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Adriana Erthal Abdenur, Gabriela Cardim e Lycia Brasil
Incorporar imigrantes e refugiados que são médicos e enfermeiros e residem no país pode ser uma maneira eficaz e ágil para aumentar a capacidade do sistema para enfrentar o novo coronavírus
Mais de 6 milhões de pessoas já foram infectadas e 370 mil morreram por covid-19 no mundo desde a primeira detecção do novo coronavírus na China, em dezembro de 2019, até o fim de maio de 2020. Na linha de frente do combate à pandemia, os profissionais da saúde sentem na pele as consequências de seus esforços. Estudos apontam que eles têm três vezes mais chance de se infectar em comparação com a população geral e que seus sintomas seriam mais severos, devido ao longo tempo de exposição ao vírus. O Brasil — que ainda não atingiu o pico de contágio —já perdeu mais profissionais da enfermagem para a covid-19 do que a Itália e a Espanha juntas .. Garantir um sólido efetivo de profissionais é essencial para que mais vidas sejam salvas, mas isso será impossível sem a abertura para a imigração de profissionais da área da saúde.
Com a disseminação do coronavírus em escala global, as desigualdades se acentuam, e os migrantes e refugiados estão entre os grupos que mais sofrem os efeitos adversos da pandemia. De maneira geral, os debates que relacionam migração e saúde giram em torno do acesso dessas populações aos serviços de atenção e cuidado, e das limitações da saúde pública em acolher e responder às especificidades de migrantes e refugiados. Entretanto, há outro ponto importante a ser discutido: a importância do emprego do migrante e refugiado enquanto mão de obra qualificada para enfrentar crises de grandes proporções nos sistemas de saúde.
De acordo com uma pesquisa realizada em 2019 no sistema público de saúde do Reino Unido , 13% de toda a equipe em hospitais e serviços comunitários eram imigrantes. Entre médicos, a proporção alcançava 28,4%. Alguns governos, inclusive na América Latina, reconhecem a importância desse grupo para o funcionamento do sistema de saúde pública. A cidade de Buenos Aires autorizou a atuação de médicos venezuelanos no combate à covid-19. Nos Estados Unidos, médicos migrantes foram liberados para atuar com licenças especiais durante a pandemia em Nova York e Nova Jersey . Todas essas medidas elucidam o caminho adotado ao redor do mundo.
No Brasil, há razões suficientes para seguirmos medidas semelhantes e mais ágeis. Em 2018, o presidente Jair Bolsonaro desferiu uma série de críticas ao Programa Mais Médicos, iniciado em 2013, que contratou 12.165 médicos imigrantes para atuar em 2.177 municípios em todo o país. Em protesto, Cuba, o país que enviou o maior contingente de profissionais, retirou-se do acordo com o governo brasileiro. Desde então, as vagas em mais de 40% das cidades onde os profissionais atuavam não foram preenchidas. Agora, mais do que nunca, precisamos dessa mão de obra.
Paralelamente às instituições governamentais, migrantes e refugiados já estão agindo no combate à pandemia no país, em cidades como Boa Vista e São Paulo . Então por que não empregar imigrantes profissionais da saúde no SUS?
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