O que é afrofuturismo. E como ele aparece na cultura pop
Camilo Rocha
05 de agosto de 2020(atualizado 28/12/2023 às 12h57)Álbum visual de Beyoncé usa elementos de conceito que surgiu no meio acadêmico americano e hoje se amplia e se espalha por obras da música, literatura e televisão
Cantora Beyoncé em cena de seu álbum visual ‘Black is King’
O álbum visual “Black is King”, da cantora americana Beyoncé, foi lançado em 31 de julho e logo se tornou um dos principais assuntos da esfera pop. Da poderosa mensagem de orgulho negro às críticas pela maneira como retratou a África, a obra segue gerando debates.
Escrito, dirigido e produzido por Beyoncé, o novo trabalho dá seguimento à trilha sonora “The Lion King: The Gift”, que a artista realizou para a versão em live-action do filme “O rei leão”, lançada em 2019. Assim como a trilha contou com músicos de países como Nigéria, Mali e Camarões, “Black is King” foi feito em colaboração com cineastas de origem africana.
A narrativa usa a fábula dos leões como ponto de partida para criar um panorama emocional, que costura elementos da história negra, referências a tradições africanas e imagens da África contemporânea, acompanhados de “ uma mensagem universal ”, nas palavras da cantora.
Lançado na plataforma de streaming Disney+, o filme ainda não está disponível no Brasil. A plataforma ainda não tem previsão oficial de chegada ao país, embora circulem boatos de que isso possa acontecer em novembro .
Entre as múltiplas referências do álbum, uma das mais pronunciadas é a utilização da estética e do olhar afrofuturista, referência que a cantora já explorou em trabalhos anteriores, como o vídeo “Sweet Dreams (Interlude)”, que abriu sua turnê de 2010.
O afrofuturismo é um termo usado para definir a convergência da visão afrocêntrica com a ficção científica, inserindo a negritude em um contexto de tecnologia e projeções sobre o futuro. O conceito levanta possibilidades de vivência negra em mundos que não são marcados pelo racismo e pela opressão, funcionando como crítica à realidade atual.
O termo foi cunhado pelo crítico cultural e acadêmico americano branco Mark Dery em 1994. Dery usou o termo no ensaio“ Black to the Future ”, em que entrevista três intelectuais negros sobre o motivo de haver tão pouca ficção científica de autoria negra. Eles são o escritor Samuel Delany, o escritor e músico Greg Tate e a crítica cultural Tricia Rose.
Para Dery, causava perplexidade a falta de ficção científica negra nos EUA já que “afro-americanos (…) vivem em um pesadelo sci-fi em que campos de força de intolerância invisíveis e intransponíveis frustram seus movimentos [e] a tecnologia é frequentemente usada contra os corpos negros”.
No fim da década de 1990, a socióloga americana Alondra Nelson foi fundamental para a propagação da ideia de afrofuturismo. Em 1998, ela criou Afrofuturism, uma lista de discussão online pioneira sobre o tema, reunindo acadêmicos, artistas e pesquisadores para discutir as possibilidades e aplicações do conceito. “O termo foi escolhido como o melhor guarda-chuva para os interesses da lista [incluindo] imagens de ficção científica, temas futuristas e inovação tecnológica na diáspora africana”, explicou Nelson em um ensaio de 2002.
Diversos artistas e obras de décadas anteriores já se valiam de uma perspectiva afrofuturista antes de o termo existir. São trabalhos que incluem a HQ da Marvel “Pantera negra”, onde o herói vem do avançado reino africano de Wakanda, a literatura de ficção científica da americana Octavia E. Butler, elementos das colagens do artista Jean-Michel Basquiat e os movimentos robóticos da dança break.
Sun Ra ocupa um lugar único na história do jazz e da música americana
Na música, o marco inicial é o jazzista Sun Ra, que desde a década de 1950 investiu numa visão artística em que o lugar das pessoas negras não era na Terra, mas no espaço. Nos anos 1970, o pioneiro do funk americano George Clinton revestiu sua música e shows de referências cósmicas e futuristas. Na década de 1980, DJs e produtores negros de Detroit criaram o techno,uma música eletrônica que buscava escapar da distopia terrestre .
