Entrevista

‘Não existe doença tropical que não seja negligenciada’

Gabriel Zanlorenssi

12 de setembro de 2024(atualizado 18/09/2024 às 17h07)

Carlos Costa e Bruno Guedes, professores da UFPI, falam sobre a importância da gestão pública se pautar em evidências científicas para enfrentar doenças negligenciadas

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Existe uma lista da OMS (Organização Mundial da Saúde) com cerca de 20 doenças consideradas tropicais e negligenciadas. Essas patologias, como dengue e doença de Chagas, afetam desproporcionalmente países de baixa renda situados nos trópicos, principalmente as populações mais vulneráveis.

A listagem oficial enumera as doenças prioritárias para esforços globais de enfrentamento, mas há diversas outras condições que atingem mais essas mesmas populações, como a violência e os acidentes de trânsito. Esse conjunto mais amplo de agravos negligenciados é o foco de estudos do Ciaten (Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados), da UFPI (Universidade Federal do Piauí), do qual Carlos Costa e Bruno Guedes são coordenadores. Ambos também atuam como professores de medicina comunitária na UFPI. 

Nesta entrevista, Costa e Guedes falam sobre a importância de construir um pensamento dos trópicos para os trópicos e do uso de evidências por parte da gestão pública. A conversa realizada em agosto de 2024 faz parte de um especial que o Nexo publicou em setembro, com extenso material de Gráfico e cinco entrevistas com especialistas sobre o tema. 

De onde surge a noção de doenças tropicais negligenciadas?

CARLOS COSTA A noção de doenças tropicais, em inglês, surge na virada do século 19. Durante o período colonial essas doenças eram consideradas “exóticas”, ou seja, não existiam nos países colonizadores, como a Inglaterra. A medicina também estava se formando nessa época, por meio do desenvolvimento científico, com o advento das doenças infecciosas e as descobertas de Louis Pasteur sobre microrganismos. Foi nesse contexto que criaram uma especialidade e, posteriormente, o Instituto de Medicina Tropical de Londres. Essa noção se expandiu para outras metrópoles, como França, Bélgica, Alemanha e, mais tarde, Estados Unidos, mas sempre com uma visão externa, voltada para fora.

No Brasil, surgiram algumas sociedades com o mesmo foco, mas com uma visão interna, dos trópicos para os trópicos. Essa visão necessariamente tem uma conotação política, pois passa a vivenciar problemas que antes eram experimentados externamente por outras pessoas – com fins que nem sempre visavam o bem-estar dos habitantes dos trópicos, mas sim das metrópoles. Até hoje, podemos ver investimentos em doenças tropicais em alguns países que claramente têm o objetivo de proteger eventuais soldados que porventura se aventurem nos trópicos. Essa noção de “doenças tropicais” conseguiu sobreviver no Brasil, enquanto outras sociedades passaram a usar termos como parasitologia, focando nos parasitas transmitidos por insetos. Essa noção, de certa forma, se tornou meio arcaica.

No início do novo milênio, surgiu a noção de “doenças negligenciadas”, novamente vinda dos países ricos do Norte Global. Essas doenças são tropicais e, além disso, negligenciadas. A ideia era criar uma distinção para algumas doenças que ocorrem mais nos trópicos, embora não sejam exclusivas dessa região, mas que têm uma carga maior nos trópicos proporcionalmente a outras doenças. 

Qual a relação dessas doenças com o ecossistema tropical?

CARLOS COSTA Essas doenças têm forte conexão ecológica com o ecossistema tropical, que está localizado entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, embora não sejam exclusivas dessas regiões. 

Apenas cerca de 10% do Brasil não é tropical. Nem todos os países são completamente tropicais; metade da Austrália, por exemplo, está nos trópicos. Na Arábia Saudita, metade está acima do Trópico de Câncer. Há também regiões na China que, se fossem consideradas isoladamente, seriam dos países mais populosos dos trópicos, mas, evidentemente, a maior parte da China está fora dos trópicos. Nos Estados Unidos, apenas Porto Rico e Havaí estão nos trópicos. Na França, temos a Nova Caledônia e pequenos territórios, mas é isso: o ambiente tropical é aquele das antigas colônias dos países ricos do Norte Global, que hoje são países uniformemente pobres, no máximo de renda média, como o Brasil. O único país de renda elevada na região tropical é Singapura, que é uma cidade-estado.

