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Sergio Schargel


21 de março de 2025

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Foto: Arquivo Pessoal

A convite da seção 'Favoritos', o pesquisador Sérgio Schargel indica cinco livros para entender o bolsonarismo

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Em meu livro “Bolsonarismo, integralismo e fascismo(Folhas de Relva, 2024), proponho que o fenômeno não pode ser interpretado em chave única. Sim, é possível enxergá-lo como um equivalente contemporâneo do fascismo, mas sua natureza vai muito além disso. Movimentos políticos atuais nunca são meras réplicas de seus antecessores, especialmente quando emergem em contextos geográficos e históricos distintos. O bolsonarismo carrega e atualiza elementos do reacionarismo autoritário, populista e nacionalista de Benito Mussolini, mas também dialoga com outros grupos e ideologias. Para entendê-lo, é preciso considerar não apenas o fascismo histórico, mas também o libertarianismo, o integralismo, a cultura política autoritária brasileira, o fundamentalismo religioso e uma miríade de outras influências que compõem o mosaico heterogêneo formado em torno da figura de Jair Bolsonaro. 

Escolher apenas cinco livros para compreender um fenômeno tão multifacetado não é tarefa simples. Ainda assim, convidado pelo Nexo, aceitei o desafio de pensar em obras fundamentais para iluminar o movimento que chacoalhou a Nova República nos últimos anos. 

O pêndulo da democracia

Leonardo Avritzer (Todavia, 2019)

 

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Um dos primeiros livros relevantes a sair sobre o bolsonarismo, ainda no primeiro ano do governo. A tese de Leonardo Avritzer, professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais, é simples, mas não simplória: há um ciclo autoritário no Brasil. Sem ser original ou exclusiva, a ideia de uma forte cultura política autoritária, que faz com que os períodos democráticos sejam curtos e estejam sempre sob ameaça, ganha formulação incisiva e bem elaborada nesta obra. O bolsonarismo não é tratado como um fenômeno isolado, mas como um novo capítulo de um processo mais amplo, que combina crises institucionais e enfraquecimento de mecanismos democráticos e que, no Brasil, ressurge de tempos em tempos. 

 

O Brasil dobrou à direita

Jairo Nicolau (Zahar, 2020)

 

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Já é clichê dizer que as eleições de 2018 foram surpreendentes. Mas Jairo Nicolau mostra a cegueira dos analistas políticos ao não perceberem que o cenário estava mais propício do que nunca para a ascensão de um outsider (como Bolsonaro se vendia) devido a uma série de particularidades daquelas eleições. O enfraquecimento do PSDB e a substituição do terreno da centro-direita pela extrema direita, mudanças no sistema político (como o tempo de refiliação partidária), o fim do financiamento por empresas, a facada, a insistência do PT com Lula até o limite — tudo isso gerou um caldo que permitiu o que talvez fosse impossível em qualquer outra eleição. Mais surpreendente do que Bolsonaro ter vencido em 2018, só a sua derrota em 2022. 

 

Menos Marx, mais Mises

Camila Rocha (Todavia, 2021)

 

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O bolsonarismo não é um movimento homogêneo, mas sim uma composição de grupos distintos que se uniram em torno de um objetivo comum: derrotar a esquerda. Entre esses grupos, um dos mais influentes é o dos liberais e libertários, que, apesar de compartilharem uma defesa do livre mercado e do Estado mínimo, abrigam correntes internas frequentemente em conflito. Para entender a ascensão de Jair Bolsonaro, é essencial analisar o crescimento do liberalismo no Brasil, especialmente a partir dos anos 2000. É essa trajetória que Camila Rocha investiga em “Menos Marx, mais Mises”, um estudo detalhado sobre a formação do novo liberalismo brasileiro e seu papel na construção do bolsonarismo.

 

O livro traça a genealogia desse movimento, desde a atuação dos primeiros think tanks na década de 1960 até a consolidação de uma nova geração de liberais que encontraram espaço na política institucional. Diferente de suas versões europeia e norte-americana, o liberalismo brasileiro adquiriu características próprias, frequentemente mais combativas e alinhadas a um antiesquerdismo radical. A grande questão que Camila Rocha busca responder é como Bolsonaro, cuja trajetória política jamais foi liberal, conseguiu se apropriar desse discurso e atrair esse segmento. A resposta passa por um pragmatismo mútuo: os liberais enxergaram em Bolsonaro o único candidato viável para barrar a esquerda, enquanto ele encontrou no liberalismo econômico um argumento para ampliar seu apoio e ganhar legitimidade entre setores empresariais e do mercado financeiro. 

 

O fascismo em camisas verdes

Odilon Caldeira Neto e Leandro Pereira Gonçalves (Editora FGV, 2020)

 

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Entre os diversos grupos que compõem o bolsonarismo, um dos menos visíveis, mas ainda assim relevante, é o integralismo. A tradição autoritária brasileira teve um papel fundamental na ascensão de Jair Bolsonaro, e o integralismo é um dos exemplos mais evidentes dessa influência. Embora tenha perdido força após a morte de Plínio Salgado e se fragmentado em diferentes correntes, o movimento nunca desapareceu completamente do cenário político. Seus símbolos, discursos e estratégias continuam a ecoar em setores da extrema direita, ajudando a moldar a retórica e as práticas bolsonaristas.

 

É verdade que o movimento que se formou em torno de Bolsonaro tem suas características próprias e independentes, mas também é verdade que adquiriu e absorveu diversas estratégias e elementos da contraparte brasileira do fascismo. Até o lema “Deus, pátria e família” é o mesmo. O integralismo pode não ser o motor principal do bolsonarismo, mas sua influência histórica ajuda a entender como a extrema direita brasileira construiu seu discurso e conquistou espaço no debate público. Odilon Caldeira Neto e Leandro Gonçalves ilustram bem o processo de continuidade entre essas manifestações de extrema direita, de ontem e de hoje.

 

O não judeu judeu 

Michel Gherman (Fósforo, 2022)]

 

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O livro de Gherman coloca uma questão negligenciada, mas imprescindível para entender a extrema direita global: por que grupos minoritários aderem a políticos e políticas que, pelo menos em teoria, vão contra seus próprios interesses?

 

Bolsonaro nunca se furtou a flertar com o nazismo e a emitir declarações antissemitas. Ainda assim, uma parcela considerável da comunidade judaica brasileira votou em um político cujo secretário da Cultura se vestiu de Goebbels. As razões são múltiplas e complexas e passam por uma questão de múltiplas identidades e pelo whitewashing de Bolsonaro com Israel, mas Gherman não se furta a explorá-las em profundidade. 

 

Sergio Schargel é doutor em comunicação pela UERJ. Mestre em Letras pela PUC-Rio e mestre em Ciência Política pela Unirio. Venceu o Prêmio Abralic de melhor dissertação do biênio 2020-2021, que se transformou no livro O fascismo infinito, no real e na ficção: como a literatura apresentou o fascismo nos últimos cem anos (Bestiário, 2023). Também é autor de Bolsonarismo, Integralismo e Fascismo: diálogos entre Jair Bolsonaro, Plínio Salgado e Mussolini (Folhas de Relva, 2024). Sua pesquisa e produção artística são focadas na relação entre literatura e política, tangenciando temas como teoria política, literatura política, fascismo, extrema direita, judaísmo, antissemitismo e a obra de Sylvia Serafim. Contato: sergioschargel@gmail.com.

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