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Lizely Borges, Kel Baster e Selma Dealdina
Dependentes de narrativas da radiodifusão privada e das redes sociais acessadas de maneira precária, as comunidades se veem ainda mais vulneráveis a uma realidade que já as castigava antes da pandemia
“Há mais de 300 anos estamos totalmente isolados, sem internet, energia, um telefone funcionando precariamente. Só (temos) uma técnica de enfermagem quilombola que anda de casa em casa conversando com os quilombolas e não quilombolas.” Essa é a realidade da comunidade Vila Velha do Cassipore, no município de Oiapoque (AP), diante da ameaça da pandemia de covid-19. No atual contexto, a comunidade quilombola formada por 80 famílias tem tido ainda mais dificuldade em receber informações seguras e acessar serviços básicos.
A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social realizaram uma pesquisa sobre direito à comunicação e acesso à informação junto a comunidades quilombolas, para compreender como elas têm se informado sobre o novo coronavírus. Foram realizadas consultas a 29 membros de comunidades quilombolas, de 11 estados das cinco regiões do Brasil.
Nessa amostra, a maioria das comunidades consultadas depende da informação proveniente de canais privados de TV e rádio e de redes sociais para adoção de comportamentos seguros no atual contexto. Órgãos responsáveis pelas questões quilombolas, como o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), pastas sob controle de expoentes do agronegócio e opositores à política de titulação dos territórios, não têm desempenhado o devido papel de orientação às comunidades, aponta o levantamento. Em Vila Velha do Cassipore, é comum o uso do rádio a pilha, já que a energia elétrica por lá ainda não chegou e, apenas quando se consegue óleo diesel para o gerador, a comunidade pode assistir aos telejornais.
Com uma representação midiática majoritariamente urbana e branca, os veículos privados de comunicação constroem narrativas distantes das realidades de comunidades quilombolas. As orientações gerais de prevenção ao coronavírus, como lavar as mãos frequentemente e o protocolo padrão de isolamento, mostram-se pouco efetivas para algumas famílias quilombolas, pelas dinâmicas de vida e questões estruturais distintas. Em muitos quilombos, a sobrevivência é dependente da lógica comunitária, por exemplo no que diz respeito ao acesso a alimentos. E há características culturais fundamentais, como o cumprimento aos mais velhos com um beijo na mão, que precisam ser consideradas. É, para as comunidades, sinal de benção e respeito.
Na pesquisa, a internet é bastante citada como meio de informação. Com acesso limitado por franquia de dados e modalidade pré-paga, além de baixa qualidade de sinal, as comunidades relatam que conversam e trocam mensagens sobre a covid-19 por meio de aplicativos de mensagens e outras redes sociais, com conexões de celulares.
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