Expresso

Como a pandemia expõe contradições do modelo americano de saúde

João Paulo Charleaux

13 de março de 2020(atualizado 28/12/2023 às 12h57)

Sem uma rede abrangente de saúde pública, médicos alertam para falta de exames, de leitos e de equipamentos para lidar com o coronavírus nos EUA. Trump declara emergência nacional

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FOTO: ANDREW KELLY/REUTERS – 10.MAR.2020

Homem com máscara anda em Nova York. Ao fundo, loja de roupas, e a que se destaca na vitrine é uma vermelha com o slogan "Make America Great Again" e boné também vermelho

Homem com máscara passa diante de vitrine com slogan do governo Trump

Assim como mais de 110 países, a maior potência econômica, política e militar do mundo está sendo testada pelo coronavírus. A pandemia que se alastra desde dezembro levanta dúvidas sobre a eficiência do modelo de saúde dos EUA.

Nesta sexta-feira (13), o presidente Donald Trump declarou estado de emergência nacional. Com isso destinou U$ 50 bilhões para o combate ao coronavírus e decretou a criação de centros de controle do coronavírus em todos os estados americanos. O dinheiro vem de um fundo do Congresso americano para desastres naturais e será usado no combate à pandemia.

Trump fez o anúncio rodeado por representantes de empresas do setor farmacêutico e de saúde, com as quais anunciou uma parceria no fornecimento de testes para detecção da doença. Segundo o presidente, essa parceria disponibilizará 5 milhões de testes de coronavírus aos americanos dentro de um mês.

A associação com o setor privado foi a forma encontrada pelo governo americano para responder à questão da subnotificação de casos de coronavírus nos EUA. Não se sabe qual o número exato de pessoas contaminadas no país. Até quinta-feira (12), pouco mais de 7.000 testes de detecção do vírus tinham sido realizados, num universo de mais de 300 milhões de habitantes – o que faz dos EUA o país com a menor taxa de testes por habitante entre todos os países desenvolvidos no mundo.

Subnotificação

Gráfico mostra número de testes de detecção do coronavírus

Entre 31 de dezembro e 12 de março, mais de 125 mil pessoas tinham sido infectadas no mundo, com mais de 4.600 mortes, de acordo com o Centro para Controle e Prevenção de Doenças da União Europeia. Nos EUA, os casos de contaminação passam de 1.300, com pelo menos 30 mortos, mas o quadro pode ser pior.

Embora o presidente Donald Trump tenha ditona quinta-feira (12), em pronunciamento pela TV, que o país possui as “ melhores equipes do mundo ”, muitos especialistas americanos duvidam disso, assim como congressistas de oposição.

O que preocupa os médicos não é apenas a incidência atual do coronavírus, mas o que pode acontecer caso as projeções estatísticas feitas com base no comportamento da doença em outras partes do mundo se confirme.

O Sars-Cov-2, novo tipo de coronavírus, se espalha rapidamente e é capaz de contaminar, num curto espaço de tempo, um número muito grande de pessoas. Como o universo total de contaminados tende a ser alto, o número de internações pode sobrepassar a capacidade das redes hospitalares. Mesmo que a letalidade do vírus seja relativamente baixa para a média da população, sua alta incidência pode colocar qualquer sistema hospitalar normal em risco de colapso.

Na Itália, por exemplo, houve aproximadamente 12 mil infecções, das quais 800 resultaram em morte. Desses 12 mil pacientes, aproximadamente 1.000 se recuperaram rapidamente e foram para casa. O restante permaneceu nos hospitais, abarrotando leitos, enquanto novos pacientes chegavam a todo instante.

O sistema entrou em colapso , mesmo na rica e próspera região da Lombardia, no norte do país, onde estão alguns dos melhores e mais bem preparados hospitais da Europa.

“Os hospitais não sobrevivem financeiramente nos EUA mantendo leitos abertos e os equipamentos ociosos. Eles possuem equipamentos na medida suficiente para serem economicamente efetivos, ainda que guardem capacidade para atender pessoas extras em emergências”

Aaron E. Caroll

professor na Faculdade de Medicina de Indiana, além de autor de livros sobre saúde pública, em artigo para o The New York Times

Além do gargalo de equipamentos, há o gargalo de pessoal. Numa pandemia como essa, quando os níveis de transmissão da doença geram um salto no número de casos e de demandas por internação, médicos são remanejados de áreas menos prioritárias para salas de emergência, entrando em jornadas exaustivas e trocas de turno cada vez mais complicadas.

Enquanto o coronavírus se espalha, as demais doenças e traumas não deixam de existir. Pessoas continuam sendo internadas por acidentes de carro ou câncer, por exemplo. E a rede hospitalar que atende a uns e outros é a mesma.

Uma equação que não fecha

O Instituto de Saúde Global de Harvard estima que os hospitais americanos terão de realizar entre 10 milhões e 34 milhões de consultas médicas ligadas à pandemia. De acordo com o estudo, cerca de 20% desses pacientes passarão por internação, mas o país tem menos leitos hospitalares do que a China, epicentro da pandemia, e a Itália, país mais afetado da Europa, como mostra o gráfico abaixo.

