Como o desemprego reflete o estágio da pandemia no Brasil
Marcelo Roubicek
27 de novembro de 2020(atualizado 28/12/2023 às 12h59)Taxa de desocupação vai a 14,6% e renova recorde, mas outros indicadores apontam início de reação no terceiro trimestre do ano. O ‘Nexo’ conversou com economistas para entender o que vem pela frente
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Pessoas procuram trabalho no centro de São Paulo
A taxa de desemprego atingiu nova alta histórica no terceiro trimestre de 2020, em meio à pandemia do novo coronavírus. O dado foi divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na sexta-feira (27).
14,6%
foi a taxa de desemprego no Brasil entre julho e setembro de 2020
O recorde do desemprego foi renovado pela terceira vez consecutiva em meio à pandemia – o dado é divulgado mensalmente pelo IBGE. Entre julho e setembro de 2020, 14,1 milhões brasileiros estavam desempregados.
A taxa referente ao período de junho a agosto de 2020 foi divulgada como parte da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada todos os meses. A pesquisa entrevista sempre em torno de 211 mil domicílios de todo o território nacional, levando em conta localização e classe social, e coleta informações sobre trabalho e renda, entre outros itens.
O risco de contágio pelo novo coronavírus levou o IBGE a fazer mudanças em suas atividades e calendário . A coleta de dados , antes feita em visitas a casas selecionadas, passou a ser feita por telefone a partir da segunda metade de março.
A paralisação parcial da atividade econômica por conta da pandemia teve efeitos graves sobre o mercado de trabalho. Com receitas prejudicadas pela circulação menor de pessoas e dinheiro, muitas empresas demitiram funcionários ou reduziram jornadas e salários.
Entre março e maio, 7,8 milhões de empregos foram perdidos no Brasil. Mas nem todos que perderam trabalho começaram a buscar imediatamente. Por causa da pandemia, mais de 7 milhões de pessoas saíram do mercado de trabalho nos três primeiros meses da pandemia. Ou seja, optaram por não procurar oportunidades, por medo de contágio pelo vírus ou por falta de vagas na cidade onde moram.
O auxílio emergencial, política articulada pelo Congresso Nacional no início da pandemia, também foi um fator importante naquele momento. Ao garantir uma renda mínima à população mais vulnerável, o benefício manteve algum potencial de consumo dessas pessoas. Sem o auxílio, muitas pessoas não teriam recursos para a subsistência. O auxílio começou sendo pago a um valor mensal de R$ 600 em abril, e foi reduzido para R$ 300 em setembro. O programa está marcado para ser encerrado no dia 31 de dezembro de 2020.
A partir de junho , alguns estados e municípios passaram a flexibilizar as medidas de restrição de circulação, permitindo o funcionamento ampliado de estabelecimentos. Os serviços , o comércio e a produção industrial cresceram, ainda que a ritmos diferentes e sem necessariamente voltar ao patamar pré-crise.
Já no segundo semestre, os números de mortes e novas infecções pelo coronavírus começaram a cair. No mercado de trabalho, a soma de desaceleração do contágio e flexibilização de medidas restritivas levou muitas pessoas de volta à busca por emprego – é o que mostram os números divulgados pelo IBGE na sexta-feira (27).
A pesquisa do IBGE é divulgada em trimestres móveis – ou seja, a cada mês divulga-se o resultado que considera o mês mais recente computado e os dois anteriores. Na comparação com o trimestre móvel anterior, que foi de junho a agosto, os números do IBGE mostram que o emprego cresceu no período de julho a setembro – acompanhando a situação da pandemia no Brasil.
Foi o primeiro aumento do nível de emprego desde o final de 2019, cortando uma sequência de oito trimestres móveis consecutivos de queda. Entre março e agosto, mais de 12 milhões de empregos foram perdidos. No trimestre encerrado em setembro, o número de pessoas ocupadas subiu para 82,5 milhões.
O aumento concomitante do emprego e do desemprego pode parecer contraditório. Mas esse movimento ocorreu porque a força de trabalho voltou a crescer no Brasil. Com novas vagas surgindo e mais gente voltando a procurar emprego, os saldos de desempregados e empregados foram ambos positivos. Mais pessoas estão procurando emprego e há novos postos surgindo – mas não em ritmo suficiente para absorver todo mundo.
O gráfico abaixo ilustra esse movimento. A força de trabalho – que soma quem está trabalhando e quem está procurando emprego – voltou a crescer após queda forte nos primeiros meses da pandemia.
Os dados do terceiro trimestre indicam sinais de melhora no mercado de trabalho pela primeira vez na pandemia, acompanhando a flexibilização e a redução dos casos. Mas em novembro, os números da pandemia voltaram a subir no Brasil – há diversos sinais que apontam nesse sentido, como a taxa de transmissão em alta. O Nexo conversou com economistas para entender como esse movimento pode impactar o mercado de trabalho.
Rodolpho Tobler O que temos visto é que o mercado de trabalho tem reagido de acordo com a pandemia. A população ocupada foi muito atingida no início da pandemia, houve uma perda muito grande de postos de trabalho. Começamos a ver uma recuperação agora: à medida que há uma flexibilização, as pessoas voltam a circular e a economia volta a ter algum tipo de reação também. O impacto foi muito forte naquele primeiro momento.
Esse aumento de casos que temos observado nas últimas semanas – e há a tendência de que isso possa piorar – prejudica o mercado de trabalho. Hoje vemos que há segmentos e setores que dependem dessas flexibilizações para voltar a reagir. Temos visto, por exemplo, o setor de serviços reagindo muito lentamente se comparado a outros, porque alguns tipos de serviços demandam uma presença física das pessoas.
