‘Memória ocular’: um relato sobre as sequelas de junho de 2013
Sérgio Silva e Tadeu Breda
07 de junho de 2018(atualizado 28/12/2023 às 07h44)O ‘Nexo’ publica trecho do livro que traz textos de Tadeu Breda e imagens de Sérgio Silva sobre a vida depois dos protestos de junho de 2013. O fotógrafo perdeu o olho esquerdo ao ser atingido por uma bala de borracha naquele momento. O trecho a seguir abre a obra.
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LEMBRANCINHA 2013–2014
Sérgio avisa, “Gosto de café bem doce”, antes de enterrar a colher no pote de açúcar. Carregado, o talher abandona o recipiente metálico, sobe alguns centímetros e se dirige lentamente à xícara fumegante. Por um instante, estaciona no ar. “Bem doce”, repete, e lança o montículo branco em queda livre. Os cristais, porém, não mergulham no alvo: chocam-se contra a madeira e se esparramam pela mesa. O embaraço é inevitável.
“Isso acontece o tempo todo”, justifica. “Estou sempre esbarrando e derrubando coisas.”
Alguns minutos antes, Sérgio, num gesto qualquer, havia estapeado o gravador que registrava sua voz. Outro dia, na rua, seu cotovelo acertou em cheio o nariz de uma mulher quando o braço desastrado quis dar sinal para um ônibus que se aproximava.
“Agora preciso fazer tudo, tudo mesmo, com muita calma e maestria.”
Há sete meses, a vida de Sérgio se resume a prestar máxima atenção às tarefas mais elementares. Subir escadas distraído é como escalar um tombo. Perambular pelas calçadas da Vila Jaguara, na zona oeste de São Paulo, onde mora, significa cabeça perpetuamente baixa, medindo degraus repentinos, irregulares, que se reproduzem ao sabor das garagens dos vizinhos.
“Atravessar a rua é terrível”, conta. “Usar a faixa já era um hábito meu, mas, agora, não me arrisco fora dela nem quando não há carros por perto.”
Sérgio adquiriu um novo medo, que não costuma figurar no rol das paranoias de quem frequenta a rua desde criança: ser atropelado. Hesita mesmo quando o farol está verde para os pedestres. Pensa, analisa, certifica-se do autoimobilismo antes de deixar uma calçada rumo à outra.
As dificuldades se repetem nas tentativas lentas, seguras e graduais de voltar ao trabalho. Sérgio demora um pouco mais para montar tripé, luzes e demais equipamentos de gravação, ofício que começa a aprender. “E as pessoas ficam esperando…”
Quando está com a câmera na mão, perde o foco e as oportunidades, com receio de pisar no pé alheio ou tropeçar em fios espalhados pelo chão. “São falhas que, antes, eu não cometeria, não faria, nunca fiz.” É nos detalhes do dia a dia, todos os dias, que Sérgio se dá conta da falta que lhe faz o olho esquerdo.
“A grande mudança aparece nas coisas mais banais.”
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No dia 13 de junho de 2013, muita gente sabia — e outras tantas desconfiavam — que a Polícia Militar agiria com a dureza prometida na véspera pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e invocada pelos maiores jornais do país.
Em duro editorial intitulado “Retomar a Paulista”, a Folha de S. Paulo pintou os manifestantes como vândalos violentos que destroem o patrimônio público e privado e atrapalham a vida de milhões de paulistanos, e decretou: “É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na Avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais”.
O Estado de S. Paulo expressou sua opinião com o texto “Chegou a hora do basta”, em que, depois de descrever o protesto com adjetivos semelhantes aos empregados pelo concorrente, pedia: “De Paris, onde se encontra para defender a candidatura de São Paulo à sede da Exposição Universal de 2020, o governador disse que ‘é intolerável a ação de baderneiros e vândalos. Isso extrapola o direito de expressão. É absoluta violência, inaceitável’. Espera-se que ele passe dessas palavras aos atos e determine que a PM aja com o máximo rigor para conter a fúria dos manifestantes, antes que ela tome conta da cidade”.
Alheio à enviesada sede de sangue dos jornalões, Sérgio Andrade da Silva, 33 anos, dirigiu-se ao centro da cidade com sua câmera para cobrir um protesto pacífico. Nem as duas inexplicáveis ligações que recebeu à tarde, da sogra e de um amigo, ambas pedindo cuidado, o demoveram da ideia. “Pensei em desistir, parecia um sinal. Só que o lado profissional pesou mais.” Quando chegou à manifestação, Sérgio teve certeza de ter tomado a decisão correta. “O que vi no início da passeata eram pessoas muito empenhadas para que tudo realmente ocorresse na maior tranquilidade.”