Um aspecto dominante desse ambiente é a ecologia e as temperaturas elevadas, com repercussões biológicas importantes. Por exemplo, é muito mais fácil um alimento se contaminar e causar diarreia em um ambiente de temperatura elevada do que em um ambiente frio. Os vetores das doenças estão adaptados aos trópicos, embora haja vetores de doenças não tropicais, transmitidas por vetores que não são dos trópicos, como nos Estados Unidos. Então, a ecologia é um fator importante, assim como o clima e o sistema ecológico, em geral, apesar das variadas latitudes e regiões costeiras, desérticas e florestais que compõem essa diversidade dos trópicos.

Qual a relação dessas doenças com o componente econômico?

CARLOS COSTA A pobreza é um fator determinante. É um tema central para reflexão nos países tropicais: por que são pobres? Precisamos colocar essa questão no centro das discussões. Sabemos da dificuldade que todos enfrentamos em nosso ambiente cultural, que ainda é dominado pelos países colonizadores e pelo Ocidente, em geral. Não conseguimos sequer articular um ponto de vista científico fora das matrizes ideológicas estrangeiras que cultivamos. É como se não fosse bom ser tropical; estamos sempre voltados para as colônias. Isso é algo que ainda não é consensual. Muitas pessoas que trabalham nos trópicos não internalizam a ideia de que devemos pensar a partir dos trópicos.

As tecnologias inventadas para os trópicos são mais baratas do que as voltadas para fora. Isso é algo que podemos observar nos materiais da administração pública, que hoje falam de uma das missões deles: investir em doenças tropicais negligenciadas e buscar o fim das desigualdades sociais. Isso demonstra que investir nessas doenças tem repercussões econômicas, além de criar uma cultura libertadora e nos tirar da opressão ideológica que nos faz acreditar que somos pobres porque somos pobres. Há uma narrativa evasiva e pesada, que nos faz acreditar que somos pobres porque somos herdeiros de indígenas, que seriam “preguiçosos”, ou de negros, que “não tinham cultura”. Essa é uma carga muito pesada na cultura dos países tropicais, onde desvalorizamos nosso próprio conhecimento.

Por exemplo, publicações científicas são muito mais valorizadas se feitas em periódicos que não são dos trópicos do que se fossem feitas aqui. Há um preconceito imenso entre os próprios cientistas e nos instrumentos de governo, que valorizam mais editoras estrangeiras, criando um ambiente de desvalorização do conhecimento tropical. O movimento da medicina tropical tem certa ligação com o tropicalismo dos anos 1970, na busca por valorizar nossas próprias fontes. Hoje, esse movimento aborda um problema importante: as doenças negligenciadas. Não diria que são necessariamente negligenciadas por serem tropicais, mas essas doenças acabam sendo negligenciadas, com exceção, talvez, da infecção por HIV, que ultrapassou fronteiras e atingiu fortemente países do Hemisfério Norte, principalmente Estados Unidos e outras áreas do mundo. Contudo, 80% das mortes por AIDS no mundo ocorrem na África ao sul do Saara.

Existe um preconceito tão grande que nem chamamos mais de África Equatorial ou África ao sul do Saara; chamamos de África Subsaariana, como se o mundo fosse aquele globo que colocamos sobre a mesa. Isso mostra a tragédia da autoestima que temos. Precisamos de uma revolução cultural em relação aos trópicos. Esse é um tema que tentei abordar durante algum tempo, sobre o papel dos trópicos. São doenças profundamente negligenciadas nesses trópicos.

Doenças como a hanseníase, por exemplo, que não é de origem tropical. É uma doença bíblica, presente no mundo civilizado. Mas ninguém quer saber de investigar hanseníase, os municípios não notificam, os médicos não sabem diagnosticar, e a doença continua se espalhando. Tuberculose está aí. O HIV com incidência aumentando no Brasil, enquanto o mundo inteiro está em declínio. Continuamos negligenciando o problema. Não se fala mais de HIV em larga escala, não se alerta as crianças sobre a doença. Existem doenças invisíveis, como a doença de Chagas, que hoje em dia poucos sabem o que é. Leishmaniose, que ocorria nas matas da Amazônia, hoje está na periferia urbana das cidades. O calazar, uma doença visceral, também urbanizada, está agora em várias regiões, como na Argentina, Uruguai, Bolívia, saindo do Nordeste brasileiro.

