Trechos

‘Verão dos infiéis’: uma família carioca de classe média na ditadura

Dinah Silveira de Queiroz


11 de agosto de 2023

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O ‘Nexo’ publica trecho de ‘Verão dos infiéis’ de Dinah Silveira de Queiroz. O livro narra um fim de semana comum de uma família carioca de classe média abalada por questões psicológicas e religiosas durante um dos períodos mais turbulentos do país

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Seis horas da tarde, e a Livraria Celta é o cenário de sucesso incomum em festa de autógrafos, com afluência de vasto matizado. Lá ao fundo, o escritor José Bioncello senta-se, pequeno e calvo, à mesa com alguém que atrai quase todos os admiradores. É o Zeca, jovem e saudável cantor e compositor, de longos cabelos oleosos, que obteve a maior popularidade no último Carnaval. Juntam-se a alguns escritores e artistas amigos de Bioncello, aflitas mocinhas recém-saídas das aulas, rapazolas em suíças, que empurram ilustres homens de meia-idade, estes a fazer questão de entrar na fila, como um ministro do Supremo Tribunal, que tomou, embora o dono da livraria insistisse em levá-lo ao escritor, o último lugar. Ao longe, compõem-se grupos, fotografam-se escritores; o uísque corre; há mesmo alguns salgadinhos que revoam no alto, por entre colunas pejadas de livros em desordem; esguias senhoras, com decotes flagrantes e estrita elegância, regendo, elas também, seus pequenos círculos admirativos, sugerem referências de cronistas.

Tão quieto em seu canto, passando as mãos pela lombada dos livros, pelo menos alguém está ali e não participa da explosão publicitária da tarde. É o Professor Santana. Quem o visse a pôr e tirar os óculos, a apanhar e recolocar os volumes na estante, teria no instantâneo a exata medida do que significa este homem, sempre a viver mais na

realidade dos livros que na dos homens. A roupa frouxa — o Professor havia emagrecido muito ultimamente —, um pouco desbotada, as orelhas como que sortidas da obscuridade e desenhadas fortemente no todo da figura, estava rondando por ali, olhando a seção política da estante e, por fim, tomando nota de dois ou três títulos.

Hoje, particularmente, a procura, rotineira em outras ocasiões, aparece meio febril e nervosa, na sua imagem de sempre, aquela que, há vinte anos, costumam contemplar os fregueses da Livraria Celta.

Geraldo surpreendeu-o e, como o Professor estremecesse, percebeu que estava mais nervoso do que supunha. Uma senhora alta, de calça comprida e longos brincos, veio saudá-lo e parecia não pretender mais ir embora. Como que a presença do Professor conferia a certa classe de intelectuais um respeito que muitos buscavam nas reuniões, até mesmo só pelo contato exterior. Afinal, depois de ter dito uma porção de coisas risonhas e cálidas sobre o último livro de Bioncello, a senhora foi encomendar um uísque, e o Professor e Geraldo ficaram a sós um instante — se bem que da fila do outro lado da livraria alguns conhecidos chamassem vez por outra o Professor Santana para dar um adeus ou fizessem, pelo menos, um aceno amigável, como o ministro do Supremo Tribunal, que fez questão de ser visto por ele, em sua afetuosa saudação de mãos entrelaçadas no ar, como se dali mesmo, do aperto daquela fila, viesse dar boa-tarde ao bom amigo.

A televisão filmava, agora, parte da livraria. O cantor dizia, de olhos meio fechados, algumas palavras vagas, constrangido. Bioncello ficava ao fundo, a calva maior, resplandecente, o corpo sumido. Era visível a inferioridade do escritor perante o artista. Algumas pessoas mais idosas sentiam-se humilhadas por motivo que não deveria ser tão obscuro, mas que não pretendia ser bem precisado, aliás. A mocinha de cabelos soltos e pestanas postiças, à frente do ministro do Supremo, queixou-se de que “Zeca não quer dar autógrafos senão no livro de Bioncello. Pensei que não tivesse de comprar; bastava trazer uma folha. Doze mil cruzeiros por um autógrafo do Zeca! O senhor não acha caro?”.

A farta onda de assanhamento publicitário não chegava, como se viu, naquele ângulo da livraria onde o Professor e Geraldo conversavam, baixando a voz. Santana, por fim, falou mais audível:

— Eu teria escolhido outra ocasião. Não surtirá nenhum efeito mais decisivo com tantos desastres e inundações!

