O que estimula o engajamento no trabalho

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O que estimula o engajamento no trabalho
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

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Thais Gargantini


30 de janeiro de 2022

A realidade dos gestores públicos inclui ambientes complexos, cujos desafios são compostos por vários fatores e os recursos são limitados

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Certa vez, um cientista que trabalhava na multinacional 3M, ainda nos anos 1970, fracassou ao tentar inventar uma cola, pois nada com ela grudava com firmeza, e a ideia foi arquivada. Alguns anos depois, a pesquisa foi retomada por outro pesquisador, este interessado em um adesivo capaz de marcar páginas sem danificá-las. Então nasceu o famoso papelzinho colorido que o mundo inteiro usa para recados e lembretes.

Nascido de um erro, o post-it tornou-se um dos maiores sucessos de venda da companhia. E essa é uma das mais irresistíveis histórias contadas em eventos da 3M para novos colaboradores sobre “falhas” que levaram a inovações. A ideia é ressaltar aos funcionários a importância de ter coragem para assumir riscos inerentes às inovações, mostrar que a empresa tolera os chamados “erros honestos”. Afinal, é com eles (ou a partir deles) que uma organização aprende e inova.

À primeira vista pode não parecer, mas a história do post-it tem tudo a ver com ativação de engajamento no serviço público. O bom gestor deve adotar como rotina a ação de conversar com a equipe sobre falhas e erros honestos e como aprender com eles. Isso permite entender que o risco e a inovação geram aprimoramento, o que contribui para estimular algo essencial ao espírito de servir: o engajamento.

A realidade dos gestores públicos, em sua grande maioria, inclui ambientes complexos, cujos desafios são compostos por vários fatores e os recursos são limitados. Ainda assim, os gestores devem trazer resultados rápidos e concretos.

Governos devem trabalhar para responder adequadamente às necessidades das suas populações. Por isso é essencial gerenciar bem seus recursos

Nesse cenário, não é surpreendente que as organizações estejam falhando na missão de engajar seus colaboradores. O Instituto Gallup, que estuda o assunto desde 2000, constatou que muitos americanos sofrem pela falta de motivação no trabalho e que o problema está piorando cerca de 2% ao ano. Pesquisas indicam que apenas cerca de um terço dos trabalhadores do Reino Unido afirmam que estão engajados. A pesquisa global “How Report” aponta que a situação é mais grave em organizações do setor público, que estão muito atrás em comparação com o setor privado.

Para compreender o cenário de engajamento no setor público brasileiro, buscamos criar uma medida para oferecer informações gerenciais para gestores públicos a partir de um conjunto de fatores e intervenções. Durante cinco meses, de outubro de 2020 a março de 2021, ouvimos 16,5 mil servidores de nove estados: Tocantins, São Paulo, Santa Catarina, Goiás, Espírito Santo, Ceará, Amapá, Alagoas e Acre.

Daí surgiu o “Guia prático para engajamento de equipes” no setor público, realizado pela Fundação Lemann, República.org, Fundação Brava e Instituto humanize, em parceria com a Universidade Duke (EUA) e com a consultoria Kayma. O documento apresenta sugestões, casos inspiradores, ferramentas e modelos baseados em evidências para ajudar gestores públicos na formulação e na experimentação de ações de engajamento de suas equipes.

O guia lista os fatores que mais impactam o engajamento no trabalho: erros honestos, clareza do propósito, clareza de expectativas, autonomia, transparência, ambiente acolhedor, segurança psicológica e consistência na gestão, entre outros. Ele mostra que a combinação desses fatores com intervenções bem pensadas resulta no aumento da efetividade do Estado e gera impacto positivo para a sociedade. Ao encorajar risco, por exemplo, é possível esperar mais ousadia, inovação, melhoria no atendimento e satisfação pessoal do servidor.

Não existe uma solução única e isolada capaz de aumentar o engajamento dos colaboradores. Todos os aspectos apontados estão entrelaçados, de alguma forma. O importante é que o colaborador se sinta em um ambiente seguro e acolhedor, com suas funções e objetivos bem definidos e com incentivo a buscar maneiras próprias de se aperfeiçoar. Também é fundamental investir no propósito da organização, especialmente nas pequenas atividades diárias. No setor público, pode ser mais difícil criar uma conexão entre o todo e as funções cotidianas, mas colocar motivo e intuito no dia a dia é uma maneira de incentivar o apego emocional ao trabalho, o que favorece o engajamento.

Governos devem trabalhar para responder adequadamente às necessidades das suas populações. Por isso é essencial gerenciar bem seus recursos, especialmente as pessoas. Segundo o economista comportamental Dan Ariely, um dos especialistas envolvidos no guia, “pessoas engajadas resolvem problemas complexos. Engajar pessoas é, portanto, resolver grande parte dos nossos desafios como sociedade”.

Thais Gargantini é diretora da Kayma Brasil e colaboradora externa do Center for Advanced Hindsight da Universidade Duke e do People in Government Lab of Oxford University. Lidera projetos em governos no Brasil e no mundo usando economia comportamental e análise de dados.

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