Como as ‘fake news’ podem ser um incentivo à ‘alfabetização midiática’
João Paulo Charleaux
22 de janeiro de 2018(atualizado 28/12/2023 às 12h59)Pesquisadora espanhola Nuria Fernandez fala ao ‘Nexo’ sobre as iniciativas educacionais, nas escolas e na imprensa, para melhorar o nível de discernimento dos leitores
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Crianças usam tablet em sala de aula na cidade francesa de Nice
A eleição do republicano Donald Trump como presidente dos EUA, em 2016, fez crescer a níveis inéditos a preocupação com as chamadas “fake news”. A expressão, que pode ser traduzida ao pé da letra como “notícias falsas”, passou a ser usada à exaustão tanto por Trump quanto por seus opositores, como munição numa guerra sobre o que seria a verdade dos fatos na cobertura política.
O debate em torno da veracidade não é novo no jornalismo, ou mesmo na comunicação, de maneira mais ampla. Entretanto, o alcance da internet fez explodir a abrangência das notícias falsas, dos rumores, dos boatos, das mentiras e de todos os outros nomes associados às “fake news” na política atual.
A possibilidade de manipular os algoritmos de redes sociais, favorecendo a disseminação de determinados fatos, de versões dos fatos ou mesmo de notícias completamente inverídicas vem sendo explorada até mesmo por governos interessados em promover a instabilidade em países estrangeiros. O exemplo mais debatido hoje é o da Rússia, cujo serviço secreto é acusado de agir para influenciar debates eleitorais em várias partes do mundo.
Aqui mesmo no Brasil, o segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), recorre com frequência à acusação de que os jornais, quando publicam notícias desfavoráveis a seu mandato parlamentar e à sua campanha, não passam de “fake news”.
Para Nuria Fernández-García, doutora em jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, todo esse debate sobre as “fake news” trouxe consigo a oportunidade de impulsionar, sobretudo entre as crianças e jovens, o estudo sobre as formas de produção, de disseminação e de consumo das notícias no mundo hoje.
É sobre esse tema que oNexo conversou com Nuria Ferndández, por e-mail, no dia 19 de janeiro de 2018.
Nuria Fernandez O leitor tem de participar de maneira crítica no processo de consumo de notícias. Ele tem o direito de receber informação veraz. Ele tem de exigir uma informação verdadeira porque é responsabilidade de todos lutar contra a tolerância atual à mentira. Os cidadãos têm de se mostrar críticos diante daqueles que produzem notícias falsas.
De acordo com um estudo produzido pela organização americana Pew Research Center , em 2016, durante as eleições presidenciais nos EUA, 64% dos americanos relataram ter tido contato com histórias inventadas que causaram grandes confusões a respeito de fatos básicos. O mais alarmante é que, de acordo com esse mesmo estudo, 23% dos americanos haviam compartilhado notícias falsas em suas redes sociais e 14% o fizeram sabendo que a notícia em questão era falsa. Isso significa que não basta oferecer apenas as ferramentas necessárias para avaliar a credibilidade da informação, mas que é preciso oferecer também uma perspectiva cívica.
É preciso empoderar os cidadãos e facilitar que eles adquiram as competências básicas para que possam ter acesso, que possam compreender, analisar, avaliar e produzir conteúdo, e para distinguir entre notícias reais e notícias falsas. A democracia sairá reforçada de todo esse processo, ao construir uma cidadania informada, que possa tomar decisões livremente.
Nuria Fernandez Mais do que nunca, a alfabetização midiática é necessária. É preciso ensinar as crianças, desde a escola, a serem críticas em relação aos meios [de comunicação].
Um estudo realizado em 2009 por Paul Mihailidis [professor do Emerson College de Boston] mostra que estudantes que realizam cursos de alfabetização midiática aumentam sua capacidade para entender, avaliar e analisar as mensagens que são transmitidas pelos meios de comunicação.