Nos anos 2010, houve uma retomada do afrofuturismo na música, tanto estética como conceitualmente. Janelle Monae, Rihanna e FKA Twigs estão entres os nomes que apresentaram essa influência em seus trabalhos.
“Com a diversidade da nação e do mundo gerando um contraste cada vez mais radical em relação à diversidade presente em obras futuristas, não surpreende que o afrofuturismo tenha emergido. Quando, mesmo em um futuro imaginário, as pessoas não conseguem compreender a existência de uma pessoa que não seja de descendência europeia, uma atitude cósmica tem de ser tomada”
Para entender melhor as utilizações e significados da expressão, na cultura e em outros campos, o Nexo conversou com:
STEPHANIE BORGES O afrofuturismo virou um termo guarda-chuva para vários tipos de experimentação. Quando [Mark] Dery criou esse termo, ele estava pensando especificamente em tecnologia, em pessoas negras usando referências de tecnologia, mas a gente tem, por exemplo, autores de fantasia que estão lidando com isso, como a Dhonielle Clayton [autora da série de livros “The Belles”], que cria um mundo fantástico onde todas as pessoas nascem feias e sem cor e o que se entende por bonito é ter a pele escura, porque aí você fica diferente de todo o mundo. Ou o que o Donald Glover faz, de colocar elementos surreais na narrativa [da série] “Atlanta”.
A questão toda é ser uma experiência afrocentrada. São pessoas negras usando elementos de tecnologia, do fantástico, para refletir sobre a própria experiência e pensar em futuros possíveis em que a gente não seja necessariamente afetado por uma estrutura racista. É esse exercício de imaginação que cria o espaço para se desenvolver a criatividade.
MORENA MARIAH É um termo que carrega muitos significados. A definição da [pesquisadora e crítica de cinema] Kenia Freitas, uma das primeiras pessoas a escrever sobre afrofuturismo no Brasil, e que fala muito da perspectiva do audiovisual, diz que o movimento cultural do afrofuturismo é plural e multifacetado. Ele começa a partir de um questionamento de um acadêmico sobre ficção especulativa na literatura e, em seguida, as pessoas da comunidade afro-diaspórica vão abraçar o termo e expandir o significado de afrofuturismo para o que a gente conhece hoje.
Para além disso, é um movimento que vai abarcar as mais diversas áreas do conhecimento humano. Ele sai do campo das artes, da literatura e vai afetar as ciências, a filosofia e o pensamento, assim como o ativismo e a militância negras, até chegar à cultura pop. É um prisma que pode ser olhado de vários lados e que pode projetar várias imagens. O afrofuturismo vai tomando outros entendimentos. Eu trabalho com afrofuturismo e educação, faço um podcast sobre conhecimentos e informações sobre cultura africana e afro-diaspórica a partir desse olhar da educação. Especialmente, da autoeducação. É um conhecimento que está fora das cadeiras das academias. Na universidade, você não aprende sobre filosofia africana, história africana ou sobre a tecnologia sob o olhar africano. É um movimento de resgatar um passado africano debaixo de camadas da historiografia hegemônica, contada a partir da Europa.
Gosto de citar o TED da [youtuber] Nátaly Neri onde ela diz que o “afrofuturismo é a ideia radical de que negros existem no futuro”. A ideia primordial do afrofuturismo é essa: questionar o processo de escravização que promoveu um apagamento das vidas negras, de todo um legado cultural, história, existência, e questionar como essa violências vêm se atualizando ao presente para chegar no genocídio que vivemos hoje. A gente se pergunta quem a gente é e não encontra essas informações e isso gera uma dificuldade de olhar para o futuro e projetar essas imagens de futuros, que é um termo do [escritor americano] Samuel Delany. Ele fala disso na entrevista que ele dá para o Mark Derry no artigo “Black to the Future”, onde Mark Dery cunhou o termo afrofuturismo. É um termo que vai, no seu significado, criticar a nossa realidade para tentar criar futuros diferentes.