Há uma lista extensa de doenças negligenciadas, e muitas delas são variáveis. Não adianta falar de uma única doença, porque elas mudam. O importante é não desconectar as doenças negligenciadas das doenças tropicais, pois os dois estão juntos. Não existe doença tropical que não seja negligenciada. Malária, tuberculose, HIV, todas são negligenciadas, principalmente nos países mais pobres do mundo. Precisamos rever esse tipo de concentração.

Malária, tuberculose e HIV são negligenciadas, mas não fazem parte da lista oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde). Como funcionam estas listas?

BRUNO GUEDES Se a gente vai no site da SBMT (Sociedade Brasileira de Medicina Tropical), eles têm uma lista. Se vamos para revistas científicas que publicam sobre medicina tropical, elas têm uma lista de algumas doenças. Alguns periódicos excluem dessa lista malária e tuberculose, porque têm um financiamento maior comparado com outras doenças como esquistossomose, hanseníase e Chagas. A OMS lançou há pouco tempo um “roadmap” para as doenças negligenciadas, listando cerca de 20 doenças. Esse material também serve como um norte dos esforços globais. Mas tem toda essa crítica que o Dr. Carlos Carlos fez: essas doenças têm que ser pensadas a partir dos trópicos, para os trópicos, e não de cima para baixo, não de fora para dentro.

Qual a atuação do Ciaten no tema das doenças tropicais negligenciadas?

BRUNO GUEDES O Ciaten é um centro de inteligência em agravos tropicais emergentes e negligenciados. Um dos pontos que a gente trabalha são os agravos negligenciados, que estão aí há décadas, centenas de anos, como hanseníase e tuberculose, são transmitidos via aérea. Trabalhamos com agravos negligenciados de transmissão vetorial, como a doença de Chagas e leishmaniose. Para isso, contamos com parceiros da entomologia [estudos sobre insetos]. Além dessas doenças, trabalhamos também com as emergentes, que surgiram nas últimas décadas, como chikungunya, zika e febre do Nilo Ocidental, que teve um dos poucos casos no Brasil aqui no Piauí, onde foi implementado um projeto de vigilância.

Além disso, o Ciaten também se dedica a agravos que não são necessariamente doenças. Por exemplo, quando o Dr. Carlos Costa foi presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, ele lançou o desafio de estudar acidentes de trânsito, que podem ser considerados agravos tropicais. O Piauí é um dos estados com maior mortalidade por acidentes de trânsito. Estamos fazendo um trabalho agora para analisar o investimento em pesquisa científica para doenças como câncer, doenças musculoesqueléticas, diabetes, hipertensão, comparado ao investimento para doenças como malária, leishmaniose, Chagas, acidentes de trânsito e diarreia.

Estamos mostrando que agravos, como diarreia e acidentes de trânsito, têm uma alta carga de doença a nível global, mas um baixo investimento em pesquisa científica. Isso corrobora a ideia de que são agravos negligenciados. No Ciaten, realizamos pesquisas com esses agravos. Temos quatro núcleos, cada um com sua expertise, seja na área vetorial, de emergências, ou agravos de violência. Trabalhamos com boletins epidemiológicos, testes rápidos, e pesquisas operacionais para auxiliar na implementação de políticas públicas informadas por evidências.

São quatro finalidades: 1) realizar pesquisas; 2) fomentar políticas públicas informadas por evidências; 3) treinar e capacitar a gestão e outros interessados, como estudantes e profissionais; e 4) produzir dispositivos tecnológicos e biotecnológicos, como testes rápidos e vacinas.

Temos também plataformas de epidemiologia, onde realizamos revisões sistemáticas e mapeamos evidências científicas para auxiliar na gestão. Por exemplo, estamos mapeando o que funciona para o controle da tuberculose, das arboviroses e da leishmaniose. Recentemente, o Ciaten foi cadastrado como um núcleo de evidências do Ministério da Saúde. Também estamos aplicando inteligência artificial, para melhorar o diagnóstico de doenças tropicais, de doenças como Chagas e leishmaniose.

Sobre essa questão do trânsito, como isso se relaciona ao tema das doenças tropicais negligenciadas?

