universidade que tenha no currículo um rol de inovação tão impressionante. Às vezes é preciso um outsider. Foi preciso um novo-rico como Musk pra desenvolver um foguete reutilizável. A infraestrutura mastodôntica da Nasa não conseguiu, não tentou — sei lá, não importa: a glória é da SpaceX. Recentemente, a iniciativa privada nos deu a vacina de mRNA contra covid-19 — décadas depois da coitada da Katalin Karikó, bioquímica húngara cujas descobertas foram fundamentais para o desenvolvimento do imunizante, ser efetivamente condenada ao ostracismo acadêmico. É uma história doída e triste, contada indiretamente pela página da Wikipedia da cientista: ela nunca teve reconhecimento durante a vida — até 2020, e a partir de então já recebeu mais de 50 prêmios!
Recentemente, têm pipocado instituições privadas nos Estados Unidos que sustentam continuamente e pelo longo prazo uma elite científica universitária (pena que escolhida por processos não menos políticos e transacionais que aqueles que rolam nas bancas das agências de fomento). O Howard Hughes Medical Institute paga a seus afiliados uma bolsa de mais de US$ 1 milhão anuais para serem gastos de maneira “livre”. O novo Arc Institute vai proporcionar fundos ilimitados para bancar a pesquisa de seus afiliados. Na minha opinião de cientista com inveja confessa, acho que isso é tratar adulto como adulto: é dar um voto de confiança a esses cientistas, que sabem do que estão falando, que sabem quanto dinheiro é preciso para fazer pesquisa de qualidade.
Por outro lado, outras instituições privadas estão causando um êxodo universitário com uma promessa que, em sua essência, é recriar novos Bell Labs. Um exemplo de sucesso é a Arcadia Science, que conseguiu US$ 500 milhões para se estabelecer e funcionar por uma década, momento em que eles esperam se autossustentar, num modelo de ciência com fins lucrativos, mesmo. Arcadia é liderada pelas jovens Seemay Chou e Prachee Avasthi, duas antigas professoras da área biológica que trabalham com organismos modelos não usuais (como os carrapatos e as algas verdes), e que simplesmente cansaram de ser ignoradas pelos National Institutes of Health (que predominantemente dão bolsas para pesquisa com rato).
Ao me dar conta de que a universidade não tem o monopólio do conhecimento de base, me senti liberada para buscar meios alternativos para bancar minha própria pesquisa, que é fronteiriça. Estou convencida de que o tempo gasto com esse esforço dará mais retorno do que se eu tentar me encaixar num sistema engessado. Espero que pesquisadores no Brasil se animem a fazer o mesmo, e espero mais ainda que os agentes possibilitadores desse tipo de financiamento tenham clareza do impacto que isso pode ter para a ciência do país. Além do Serrapilheira e do Ciência Pioneira do Instituto D’Or, deveriam existir muitos outros agentes possibilitadores: alô alô, bancos, crypto investidores, magnatas!
Em resumo, ciência nova se faz fora da caixinha. Se faz pela iniciativa privada, se faz tendo o longo prazo em mente, se faz dando autonomia ao pesquisador.
Clarice D. Aiello é professora e pesquisadora na área de biologia quântica. Este texto de opinião foi escrito para a campanha #ciêncianaseleições, que celebra o Mês da Ciência. Agradecemos aos colunistas que em julho cedem seus espaços para refletir sobre como a ciência deve participar da reconstrução do Brasil.