‘O hábito de se vacinar no Brasil resistiu aos soluços do governo’
Estêvão Bertoni
28 de novembro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h32)Em entrevista ao ‘Nexo’, professora Elize Massard da Fonseca, da FGV, diz que ‘sagacidade’ da Fiocruz e do Butantan em contornar dificuldades estruturais e políticas foi crucial para o avanço da imunização no país
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Mulher recebe vacina contra a covid-19 em estação de ônibus, no Rio de Janeiro
Embora tenha largado atrás de outros países, sofrido com atrasos na importação de matéria-prima, interrompido pontualmente a campanha de imunização por falta de doses e contado com ataques do próprio presidente da República às vacinas, o Brasil chega ao final do primeiro ano de vacinação contra a covid-19 com capacidade de atender a todos os brasileiros com o esquema vacinal completo. A cobertura brasileira ultrapassou a de países que saíram na frente, como Estados Unidos, Alemanha e Israel.
O peso do Programa Nacional de Imunizações, que por décadas criou na população o hábito de se vacinar , e a “sagacidade” da Fiocruz e do Butantan (responsáveis por duas em cada três doses aplicadas), contornando dificuldades estruturais e até políticas, foram cruciais para o avanço da vacinação no país, segundo a doutora em saúde pública Elize Massard da Fonseca, que é professora da Escola de Administração de Empresas da FGV (Fundação Getulio Vargas).
Em março de 2021, sem negar a gravidade das atitudes e falas de Bolsonaro, ela publicou um artigo em que dizia ser equivocado atribuir os atrasos na vacinação apenas aos erros do governo federal, sendo necessário considerar os limites estruturais de um país de renda média como o Brasil e o contexto de corrida global pelas vacinas, aspectos preponderantes para o processo. Apesar das revelações posteriores da CPI da Covid sobre a condução errática do Ministério da Saúde nas negociações por vacinas, ela afirma manter a avaliação devido à existência etapas anteriores ao uso dos imunizantes.
Nesta entrevista ao Nexo , a pesquisadora elogia a Fiocruz por ter conseguido apoio do governo federal para a produção de vacinas num contexto político desfavorável, marcado pelo negacionismo do presidente, e critica a incapacidade de distribuição global de doses pelo consórcio Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
ELIZE MASSARD DA FONSECA Acho que tem duas coisas: primeiro, a produção do Butantan e da Fiocruz, não necessariamente de vacinas 100% produzidas lá, garantiu uma certa estabilidade e o comprometimento das empresas de entregar as vacinas e o início da transferência da tecnologia. Acho também que o estágio que a gente está hoje mostra o peso e a importância do Programa Nacional de Imunizações no Brasil, sua capilaridade e forte estrutura, que resistiu a esses soluços. Mostra também como a população brasileira tem confiança nas vacinas e o hábito de se vacinar. É uma mistura tanto de estar acostumado a se vacinar e ter uma dependência dessa trajetória de vacinação. O Brasil tem uma baixa taxa de hesitação vacinal, e isso ajuda a explicar como é que a gente chegou ao momento atual.
Especificamente com relação a Bio-Manguinhos [instituto da Fiocruz que produz vacinas], que foi o caso que eu estudei com mais profundidade, eu posso dizer que ele foi muito sagaz ou feliz em conseguir contornar esses desafios — que não foram poucos. A gente já enfrentava desafios na produção de vacinas e surgiram novos com a disrupção das cadeias globais, a falta de equipamentos, de insumos, e a negociação política que se deu em torno desse acordo [para a produção da vacina de Oxford/AstraZeneca]. Acho que Bio-Manguinhos conseguiu um apoio importante dentro e fora do governo para conseguir fazer a transferência de tecnologia e isso é um ponto crucial, porque é uma instituição do governo federal e a gente vê que o governo federal tem tido uma resposta controversa na pandemia. É um grande mérito conseguir navegar nesse contexto político desfavorável e entregar as vacinas como estão entregando.
A transferência de tecnologia tanto do Butantan quanto de Bio-Manguinhos é um saldo positivo que fica da pandemia. A gente poderia ter tido um melhor planejamento em termos do plano de imunizações contra a covid-19, desenhando cenários para as vacinas estarem disponíveis. Poderia ter insulado melhor os interesses em torno da ordem da fila da vacinação, porque em alguns momentos a gente viu pessoas que não eram prioridade receberem a vacina antes. As prioridades não estavam de acordo com o que a OMS preconiza. Por exemplo, em algumas situações, as forças de segurança receberam as vacinas antes mesmo dos presidiários, que são considerados uma população vulnerável.
Uma coisa que prejudicou muito sem dúvida nenhuma foi a questão política em torno da resposta à pandemia no Brasil, essa disputa que o governo federal criou com os estados e essa desconfiança disseminada em torno da vacina, que dá combustível aos grupos de antivacinas, o que é uma coisa muito perigosa.
ELIZE MASSARD DA FONSECA A principal descoberta da CPI foi a questão da negociação da vacina Covaxin. Aquilo ali foi um ponto crucial que, se não fosse a CPI, talvez a gente demorasse mais um pouco para entender o que aconteceu. Eu mantenho a minha posição sobre o peso que o governo teve nos problemas que a gente enfrentou no início. A gente poderia ter feito mais, diversificado mais as compras, mas eu não acredito que isso teria influenciado no início da vacinação como aconteceu. Uma série de etapas precisam ser cumpridas, e a Anvisa só autorizou a primeira vacina no Brasil em janeiro, então isso não teria muito como antecipar.
