O dicionário do dialeto LGBT, citado na prova do Enem
Camilo Rocha
05 de novembro de 2018(atualizado 28/12/2023 às 23h29)Lançado em 2006, ‘Aurélia, a dicionária da língua afiada’ tem coautoria do jornalista e ativista Vitor Angelo
Bandeira do orgulho LGBTI+
“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!”.
A frase acima integrou uma questão da prova de linguagens do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), realizada em 4 de novembro de 2018.
Ela usa gírias e expressões do dialeto pajubá, usado na comunidade LGBT como “amapô” (mulher), “acuê” (dinheiro), “equê” (truque, enganação) e “picumã” (cabelo).
A questão inclui uma referência ao livro “Aurélia, a dicionária da língua afiada”, publicado em 2006 por Angelo Vip e Fred Libi, pela Editora da Bispa.
Ao estudante do Enem era perguntado qual característica do pajubá o faria ser considerado dialeto e elemento de patrimônio linguístico.
Os dois autores do dicionário assinam com pseudônimos. Libi não quis revelar sua identidade à época do lançamento. Vip era o jornalista Vitor Angelo, que morreu em 2015 , de parada cardíaca.
Angelo trabalhou como repórter na MTV, Rede TV! e Folha de S.Paulo. Um dos pioneiros do jornalismo dedicado a questões LGBT, foi colunista da seção GLS da Revista da Folha, e depois assinou o Blogay, no UOL, que manteve até perto de sua morte.
Morto em 2015, jornalista Vitor Angelo publicou dicionário com Fred Libi em 2006
O escritor João Silvério Trevisan dedicou a quarta edição de seu livro “Devassos no paraíso”, lançado em 2018, a Angelo. “Sua inteligência, alegria e consciência crítica fazem falta a mim e a tanta gente mais”, escreveu o autor na homenagem. A obra de Trevisan procura contar a história da homossexualidade no Brasil, desde os tempos coloniais.
De acordo com entrevista de Angelo à época do lançamento do livro, ele e Libi realizaram uma pesquisa nacional para compilar os verbetes do dicionário. “Começamos a perguntar para amiguinhos e amiguinhas. Conversamos com gente do Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará e também com amigos portugueses. E também entrevistei travestis”, contou.
Com 143 páginas e cerca de 1.300 verbetes, o título da obra alude ao hábito de gays usarem nomes próprios e substantivos no feminino. À época, a brincadeira não foi bem aceita pela editora e pela viúva de Aurélio Buarque de Holanda, o lexicógrafo que dá nome ao tradicional dicionário de língua portuguesa. Em declaração dada à Folha em 2006 , Marina Baird Ferreira, então com 83 anos, disse que “A família em nome do falecido autor declara-se contrária a qualquer demonstração de homofobia, mas dispensa essa ‘homenagem’ ao dicionário.”
Relatos históricos e pesquisas acadêmicas apontam o início do uso do pajubá (ou bajubá, segundo algumas grafias) entre travestis nas décadas de 1960 e 1970. Na sua origem, o dialeto funcionava como proteção a seus usuários.
“Começamos a falar na época da ditadura, por conta da repressão policial e para despistar na presença de alguém indesejado”, afirmou Keyla Simpson, presidente da Atrás – Associação dos Travestis de Salvador, em entrevista de 2009 para uma publicação da Ufba (Universidade Federal da Bahia).
Com o tempo, os vocábulos e expressões transcenderam o universo dos travestis e se disseminaram por todo o universo LGBT.
Uma grande quantidade das palavras do pajubá são de origem iorubá, língua falada no sudoeste da Nigéria e no Benim (onde é chamada de nagô). O iorubá e o nagô vieram ao Brasil por intermédio de escravos africanos. Seus falares seguiram vivos graças ao uso no contexto do candomblé. A religião era uma das raras a não discriminar gays nem travestis, que começaram a usar alguns de seus termos.
“As palavras foram apropriadas de terreiros de candomblé, mas os sentidos foram transformados. Não é o sentido exatamente que vigora no terreiro, mas se faz uma aproximação”, afirmou Amara Moira, pesquisadora e militante transgênero, à revista Bravo em 2018 .
De acordo com a linguística, o pajubá pode ser caracterizado como um dialeto. Esses “não ocorrem somente em regiões diferentes, pois numa determinada região existem também as variações dialetais etárias, sociais, referentes ao sexo masculino e feminino e estilísticas”, escreveu Ana Cláudia Fernandes Ferreira, doutora em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.
NEWSLETTER GRATUITA
Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia
Gráficos
O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você
Destaques
Navegue por temas