Laura Carvalho
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A economista Laura Carvalho estreia em 17 de abril como nova colunista do ‘Nexo’, quinzenalmente às sextas-feiras. Ela indica 5 obras para refletir sobre os rumos do debate econômico depois da pandemia
Karl Polanyi (Trad. Fanny Wrobel, Campus, 1980)
Em um dos livros mais importantes do século 20, Polanyi analisa as transformações da sociedade, do Estado e dos mercados trazidas pelo liberalismo econômico desde a revolução industrial, bem como os sinais de fracasso desse modelo nos anos 1930-1945. Em particular, o livro estuda como os fenômenos econômicos passaram a ser pensados de forma descolada dos fenômenos sociais, constituindo um sistema distinto ao qual a sociedade deveria se submeter. Para tanto, o autor recorre ao contraste com sociedades pré-modernas, em que prevaleceriam sistemas baseados na reciprocidade, na redistribuição e/ou nos agregados familiares. O livro mostra como a crise dos anos 1930 ressocializou a economia, ao desnudar os limites dos mercados autorreguláveis e a falsa ideia de liberdade que esse modelo trouxe no caso das classes menos favorecidas.
Branko Milovanovic (Harvard University Press, 2019)
Um dos maiores pesquisadores de desigualdade na atualidade, Milanovic se vale de um minucioso trabalho de dados para examinar o presente e o futuro do capitalismo em seu mais novo livro, que deve ser lançado no Brasil neste ano, pela editora Todavia. Apesar de ter dominado todas as alternativas, tornando-se o único sistema econômico no mundo, o capitalismo na visão de Milanovic não entregou os resultados que muitos esperavam nos anos 1990. Ao contrário, observamos desigualdades crescentes de renda e riqueza dentro dos países, queda da mobilidade social intergeracional, maior polarização social e econômica e aumento da influência da riqueza na política, levando à concentração do poder nas mãos de poucos e ao enfraquecimento da democracia. Embora considere que o capitalismo em suas várias formas não será substituído em um futuro próximo, Milanovic oferece um arsenal de propostas para reduzir seu caráter disfuncional: tributação dos mais ricos e, em particular, das heranças, expansão de investimentos públicos visando a igualdade de oportunidades e financiamento público de campanhas para reduzir o controle do processo político pelos mais ricos são algumas delas.
Pedro H. G. Ferreira de Souza (Hucitec, 2018)
No livro que ganhou o prêmio Jabuti de 2019, derivado de sua tese de doutorado, Pedro Ferreira de Souza analisa a trajetória da desigualdade no Brasil ao longo de quase um século, a partir da construção de uma nova base de dados e à luz de teorias existentes sobre o tema. Embora tenhamos experimentado episódios de crescimento da renda na base da pirâmide, Pedro mostra que a concentração da renda no topo mostrou-se muito persistente ao longo do tempo, sobretudo nas últimas duas décadas. A exceção são mudanças bruscas em alguns momentos críticos de nossa vida institucional. No pós-guerra, por exemplo, houve redução de 5 pontos percentuais na fração da renda apropriada pelo 1% mais rico, o que pode estar associado ao desenvolvimento do aparato administrativo do imposto de renda durante a guerra. A ditadura militar, por sua vez, provocou a reversão dessa tendência. Pedro desenvolve a partir de tais evidências o que chama de hipótese Jencks-Piketty: só grandes rupturas exógenas reconfiguram fortemente a desigualdade. Seria a pandemia uma dessas rupturas?
Mark Blyth (Trad. Freitas e Silva, Autonomia Literária, 2018)
Nesse livro de grande sucesso, Mark Blyth examina as origens da crise econômica de 2008 e os episódios de austeridade que se seguiram, bem como suas bases teóricas. A busca por essas raízes intelectuais começa com autores como Locke, Hume e Smith, passando pela Escola Austríaca, Schumpeter e Friedman, até chegar ao papel dos economistas da Universidade de Bocconi na Itália nos anos mais recentes. A austeridade, como aponta Blyth, vem sendo entendida como uma “dor virtuosa após a festa imoral”. É uma ideia perigosa por três razões. Primeiro, porque não funciona, como mostra Blyth a partir da análise da trajetória de países que a implementaram. Segundo, porque faz com que os pobres paguem pelos erros dos mais ricos. Terceiro, porque repousa sobre uma grande falácia: nem tudo que se aplica ao nível da família vale para um país ou para um conjunto de países. A explosão de dívida pública ao redor do mundo em meio à pandemia certamente irá reviver esses debates.
Mariana Mazzucato (Trad. Elvira Serapicos, Portfolio Penguin, 2014)
Em um momento em que se discute a necessidade de garantir a oferta de equipamentos médico-hospitalares para enfrentar a pandemia, o livro de Mariana Mazzucato é fundamental para a compreensão do papel que o Estado sempre teve no desenvolvimento tecnológico e produtivo dos países. Inovar é uma atividade de alto risco, que não depende apenas da genialidade dos inventores. Em um diagrama do livro que ficou muito conhecido, a autora mostra, por exemplo, como as diferentes tecnologias incorporadas no Iphone da Apple têm origem em pesquisas financiadas pelo Estado. Mazzucato deixa claro que a dicotomia entre setor privado e Estado continua não fazendo sentido quando se pensa em construir um modelo de desenvolvimento para o século 21, que seja sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental.
Laura Carvalho é doutora em economia pela New School for Social Research, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e autora de“Valsa brasileira: Do boom ao caos econômico” (Todavia).
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