Conta apertada

Gráfico mostra número de leitos por país

Outra questão é que o sistema hospitalar americano possui 45 mil leitos de internação em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). Especialistas de universidades dos EUA consideram que esse número é insuficiente até mesmo para lidar com um afluxo do tipo “moderado”, que leve à internação de 200 mil pacientes .

Um estudo de 2010 afirma que os hospitais americanos têm ao todo 160 mil equipamentos para ventilação pulmonar artificial . Se a atual pandemia seguir curva semelhante à registrada na gripe espanhola de 1918, o país precisará de 740 mil desses equipamentos. Algo semelhante ocorreu na Itália, onde a indisponibilidade desses recursos levou o governo a apelar por ajuda, primeiro, dos vizinhos europeus e, em seguida, para a China.

“O pior cenário possível é o de termos de racionar e fazer triagens de quais pacientes recebem ou não os ventiladores. Eu realmente espero que nós nunca tenhamos que tomar esse tipo de decisão de vida ou morte”

Gabe Kelen

diretor do Centro de Preparação para Eventos Críticos da Universidade John Hopkins, em entrevista ao jornal The New York Times

Limitações do sistema privado

Os EUA não têm um sistema robusto de saúde pública com atendimento gratuito, no qual os custos sejam divididos por toda a população, por meio do pagamento de impostos, como acontece no Brasil e nos países europeus.

A primeira fragilidade desse sistema é que cidadãos que não podem pagar pelos exames ou pelos tratamentos deixam de ir aos hospitais, o que pode aumentar os casos de contaminação, de doença e de morte, além da subnotificação.

27,5 milhões

é o número estimado de americanos que não podem pagar por saúde privada nos EUA

No pronunciamento que fez na TV, Trump disse ter acordado com as empresas privadas de saúde a inclusão dos testes em seus planos, sem custo adicional. Mas ele não explicou como fica a situação das pessoas que não têm cobertura privada. Essa questão também não foi esclarecida nesta sexta-feira (13), ao declarar emergência nacional.

Em ano eleitoral – os EUA escolhem um novo presidente, ou reelegem o mesmo em novembro – o pré-candidato democrata Bernie Sanders aproveitou para defender seu principal projeto: a criação de um sistema único de saúde no país.

“Infelizmente, os EUA estão em severa desvantagem porque, ao contrário de todos os demais grandes países do mundo, nós não garantimos o acesso à saúde como um direito humano. O resultado disso é que milhões de pessoas que não podem pagar por um médico neste país estão por conta própria para pagar por um teste de coronavírus”, disse Sanders num manifesto publicado na quinta-feira (12).

“Nós não podemos viver num país no qual se você tem o dinheiro você consegue o tratamento necessário para sobreviver, mas se você é um trabalhador ou uma pessoa pobre você chegou ao fim da linha. Isso seria moralmente inaceitável”

Bernie Sanders

pré-candidato democrata à Presidência dos EUA em manifesto publicado no dia 12 de março de 2020

Na quinta-feira (12), em depoimento no Congresso americano, o médico Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas, reconheceu as falhas. “O sistema não está preparado para lidar com o que estamos vivendo neste momento. É uma falha . É uma falha. Vamos admitir isso.”

A fala de Fauci foi feita depois de a deputada democrata Debbie Wasserman Schultz, do estado da Flórida, ter pressionado insistentemente o médico Robert Redfield, diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA, para saber exatamente quem deveria ser responsabilizado pelo fato de os testes de detecção serem insuficientes no país.

“A ideia de que qualquer pessoa possa facilmente ter acesso a um teste, da maneira como acontece em outros países … bem, nós não temos isso. Deveríamos ter? Sim. Mas nós não temos”

Anthony Fauci

diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas, em depoimento ao Congresso americano, no dia 12 de março de 2020

A importância de contar com um robusto sistema público de saúde também foi realçada por líderes mundiais como o presidente da França, Emmanuel Macron, que, mesmo sendo um ex-executivo do sistema bancário europeu, ligado a um partido de centro-direita, defendeu em pronunciamento na TV o sistema público existente na França.

“O que essa pandemia nos mostra é que a saúde pública, sem condicionamento de ingresso, de história de vida ou de profissão, nosso Estado-providente, não representa custos ou encargos, mas um bem precioso e indispensável quando o destino nos golpeia”

Emmanuel Macron

presidente da França, em pronunciamento em cadeia de TV, na noite de 12 de março de 2020, em Paris

Nos EUA, Trump, em campanha pela reeleição, atacou os rivais democratas dizendo que o ex-presidente Barack Obama não se saiu melhor contra a epidemia de gripe suína de 2009-2010. Nesta sexta-feira (13), disse que um dos fatores que tornaram necessária a declaração de emergência nacional foi o fato de os democratas“não estarem cooperando”.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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