Ignacio Del Valle Dávila
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O professor Ignacio Del Valle Dávila indica 5 livros pra pensar sobre cinema além das telas.
Não acredito em cânones nem em tipologias. Não gosto das críticas de filmes que vêm com estrelinhas. Por isso, fiz uma seleção conscientemente arbitrária, parcial e subjetiva de cinco livros, tentando me guiar tanto pela qualidade intrínseca de cada um deles como pelos caminhos que abriram para o estudo do cinema contemporâneo.
Ismail Xavier
Trata-se de um livro essencial para quem se interesse pelo cinema brasileiro da segunda metade do século 20, tanto pela importância do momento histórico que que aborda – o final dos anos 1960, a crise do cinema novo, o auge do cinema marginal e do tropicalismo – quanto pela sagacidade das análises do autor na hora de articular análise fílmica, contexto e intertexto. É também um livro importante para entender a noção de alegoria muito usada nos estudos sobre cinema do Brasil. A sua repercussão vai muito além das fronteiras do Brasil e da língua portuguesa.
Ella Shohat e Robert Stam
Verdadeiro clássico dos “estudos culturais”, o livro defende com bastante paixão o multiculturalismo diante dos cânones eurocêntricos e de posições hegemônicas dos EUA e Europa Ocidental. O livro não se restringe ao cinema, mas integra essa arte dentro da esfera mais abrangente do audiovisual. Pelo seu caráter interdisciplinar é uma excelente introdução para uma ampla série de trabalhos e aproximações com os quais dialoga: pós-colonialismo, estudos subalternos, estudos de gênero, queer, etc.
Gilles Lipovetsky e Jean Serroy
Estou apenas parcialmente de acordo com muitas das teses deste ensaio, porém, ele é muito instigante. Primeiramente porque propõe – como outros livros do Lipovetsky – superar a noção de pós-modernidade pela de hipermodernidade, ou seja, uma exacerbação dos traços da modernidade, como o do individualismo. Em segundo lugar, porque faz uma leitura muito perspicaz da proliferação das telas no nosso cotidiano, mas sem proclamar a morte do cinema – como outros livros o fazem. No lugar disso, postula a ascensão de um hiper-cinema associado a um hiper-espetáculo.
Marijke De Valck
Talvez o livro mais desconhecido da minha seleção para o leitor brasileiro, mas uma obra muito importante para entender os festivais de cinema. Escolhi essa obra porque é um excelente exemplo de como o cinema é muito mais do que filmes. Para entendê-lo como fenômeno cultural, é preciso levar em conta outras esferas como a distribuição, exibição, promoção, crítica e as políticas públicas dos Estados. Nesse sentido, os festivais de cinema são fundamentais para o estabelecimento de rupturas, a consagração de cineastas, a legitimação de movimentos e o desenvolvimento da diplomacia cultural. Como mostra o livro, os festivais são um lugar crucial para a circulação e intercâmbio que permitem a renovação constante do cinema.
Paulo Antonio Paranaguá
Fiquem espertos, estou tentando enganar vocês: esse não é um livro sobre cinema contemporâneo (embora alguns capítulos abordem a contemporaneidade). Porém, eu trabalho com a história dos cinemas latino-americanos e não posso deixar de indicar uma excelente obra para pensar os pontos em comum e as diferenças entre os cinemas dos nossos países, os intercâmbios, as circulações de ideias, de agentes e bens culturais, mas sem nunca abrir mão do estudo das especificidades nacionais. O livro é um bom exemplo das circulações que estuda: escrito por um brasileiro que mora na França, foi publicado na Espanha pelo Fondo de Cultura Económica, uma editora de origem mexicana. Infelizmente não foi traduzido para o português.
Ignacio Del Valle Dávila é chileno e espanhol residente no Brasil. É professor de cinema na Universidade Federal da Integração Latino-americana e na pós-graduação em Multimeios da Unicamp. Fez doutorado e mestrado em cinema na Universidade de Toulouse, um pós-doutorado na USP e outro na Unicamp.
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