Com relação à existência de um governo mais comprometido, eu nunca tirei o peso da responsabilidade do governo. Acho que, no planejamento do plano de imunizações contra a covid-19, a gente poderia ter tido diferentes cenários para diferentes vacinas. Isso não foi feito, e era o indicado. Já que a gente não sabe que vacina vai ser aprovada, então a gente precisa fazer um planejamento para várias possibilidades.
Continuo achando que as limitações estruturais e globais foram importantes, a gente continua tendo um problema sério de cadeias globais, falta de insumos para a produção de vacinas. A onda de março e abril aconteceu por causa das variantes, e é possível que aconteça de novo com a nova variante do vírus [ômicron, descoberta na África do Sul no fim de novembro]. Hoje a gente está com uma cobertura vacinal relativamente boa, mas se entrarem pessoas que não estão vacinadas e trouxerem outras variantes, a gente não sabe em que medida essas vacinas que estão disponíveis hoje vão ser eficazes.
ELIZE MASSARD DA FONSECA Estou alinhada com as organizações da sociedade civil internacionais que fazem críticas a como essa iniciativa foi organizada e distribuída. Eu acho que eles demoraram muito para entregar as vacinas e ainda estão demorando. Criaram regras muito desfavoráveis para os países, principalmente no começo, ao não permitir que os países fizessem transferências de tecnologia. Também sou crítica a essa ideia de distribuir as vacinas por percentual populacional. Seria importante observar o perfil epidemiológico dos países e fazer a distribuição de acordo com essas questões, talvez até com as necessidades econômicas. Países que estão sofrendo mais com a pandemia, como o Brasil, por exemplo, poderiam ter tido uma chance maior de comprar as vacinas, mas colocaram um teto e também tinha uma série de restrições à transferência de tecnologia que não eram favoráveis ao Brasil, além do preço ser maior do que a transferência de tecnologia.
Até hoje não consegui descobrir no Ministério da Saúde qual foi efetivamente o preço que o Brasil pagou pelas vacinas no Covax. Eu fiz um pedido de acesso à informação do Ministério da Saúde, mas me disseram que essa informação era privada. Então o que a gente sabe é o que sai na mídia, não tem uma uma resposta oficial do Ministério da Saúde. E o que a gente viu na mídia é que o valor realmente foi superior ao da transferência de tecnologia. Eu continuo sendo crítica, e acho que a OMS vai ter que repensar esse modelo e como fazer isso: como organizar melhor a distribuição de vacinas para futuras pandemias.
ELIZE MASSARD DA FONSECA O ritmo da vacinação depende de uma série de fatores de produção, regulação e distribuição. É uma cadeia para você receber a vacina lá na ponta neste período de crise, então você precisa ter uma estabilidade de oferta, a agência reguladora precisa aprovar uma vacina segura e precisa ter infraestrutura de distribuição. A atuação da Anvisa foi impecável, eu acho que ela está alinhada com as principais agências internacionais de regulação.
Ela se adaptou rapidamente às necessidades da pandemia, de criar novos instrumentos como esse de aprovação emergencial, o instrumento de submissão contínua [para registro das vacinas] em que as empresas fornecem informações sobre os ensaios clínicos. Não acho que a Anvisa foi sensível à interferência política. Eu acho que tentaram [interferir], mas a atuação do Gustavo Mendes Lima Santos [gerente-geral de medicamentos e produtos biológicos da agência] foi bastante técnica e alinhada com com que as outras agências internacionais estavam fazendo, como FDA [Food and Drug Administration, dos Estados Unidos] a OMS ou a EMA [Agência Europeia de Medicamentos].
ELIZE MASSARD DA FONSECA Não tem recursos suficientes, como a gente está acompanhando. A ciência no Brasil está à míngua. Mas acho que é uma promessa. O Butantan recebeu um importante aporte do setor privado para o desenvolvimento de vacinas, então eu acho que isso pode ajudar. N ão acredito que seja possível desenvolver alguma tecnologia própria de RNA neste momento, mas a Fiocruz fez uma parceria com a OMS para a transferência de tecnologia de vacinas de RNA mensageiro. É possível que o Brasil produza e receba a tecnologia, mas produzir do zero, não sei em que medida a gente tem essa expertise no momento para produzir essa vacina em particular. Certamente a gente tem uma boa infraestrutura para fazer parcerias, tanto que a OMS escolheu Bio-Manguinhos pra fazer essa colaboração.
ELIZE MASSARD DA FONSECA É muito difícil fazer esse tipo de projeção, principalmente com as informações que estão na mídia com essa possível variante [ômicron, que pode ter potencial de reinfecção maior]. É difícil saber o que vai acontecer nas festas de final de ano, no carnaval, se a gente vai ter uma regulação dos estrangeiros que estão entrando no Brasil e a exigência de vacinação, que eu acho que é importante fazer [e foi recomendado pela Anvisa. É uma pandemia muito dinâmica.
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