Em um mundo mediado por códigos e imerso em dúvidas sobre o quanto a inteligência artificial pode impactar negativamente as estruturas sociais, acredito ser pertinente construirmos novos questionamentos – especialmente no Brasil – sobre o uso da tecnologia para escalar o impacto social positivo. Na prática, precisamos investigar como as ferramentas tecnológicas podem endereçar os desafios do investimento social privado e potencializar a agenda ESG de grandes e médias empresas. Diante da assimetria de oportunidades no país e da escalada da pobreza em territórios para além das capitais, usar a ciência de dados para transformar a realidade da população em situação de vulnerabilidade socioeconômica é enxergar uma utilidade mais nobre para a tecnologia.
De modo bastante tangível, a tecnologia tem desempenhado um papel fundamental na criação de processos de investimento social privado, trazendo governança, mitigação de riscos e eficácia de ponta a ponta. Ou seja, é uma ferramenta poderosa que nos permite conduzir aportes financeiros com mais confiabilidade e integridade dentro do contexto do investimento social privado – e cumprindo uma agenda ESG das empresas que operam no Brasil. Entretanto, quando pensamos nas dimensões sociais, ambientais e de governança das operações de investimento social, temos que considerar os enormes desafios para a implementação, especialmente da governança.
A verdadeira governança é alcançada não só quando uma empresa faz uma gestão de recursos de forma eficiente, mas quando garante que aportes sejam direcionados para causar um impacto social positivo
O ponto crítico é que a verdadeira governança é alcançada não apenas quando a empresa investidora conduz a gestão de recursos de forma eficiente, mas quando ela garante que esses aportes sejam direcionados para causar um impacto social positivo na sociedade. Nessa lógica de qualificação, um aspecto crucial – e que merece destaque – é a capacidade de a tecnologia fornecer e cruzar dados sobre a demanda social de diferentes territórios. E olhando para a vulnerabilidade social e econômica dos indivíduos dessas áreas.
Por meio de indicadores como o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, Índice de Vulnerabilidade Social e da análise dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, as empresas podem ter uma visão clara do panorama social local e direcionar os seus recursos para áreas/lugares que requerem uma maior atenção – do ponto de vista socioeconômico e de oportunidades para os cidadãos –, maximizando o impacto social de seus investimentos. Ou seja, é possível construir um Mapa de Demanda Social com uma visão mais completa e complexa da situação do território que se pretende investir por meio de projetos sociais.
Hoje, os sistemas de gestão de projetos tecnológicos permitem um controle mais eficaz do fluxo de informações e do progresso dos projetos, mantendo todas as partes interessadas informadas. A tecnologia assegura, ainda, que os projetos sejam executados conforme planejado. Isso é fundamental para alinhar essas iniciativas de investimento social aocompliance das empresas. Além disso, garantir auditorias internas e demonstrar a responsabilidade da empresa perante seusstakeholders. Essa é a dimensão do G do ESG.
Conceitualmente, o uso de tecnologia no campo do investimento social oferece uma abordagem renovada para a governança – no contexto social –, muito mais do que garantir processos transparentes, responsáveis e eficientes, ou gerir recursos de forma eficaz. Também envolve a garantia de que esses recursos estejam direcionados para causar um maior impacto social positivo. Por meio das soluções tecnológicas, podemos introduzir uma camada de controle e de análise robusta que permite que as empresas tomem decisões de investimento baseadas em dados, em vez de suposições. Essa abordagem oferece visibilidade sobre a execução dos projetos, ajudando as empresas a monitorar e mensurar o impacto social de seus investimentos. Isso é crucial para relatar de forma transparente aosstakeholders, reforçando assim a governança.
Para resumir, vejo a tecnologia como um meio essencial para garantir a governança no investimento social, porque ela é capaz de agregar transparência, responsabilidade, eficácia e assertividade ao processo, ajudando a cumprir os princípios do ESG e a promover um futuro mais sustentável e equitativo para o Brasil.
Tadeu Silva é cofundador da Simbi Social, vencedor do Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2018 e mestrando em Ciências da Computação pela UFABC (Universidade Federal do ABC). É especialista em tecnologia com foco nas áreas de desenvolvimento e analytics. Forbes Under 30 Brasil em 2020.