Portanto, é preciso oferecer às crianças e aos jovens as ferramentas necessárias para que eles saibam avaliar a qualidade da informação. Se as novas gerações se informam pelas redes sociais e por outros recursos on-line, como demonstram diferentes estudos realizados pelo Pew Research Center, é preciso que elas aprendam a decodificar o que estão lendo on-line. Por isso é preciso integrar a análise midiática ao currículo escolar.
Já existem pesquisas desenvolvidas nesse campo. A Digipo (Digital Polarization Initiative) é um projeto que tenta conscientizar os jovens sobre o conteúdo informativo que eles encontram on-line, fazendo com que eles sejam partícipes da análise das questões relacionadas com a polarização digital. Os estudantes revisam a informação encontrada no Twitter ou no Facebook. Além de investigar a informação, os estudantes também dão contexto e sentido a notícias que vão desde a fraude eleitoral até a artigos nos quais é anunciado, por exemplo, um novo tratamento contra o câncer.
Há ainda iniciativas como o Project Look Sharp , criado pelo Ithaca College [de Nova York], que desenvolve e provê planos de estudo, materiais, formação e apoio para a integração da alfabetização midiática no currículo escolar em todos os níveis educacionais, ou ainda o NPL (News Literacy Project) , que trabalha com educadores e com jornalistas para ensinar estudantes secundaristas a distinguir fatos de ficções na era digital. Há cada vez mais iniciativas.
Nuria Fernandez Nós já delegamos uma multiplicidade de conhecimentos e aprendizagens às nossas escolas. A alfabetização [midiática] seria mais um. E não se pode esquecer que a alfabetização midiática não é responsabilidade exclusiva das escolas. Como disse Dan Gillmor [pesquisador e escritor da área de comunicação], nas previsões do NiemanLab para o ano de 2017, os meios de comunicação e os jornalistas podem conseguir maior impacto que as instituições educacionais.
É preciso que tenhamos também veículos mais transparentes, que permitam que a audiência participe, que conversem com seus leitores e que reconheçam os próprios erros, provendo explicações sobre o que aconteceu e sobre os passos tomados para prevenir que isso volte a acontecer no futuro. Alguns veículos começaram a realizar atividades para educar os cidadãos em questões básicas do jornalismo e para reforçar a capacidade do público para ler as notícias de maneira crítica.
A France 24 , por exemplo, utiliza sua página Les Observateurs para ensinar a metodologia do trabalho jornalístico e estimular o senso crítico de seus espectadores. A BBC Academy compartilha conteúdo que inclui diferentes conselhos sobre produção de notícias. A questão não é delegar às escolas. A questão é todos nós temos uma responsabilidade, uma responsabilidade cívica.
Nuria Fernandez Efetivamente, as notícias falsas sempre existiram. Há tempos [Joseph] Stálin [que governou de maneira totalitária a hoje extinta URSS de 1922 a 1943] eliminava das fotos oficiais seus colaboradores caídos em desgraça. Entretanto, as redes sociais amplificaram o alcance. Quem escolhe as notícias na rede social? Um algoritmo. Um algoritmo decide a ordem das notícias que nós vemos nas redes sociais. Mas os algoritmos não garantem que as notícias são realmente notícias. Aliás, foram os algoritmos que enviesaram a informação a favor do [presidente dos EUA, Donald] Trump nas últimas eleições à presidência dos EUA [2016], quando então foram utilizados bots que buscavam alterar o resultado das eleições e trolls estrangeiros bombardearam as redes sociais americanas com notícias falsas. Num ecossistema midiático com informação abundante ou com sobreinformação se torna absolutamente necessário que se comprove a veracidade das notícias.
Pode ser que a rede amplifique o alcance das notícias falsas, mas ela também oferece a oportunidade de lutar contra essas notícias falsas e de conseguir um jornalismo de qualidade, ou – o que é o mesmo – simplesmente jornalismo.
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