O que diz o ‘Green New Deal’ de Ocasio-Cortez, nos EUA
Mariana Vick
15 de fevereiro de 2019(atualizado 28/12/2023 às 02h33)Apresentada por deputados democratas, resolução propõe novo modelo sustentável para eliminar poluição e enfrentar a mudança climática
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Alexandria Ocasio-Cortez, principal redatora do Green New Deal, e o senador Ed Markey, em coletiva de imprensa sobre o projeto
A deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Ed Markey, ambos do Partido Democrata, nos Estados Unidos, apresentaram em 7 de fevereiro de 2019 um projeto que define o Green New Deal , plano ambiental que busca transformar o país em uma economia de carbono neutro até 2030.
A resolução propõe ações multissetoriais para o combate à mudança do clima nos EUA, incluindo uma meta de que, em dez anos, o país deve converter “100%” de sua demanda energética em “fontes de energia limpa, renovável e com emissões zero” de dióxido de carbono.
A ideia é incentivar o advento de um novo modelo econômico que tire os Estados Unidos do ranking de países poluentes, seguindo os moldes do New Deal , conjunto de reformas na indústria promovidas no governo de Franklin Roosevelt, que transformou o paradigma de desenvolvimento americano após a crise financeira de 1929.
A proposta atende às expectativas de ambientalistas, movimentos sociais e democratas que pertencem à ala à esquerda do partido — como a própria Ocasio-Cortez — ao propor, mais do que soluções para o equilíbrio do clima, reformas profundas nas políticas sociais dos EUA.
A resolução, que não se apega a detalhes práticos, não deve ser entendida como um projeto de lei — a ideia é que, daqui para frente, legisladores que apoiam o projeto divulguem projetos sobre como seria feita a execução das medidas propostas para a transição econômica.
A resolução, de 14 páginas, enumera cinco objetivos para a infraestrutura nacional que, segundo os autores, exigem o desenvolvimento de uma série de novas políticas públicas e ações do governo americano.
A proposta se baseia na premissa de que os EUA, segundo Markey e Ocasio-Cortez, enfrentam duas crises interdependentes — uma ambiental e outra, econômica, marcada pela estagnação de salários e crescente desigualdade. O Green New Deal busca atacar a ambos.
Metas
O projeto propõe um acordo nacional para que os EUA cumpram uma série de grandes metas — alcançar emissão líquida zero de gases do efeito estufa, criar empregos “sustentáveis”, investir na indústria e infraestrutura pela ótica dos desafios do século 21, garantir ar e água limpos e garantir justiça para os mais vulneráveis à mudança do clima.
Medidas
A fim de atingir as metas, o projeto propõe uma mobilização nacional de uma década envolvendo medidas como a restauração de ecossistemas, a modernização das redes elétricas do país, a “descarbonização” dos setores de energia, transportes e indústria e a formação de parcerias com agricultores que levem ao fim das emissões de carbono na zona rural.
Governo
Como parte da mobilização, o governo americano deve fiscalizar a aplicação do Green New Deal, pensar novas leis e ações para executar o plano, assegurar um ambiente econômico profícuo para a transição sustentável, investir no desenvolvimento de tecnologias limpas, promover a transparência e incentivar a participação, dialogando com a sociedade civil, a academia, o setor privado, sindicatos e comunidades vulneráveis.
Uma das principais ideias apresentadas no texto é a de “justiça ambiental”, que diz que o combate à mudança do clima não deve se restringir à discussão sobre emissões, tecnologia e políticas públicas, mas entender como a crise ambiental reforça desigualdades — daí a proposta do plano de fortalecer políticas sociais.
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pessoas devem ficar expostas a temperaturas “terríveis” até 2050 devido à emissão de carbono, segundo relatório da ONU citado no texto
A segunda ideia central do texto diz respeito ao papel do poder público — que, segundo os autores, deve ser a principal fonte de financiamento da transição econômica, garantindo que o valor investido no projeto retorne à população na forma de empregos e da oferta universal de serviços públicos.
Por outro lado, o plano não se aprofunda em pontos como o custo da transição econômica, a taxação (ou não) de emissões de carbono, as novas fontes de energia a serem priorizadas e soluções para o ambiente nas cidades . As pendências devem se resolver em projetos futuros.
Apelidado de “utópico” e “ socialista ”, o Green New Deal foi recebido com “ escárnio ” por republicanos na Câmara dos Representantes, que dizem que seus planos ameaçam o crescimento da economia como é hoje nos EUA.
Isso porque o plano põe em xeque alguns dos setores mais lucrativos da indústria americana, que, com vasto uso de combustíveis fósseis, posiciona os EUA como o segundo maior emissor de carbono no mundo.
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toneladas de dióxido de carbono foram emitidas pelos EUA em 2017, segundo a BP, conglomerado de energia; em volume total de emissões, o país perde para a China
A ideia é rebatida por Markey e Ocasio-Cortez, que sustentam que é a manutenção de uma indústria poluente que pode causar prejuízos à economia — já que a intensificação da mudança no clima deve provocar catástrofes e tornar insustentável o modelo atual a médio prazo.
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é a estimativa de perda anual na economia dos EUA em 2100, segundo relatório da Fourth National Climate Assessment citado na resolução
Entre os democratas, Ocasio-Cortez tem estimulado colegas que avaliam concorrer à eleição presidencial em 2020 a apoiar o plano durante a campanha — o que deve servir como teste para o lançamento de outras políticas progressistas capitaneadas pela legenda. A ideia enfrenta resistência de integrantes do partido mais ligados ao establishment.
Por ora, no Congresso, a democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, disse que não levará o plano para votação em sua forma atual . Por outro lado, no Senado, o líder da maioria, o republicano Mitch McConnell, quer votá-la desde já — a ideia é tentar “minar” o projeto enquanto ele ainda está em debate, dizem analistas.
O presidente Donald Trump afirmou que, se aprovado, o Green New Deal “ acabaria com carros e voos aéreos ” e que as indústrias do país migrariam para a China. “É como o sistema funciona”, disse. Durante o mandato, Trump negou a mudança climática , deu incentivos para indústrias poluentes e tirou os EUA do acordo do clima de Paris .
Nascida e criada no Bronx, distrito de Nova York, Ocasio-Cortez tem 28 anos e origem latina — sua mãe é porto-riquenha e seu pai, americano. Estudou economia e relações internacionais na Universidade de Boston e, nesse período, trabalhou com o ex-senador democrata Ted Kennedy.
Eleita na onda de novas candidaturas femininas que venceram as eleições de meio de mandato de 2018, fez uma campanha ligada às bases e focada na mensagem de “dignidade social, econômica e racial para os trabalhadores americanos, especialmente do Queens e do Bronx”.
A deputada integra a organização socialista The Democratic Socialists of America e faz parte de uma ala jovem e “radical” à esquerda, formada recentemente no Partido Democrata. Para integrantes da legenda, sua vitória nas primárias contra um veterano, Joseph Crowley, foi uma conquista dos “democratas progressistas contra os corporativos”.
Na campanha, Ocasio-Cortez fez duras críticas a Donald Trump e defendeu a abolição da polícia migratória nos Estados Unidos, assistência médica para todos os americanos, ensino superior gratuito e garantia universal de empregos, além do combate à mudança do clima.
Para o site City & State New York, o sucesso de Ocasio-Cortez pode ser atribuído à ideologia progressista , à demografia dos bairros onde concorreu e ao uso inteligente e não convencional das redes sociais. A campanha se destacou entre pessoas mais jovens, negras e latinas.
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