STEPHANIE BORGES O termo foi cunhado nos anos 1990, mas se a gente pensar, temos Gilberto Gil, que compôs “Cérebro eletrônico”, em 1969. O que há hoje é uma retomada dessa estética afrocentrada em várias frentes diferentes. Por exemplo, na literatura, você tem a N.K. Jemisin, que ganhou por três anos seguidos o [prêmio literário] Hugo Awards com a trilogia de“A terra partida” [entre 2016 e 2018]. Ou os romances da Octavia E. Butler, que agora vão virar série nos Estados Unidos. A própria Octavia E. Butler escrevia nos anos 1970 e 1980.
Não estamos falando de algo novo, mas de uma chegada do afrofuturismo com força na cultura pop. Isso tem muito a ver com a adaptação do “Pantera Negra ” [em 2018], que acho que foi o primeiro contato que muita gente teve, que muita gente pensou “nossa, existe uma ficção científica só com personagens negros”. Nas ficções científicas tradicionais você tem só um personagem negro e a existência dele muitas vezes está ali para cumprir uma cota de diversidade e não para tratar de questões raciais ou sobre a experiência negra – que é o que temos visto agora nessas abordagens do afrofuturismo contemporâneo, mais interessadas em pensar como seria a experiência negra sem ter o racismo como elemento tão forte ou ameaçador na vida das pessoas.
Cena do filme ‘Pantera negra’, da Marvel
Não é uma utopia. O que a gente entende como utopia é também uma ideia de homem branco. No século 20, tivemos muitas utopias e distopias que são, basicamente, a decepção do homem branco com o que se entende por civilização ocidental. Quando você pega, por exemplo, a Octavia E. Butler na “Parábola do semeador”, que começa como uma distopia e vai se encaminhando para criar uma forma de mundo que escapa da distopia, tem pessoas brancas, tem imigrantes de ascendência mexicana. Então é muito mais uma ideia de estabelecer outras relações que a gente não conhece do que uma utopia.
MORENA MARIAH A diáspora abraçou muito esse termo porque ele nasce muito de um questionamento diaspórico. Se a gente for olhar em obras de precursores como Sun Ra vamos ver que existe um questionamento em sua obra e existe uma provocação, uma reflexão, quando ele muda de nome, se autointitula Sun Ra e diz que não é desse planeta. Essencialmente, isso é uma cosmo-sensação das pessoas da diáspora.
O processo de colonização e escravização se dá a partir de um sequestro, de uma abdução. As pessoas negras são abduzidas de seu “planeta África” e são trazidas para esse “planeta Ocidente”, onde somos tratados como extraterrestres, somos proibidos de falar nossa linguagem, de praticar nossas religiões e rituais, de criar núcleos familiares, depois de comprar terras, de frequentar escolas, de votar. Vamos sendo tratados como alienígenas, que não fazem parte dessa sociedade. Esse questionamento que o afrofuturismo vai trazer sobre nós, sobre a ausência desse passado, através do pensamento e das obras, resgatar como fez Beyoncé no “ Black is King”, essas referências da África antiga, de deidades tradicionais, assim como outras mais contemporâneas. A obra da Beyoncé traz exatamente esse questionamento, a espinha dorsal da narrativa do “Black is King” é “quem somos nós”. Nasce um menino negro que vai se questionar sobre quem é e qual sua ancestralidade. Que é o questionamento do “O rei leão” também.
Afrofuturismo é uma lente de pensamento da maior importância para nossa realidade, especialmente na diáspora, onde a gente sente esse vazio identitário e histórico. É muito importante falar de afrofuturismo porque é necessário que a gente fale dessas questões, que são antigas mas muito atuais. A gente não precisa importar as questões dos outros lugares. Por exemplo, quando acontecia aquela discussão sobre redução da maioridade penal, os Irmãos Carvalho, dois cineastas do Morro do Salgueiro, no Rio de Janeiro, produziram um filme chamado “Chico”, que falava desse processo. É uma narrativa afrofuturista onde meninos negros quando nascem já são tratados como suspeitos e culpados de crimes que eles supostamente cometeram no futuro. Tem toda uma narrativa muito bonita, bem construída, de como isso se dá em um futuro distópico.
ESTAVA ERRADO: Na primeira versão deste texto, o nome da autora de“The Belles” foi grafado erroneamente como Danielle Clayton. O correto é Dhonielle Clayton. A correção foi feita às 18h41 de 6/8/2020.
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