Na quinta-feira, a partir das dezoito horas, o centro da capital seria tomado pela quarta vez em menos de uma semana por manifestantes contrários ao reajuste das tarifas de ônibus, trem e metrô na cidade, vinte centavos, implementado em conjunto pelos governos municipal e estadual onze dias antes. Fotógrafo de paixão e profissão, Sérgio tinha um plano para a noite que começava.
Envolvido em uma mudança de residência que tardava em acontecer, ainda não havia presenciado nenhum protesto. “Estava dedicando meu tempo a visitar casas
e apartamentos.” Naquele dia, porém, deixou de lado imobiliárias e ofertas de aluguel pela internet: queria fazer algumas imagens da mobilização social, que crescia, apesar da oposição ferrenha da classe política tradicional e dos meios de comunicação de massa.
“Alguma coisa ficava mexendo dentro de mim. Eu precisava estar ali, registrando aqueles momentos. Algo me dizia que era importante.”
Com sorte, além de testemunhar um episódio que entraria para a história recente do país, Sérgio poderia comercializar seu trabalho pela Agência Futura Press. Fotojornalismo era um de seus empregos eventuais, um dos muitos ganha-pão temporários a que um freelancertem de recorrer para pagar as contas.
Mas não poderia ficar muito tempo na manifestação — não dessa vez. Sua esposa chegaria de Brasília à noite, e ele havia prometido buscá-la em Congonhas. Voltariam para casa, abraçariam as duas filhas e jantariam juntos. O reencontro do casal, porém, se daria duas horas e meia depois do planejado. Não no aeroporto, mas no hospital. E sem as meninas.
“A bala me escolheu”, lamenta Sérgio, relembrando o azarado acaso que preferiria jamais ter vivido. “Eu não estava na linha de frente, estava atrás de algumas pessoas. O projétil passou por um corredor de gente antes de me acertar. Poderia ter acontecido com qualquer outro.”
Antes de lhe mutilar o olho esquerdo, a pequena esfera atravessara as duas pistas da Rua da Consolação e se esgueirara pela estreiteza que separa uma parede e uma banca de jornais na esquina com a Rua Caio Prado. Quase vinte metros distavam o atirador de seu minúsculo alvo.
“O policial foi muito preciso, mas não teria capacidade para ser assim tão certeiro, nem se quisesse”, ressalta, lembrando que uma cortina cinzenta de gás lacrimogêneo impedia que o policial fizesse mira especificamente no globo ocular do fotógrafo.
Sérgio é apenas uma das pessoas feridas no 13 de junho de 2013. Não foi o único a receber tiros de borracha, e sequer detém exclusividade entre os atingidos diretamente no olho pelo projétil, usado sem cerimônia pela PM naquela noite.
Vítima do mesmo artefato, a repórter Giuliana Vallone teria a visão direita salva pelos óculos: a lente de acrílico suportou o impacto e protegeu o globo ocular. A imagem e suas pálpebras inchadas, imersas na roxidão, ganharia a internet e comoveria muita gente — inclusive fora do país. No dia seguinte, contudo, Giuliana estaria enxergando com o olho ferido. Sérgio, não. Nunca mais.
De acordo com o Movimento Passe Livre, que encabeçou os protestos pela redução da tarifa do transporte público na cidade, pelo menos cento e cinquenta cidadãos, entre manifestantes, jornalistas e transeuntes, foram violentados de alguma maneira pela PM na noite daquela quinta-feira. As agressões foram variadas: de lambadas de cassetete no rosto e nas costas
a assédio sexual e ameaças de estupro, passando por estilhaços de bombas, sufocamento por gás e, claro, tiros de borracha. Outros tantos apanharam e preferiram voltar para casa calados.
O fotógrafo, porém, foi o mais prejudicado pelos abusos policiais que ganharam as ruas de São Paulo durante todas as jornadas de junho: apenas Sérgio teve um órgão tão importante permanentemente sequelado — e apenas ele sentiu sua vida tomar um rumo indesejado e inesperado devido à ação repressiva do Estado.
Por isso, coloca em xeque os discursos governamentais. Não acredita que sua cegueira tenha sido perpetrada por um mero desvio de conduta, uma excepcionalidade, eventuais abusos que serão apurados, como querem fazer crer comandantes e secretários de Estado.
“Tenho um metro e oitenta de altura. Para me atingir no olho, ainda que não tenha mirado em mim, o policial estava com a arma apontada para a cabeça das pessoas. Isso é inaceitável. Ele atirou para machucar.”
Sérgio Silva é fotógrafo.
Tadeu Breda é jornalista.
Sérgio Silva e Tadeu Breda
Editora Elefante
230 páginas
Lançamento em junho de 2018
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