Favoritos

Ignacio Del Valle Dávila


17 de junho de 2018

Temas

Compartilhe

Foto: Arquivo pessoal

O professor Ignacio Del Valle Dávila indica 5 livros pra pensar sobre cinema além das telas.

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

Não acredito em cânones nem em tipologias. Não gosto das críticas de filmes que vêm com estrelinhas. Por isso, fiz uma seleção conscientemente arbitrária, parcial e subjetiva de cinco livros, tentando me guiar tanto pela qualidade intrínseca de cada um deles como pelos caminhos que abriram para o estudo do cinema contemporâneo.

Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal

Ismail Xavier

Trata-se de um livro essencial para quem se interesse pelo cinema brasileiro da segunda metade do século 20, tanto pela importância do momento histórico que que aborda – o final dos anos 1960, a crise do cinema novo, o auge do cinema marginal e do tropicalismo – quanto pela sagacidade das análises do autor na hora de articular análise fílmica, contexto e intertexto. É também um livro importante para entender a noção de alegoria muito usada nos estudos sobre cinema do Brasil. A sua repercussão vai muito além das fronteiras do Brasil e da língua portuguesa.

Crítica da imagem eurocêntrica

Ella Shohat e Robert Stam

Verdadeiro clássico dos “estudos culturais”, o livro defende com bastante paixão o multiculturalismo diante dos cânones eurocêntricos e de posições hegemônicas dos EUA e Europa Ocidental. O livro não se restringe ao cinema, mas integra essa arte dentro da esfera mais abrangente do audiovisual. Pelo seu caráter interdisciplinar é uma excelente introdução para uma ampla série de trabalhos e aproximações com os quais dialoga: pós-colonialismo, estudos subalternos, estudos de gênero, queer, etc.

A tela global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna

Gilles Lipovetsky e Jean Serroy

Estou apenas parcialmente de acordo com muitas das teses deste ensaio, porém, ele é muito instigante. Primeiramente porque propõe – como outros livros do Lipovetsky – superar a noção de pós-modernidade pela de hipermodernidade, ou seja, uma exacerbação dos traços da modernidade, como o do individualismo. Em segundo lugar, porque faz uma leitura muito perspicaz da proliferação das telas no nosso cotidiano, mas sem proclamar a morte do cinema – como outros livros o fazem. No lugar disso, postula a ascensão de um hiper-cinema associado a um hiper-espetáculo.

Film festivals: from European geopolitics to global cinephilia

Marijke De Valck

Talvez o livro mais desconhecido da minha seleção para o leitor brasileiro, mas uma obra muito importante para entender os festivais de cinema. Escolhi essa obra porque é um excelente exemplo de como o cinema é muito mais do que filmes. Para entendê-lo como fenômeno cultural, é preciso levar em conta outras esferas como a distribuição, exibição, promoção, crítica e as políticas públicas dos Estados. Nesse sentido, os festivais de cinema são fundamentais para o estabelecimento de rupturas, a consagração de cineastas, a legitimação de movimentos e o desenvolvimento da diplomacia cultural. Como mostra o livro, os festivais são um lugar crucial para a circulação e intercâmbio que permitem a renovação constante do cinema.

Tradición y modernidad en el cine de América Latina

Paulo Antonio Paranaguá

Fiquem espertos, estou tentando enganar vocês: esse não é um livro sobre cinema contemporâneo (embora alguns capítulos abordem a contemporaneidade). Porém, eu trabalho com a história dos cinemas latino-americanos e não posso deixar de indicar uma excelente obra para pensar os pontos em comum e as diferenças entre os cinemas dos nossos países, os intercâmbios, as circulações de ideias, de agentes e bens culturais, mas sem nunca abrir mão do estudo das especificidades nacionais. O livro é um bom exemplo das circulações que estuda: escrito por um brasileiro que mora na França, foi publicado na Espanha pelo Fondo de Cultura Económica, uma editora de origem mexicana. Infelizmente não foi traduzido para o português.

Ignacio Del Valle Dávila é chileno e espanhol residente no Brasil. É professor de cinema na Universidade Federal da Integração Latino-americana e na pós-graduação em Multimeios da Unicamp. Fez doutorado e mestrado em cinema na Universidade de Toulouse, um pós-doutorado na USP e outro na Unicamp.

*Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos do Nexo, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo. Por favor, considere também assinar o Nexo.