Continuava a bulir nos livros, e uma constelação de pintinhas pretas fascinava a visão de Geraldo naquela mão redonda e pálida que acariciava os volumes com sensualidade de mulher. O Professor continuou, pondo os óculos novamente e apanhando Geraldo pelo braço:

— Não podemos deixar de prestigiá-los. Eles estão sendo a única barreira… o verdadeiro protesto neste marasmo. Teoricamente não estou de acordo; mas não posso deixar de acompanhá-los… você não acha?

— É verdade, não pode deixar de prestigiar.

— Então, vamos?

— Professor, o senhor vai indo que eu sigo depois. Bioncello é meu amigo, e não quero deixar de dar meu abraço, o senhor compreende. Nós nos encontramos. Temos uma hora ainda.

Foi-se esgueirando o Professor Santana, procurando escapar às saudações e aos abraços, e Geraldo, conhecendo os corredores da livraria, deu a volta por trás da mesa de Bioncello, que, ligeiramente apanhado pelas câmeras de televisão, voltava a dar autógrafos — agora só para os amigos, pois que o glorioso Zeca debandara, tomando o rumo de outra festa e arrastara consigo parte sensível do público.

Recebido o volume de Bioncello, feito o clássico cumprimento ao escritor, agora mais à vontade, livre no meio dos colegas para tomar seu uísque, contar anedotas e saindo rápido, ele também, Geraldo foi puxado pelo braço:

— Você já vai? Vamos juntos?

Era o colega Sérgio Silva, do Diário Nacional, seu companheiro de turma no ginásio, um que passava por ser o gênio da geração.

Geraldo ficou ligeiramente intimidado, mas Sérgio não mostrou nenhum vexame em ferir o ponto justo. Cheirando a uísque e a salgadinhos, foi tirando o lenço do bolso, lim-

pando os lábios.

— Espere — pediu. — Sei que você vai com o Professora Copacabana. Moro junto, você sabe. Não custa nada levar, meu velho.

Dentro de Geraldo alguma chamada obscura atraíra Sérgio Silva. Ele próprio o teria fabricado, em sua perplexidade?

Se não acompanhara o Professor Santana, não teria sido por aquele simples abraço a Bioncello, que lhe custara poucos segundos, afinal. Sérgio Silva, limpando os grandes óculos em operação obstinada, quando chegou ao carro — estava sempre dedicando às coisas uma atenção qualquer —, logo que o amigo fechou a porta, acrescentou, sorridente:

— Que vocês façam o que bem entendem, está certo. Mas meter o Professor na coisa não é honesto, você me desculpe.

Geraldo via com algum prazer o embaraço do trânsito, dificultado ainda, excepcionalmente, por novos desmantelos na cidade, depois das últimas chuvas. Contava com a demora para esclarecer sua posição no encontro com o grupo de intelectuais que levariam ao embaixador americano o protesto contra a guerra no Vietnã e a “infiltração na Amazônia”.

Sérgio Silva ia dizendo:

— Teria algum sentido esta farrinha… desculpe, hein?…se não houvesse outros recursos muito melhores. Quem faz a esquerda, no Brasil, não são esses malucos que querem chamar atenção. Somos nós, na imprensa, metendo hoje um artiguinho, dando uma interpretação conveniente para ela, ajudando nos títulos, farejando o que está no ar, mexendo a comida que o público vai digerir. A cúpula dos jornais pode ser de direita, mas até uma criança sabe que donos e diretores de jornal não leem tudo o que se escreve.

O carro entrava agora no descortinado dos jardins da Glória mostrando aquela mistura de coisa preordenada, de fícus bem aparados, e, mais adiante, o parque recente, explosão quase brutal de plantas recém-metidas no aterro e capim brotado com a última força da umidade. Enquanto o amigo ia falando, como que aquela paisagem lhe perfazia o resumo da inteligência brasileira, com velhas disciplinas e aventuranças de moços, tudo coexistindo num panorama ameaçado — sabia-se lá se por uma revolução ou um cataclismo dos céus. Sérgio continuava:

— Cheguei a uma conclusão: o Brasil, menino, só tem dois partidos. E não são nem Arena, nem MDB.

Geraldo não pôde deixar de rir e dizer:

— E essa, agora! Você não está nada brilhante hoje, rapaz!

Como o trânsito novamente apertasse, o outro freou o carro e, numa sonoplastia que ajudava o discursinho:

— Brilhante como nunca, meu caro. O Brasil tem dois partidos mesmo: o Exército, que está organizado até no meio da indiada brava, e a Igreja… com sua organizaçãozinha supranacional, que vai até o Xingu e adjacências. O resto é besteira, nem adianta pensar. Conjunto vocal…

Capa Verão dos infiéis

Verão dos infiéis

Dinah Silveira de Queiroz

Editora Instante

208 páginas

Lançamento em 14 de agosto