CARLOS COSTA Quanto à violência e acidentes de trânsito, esses são problemas graves que não podem ser ignorados. A violência, por exemplo, é um problema de saúde pública nas regiões tropicais, principalmente no sul global, devido à migração maciça do campo para a cidade. As motocicletas, que se tornaram o principal meio de transporte para as populações mais pobres, têm sido responsáveis por muitas dessas mortes. Esses jovens trabalhadores, muitas vezes sem segurança social e direção adequada, são vítimas de acidentes, especialmente em áreas rurais onde não há infraestrutura ou legislação de trânsito. Nossa prioridade não é apenas as motocicletas, mas também entendê-las como veículos que executam crimes de violência.

O maior problema de saúde pública do Nordeste hoje, e de muitos países, são os acidentes de trânsito. Isso está presente na Bolívia, no norte da Argentina, em toda a América Latina. Então, de certa forma, precisávamos puxar esse tema para colocá-lo numa discussão central.

Temos esse trabalho de peneirar o conhecimento científico de modo a alimentar os gestores, aqueles que tomam decisões no país, e, em particular, no estado do Piauí, que carece de instrumentos pensantes. Não é questão de pomposidade, mas de sermos organismos que pretendem pensar para trazer o conhecimento à gestão. É um trabalho imenso, apesar de sermos pequenos.

Qual a importância dos dados no enfrentamento a esses agravos negligenciados?

BRUNO GUEDES Uma das primeiras atividades que fizemos foi verificar a carga dessas doenças aqui no Brasil, especificamente no Piauí, para mapear quais são as regiões mais afetadas e vulneráveis, e onde há mais vetores para determinadas doenças. Nós elaboramos um boletim para cada uma dessas doenças, como a hanseníase e os acidentes de trânsito, para mapear e começar a sensibilizar o público-alvo.

Temos dados que mostram claramente que os acidentes de trânsito, especialmente com motocicletas, têm aumentado ao longo do tempo. Isso é algo que estamos monitorando e que o novo governo do Piauí começou a responder recentemente, lançando um pacto entre o governo e a sociedade para a redução desses acidentes. O Ciaten está monitorando esses esforços através da análise de dados para entender a carga das doenças em diferentes regiões e para acompanhar o progresso das ações.

Qual o papel do Brasil no combate às doenças tropicais negligenciadas?

CARLOS COSTA Acho que o Brasil tem condições de ser um líder global no combate a essas doenças tropicais, junto com outras nações. O problema é que ainda não entendemos claramente os benefícios da ciência, que são intangíveis e não geram retorno imediato. No entanto, ao longo do tempo, a ciência pode gerar conhecimentos que possibilitam avanços tecnológicos e retornos financeiros para os governos que investem nela.

É preciso que haja um esforço conjunto das grandes nações tropicais para convencer os demais de que a ciência é fundamental, mesmo que o retorno não seja imediato. O Brasil, por exemplo, deveria investir muito mais nessa área. É preciso que as nações entendam que a ciência não é apenas uma questão de retorno econômico imediato, mas também uma fundação para o futuro. A Bélgica ou os Estados Unidos, por exemplo, não investirão nesse tipo de conhecimento, mas o Brasil e outros países tropicais têm a responsabilidade de liderar nessa área.

Soluções presentes tropicais são soluções que são baratas que são soluções que são pensadas “bottom-up” [de baixo para cima]. Às vezes as pessoas que estão ali no dia a dia combatendo a doença. 

Qual a relação das doenças tropicais negligenciadas com os ciclos de pobreza?

CARLOS COSTA A doença tira a pessoa do trabalho, significa mais fome, mais privação e provavelmente mais pobreza pela frente. Chagas é trágico, você tira a pessoa do ambiente familiar além de que é uma doença crônica de evolução prática. Então você afeta profundamente a renda familiar. Tira o ânimo, a produtividade, a vontade de sonhar. A pessoa com uma ferida ou lesão permanente é excluída socialmente. Isso tudo têm uma repercussão econômica. 

Isso também me preocupa em relação aos acidentes de trânsito. É uma pena quebrada, são lesões permanentes. São trabalhadores que deixam de produzir. Mas isso é uma única fonte de renda da tua família em lugares pobres, como isso que a gente tá vivendo aqui no Nordeste, onde tem muita gente que tem a moto como meio de sustento.

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