A tendência é que a população ocupada continue evoluindo positivamente mês a mês, mas ainda num ritmo gradual e dependendo do ritmo em que acontece esse aumento de casos. À medida que isso possa requerer uma redução da circulação de pessoas ou algum tipo de fechamento de empresas, isso pode trazer um novo momento complicado para a gente. Tirando efeitos sazonais – em dezembro pode até haver algum tipo de redução da taxa de desemprego por conta das contratações temporárias –, a expectativa é que a taxa de desemprego continue aumentando até o início do ano que vem (primeiro ou até segundo trimestre). Não conseguimos imaginar uma recuperação muito forte do mercado de trabalho nesses próximos meses, e o cenário ainda não inclui uma piora da pandemia.
O que vemos hoje é uma incerteza muito grande nos próximos meses, para todos os lados. Primeiro, a taxa de desemprego deve aumentar nos próximos meses porque está havendo a flexibilização, as pessoas estão voltando a circular. Por outro lado, as pessoas estão ficando cada vez mais com o orçamento apertado, porque existe uma previsão de encerramento do auxílio emergencial. E, por outro lado, há a questão da pandemia: há um agravamento dos casos? Será necessário ter algum tipo de restrição? Além disso, pode ter também uma vacina no início do ano que vem. Então tudo isso traz uma incerteza para o cenário. A velocidade da taxa de desemprego – do aumento agora, e depois da redução – vai depender muito de como vai se desenrolar a questão da pandemia.
Débora Freire O grande problema é que o repique nos casos e essa possível segunda onda que estamos observando vêm num momento de mercado de trabalho ainda fragilizado. E eles acontecem em um momento em que ainda não temos vacina – e muito provavelmente não teremos a população imunizada até o primeiro semestre de 2021.
Essa possível segunda onda poderá ter um efeito muito negativo no mercado de trabalho, visto que o mercado está muito fragilizado e a única medida possível para enfrentar essa segunda onda vai ser, de fato, uma nova onda de isolamento – um novo fechamento das economias.
Precisamos esperar para ver se vai se confirmar esse repique, mas estamos vendo que as taxas de ocupação dos hospitais já estão muito altas. Pelo que temos observado no resto do mundo, podemos experimentar uma segunda onda e a única medida possível será o fechamento novamente de alguns serviços que envolvem aglomerações e uma nova postura de isolamento mais restrito das pessoas, dos consumidores.
É uma situação muito complicada para o mercado de trabalho, que ainda não se recuperou. E essa segunda onda provavelmente vai trazer uma nova onda de fechamentos. Isso em um momento em que o estado de calamidade pública está terminando (vai até o final do ano), e o auxílio emergencial termina junto com ele, assim como outras medidas que foram adotadas [pelo governo].
Rodolpho Tobler Ele pode ser sentido de duas maneiras. Primeiro, olhando pelo lado das pessoas, o orçamento delas fica pressionado. Sabemos que o auxílio emergencial não é um valor exuberante [começou em R$ 600 e foi reduzido em setembro para R$ 300]: é menor que um salário mínimo [R$ 1.045 em 2020]. Mas ajudou bastante as pessoas a passarem por esse momento complicado, a atenuar esse momento negativo. Foi muito abrangente, atingiu uma grande quantidade de pessoas que acabaram sendo afetadas pela pandemia – desempregados, trabalhadores informais, etc.
Mas à medida em que já há uma redução do auxílio e há também a perspectiva de encerramento do auxílio, isso pressiona um pouco mais as pessoas à necessidade de buscar um outro tipo de renda. Fica mais urgente uma busca por emprego, o que acaba pressionando um aumento na taxa de desemprego.
Por outro lado, olhando pelo lado das empresas, temos visto neste segundo semestre uma recuperação mais forte do comércio e principalmente da indústria. Mas muito tem se falado que esse aumento da demanda por bens também foi influenciada positivamente pelo auxílio emergencial. Mas à medida que esse auxílio emergencial for encerrado, é possível que esse ritmo de recuperação econômico que observamos neste ano não seja tão forte no ano que vem. Isso acaba afetando a criação de vagas: as empresas vão ficar mais cautelosas e receosas, esperando ver qual vai ser a real velocidade de reação da economia brasileira no ano que vem, tirando os auxílios. O governo também tem questões fiscais para resolver e não consegue postergar por muito tempo esses benefícios.
Débora Freire O fim do auxílio emergencial pode afetar fortemente o mercado de trabalho. Isso é muito complicado porque os dados do IBGE mostram que ainda estamos em uma situação muito precária. Ao mesmo tempo, essa potencial segunda onda pode trazer novos fechamentos, o que piora ainda mais a situação no mercado de trabalho.
A política do auxílio emergencial foi a mais exitosa de enfrentamento à pandemia. Ela conseguiu manter a renda das famílias mais pobres e teve um efeito muito proeminente de arrefecer o impacto recessivo da crise. O auxílio emergencial manteve empregos, pelo menos em parte – isso porque, ao manter o poder de consumo das famílias, manteve em parte as atividades econômicas, gerando até retorno em termos de impostos para o governo.
Ou seja, tivemos uma recessão, mas ela teria sido muito pior se não tivéssemos o auxílio emergencial. Com o fim do estado de calamidade em 31 de dezembro e o fim do auxílio – e, potencialmente, novos fechamentos por causa de uma segunda onda –, o que se espera é que tenhamos um aprofundamento do impacto recessivo da crise. E isso implica menos emprego, menos produção, menos renda sendo gerada, menos consumo e menos recolhimento de impostos.
Encerrar o auxílio é muito complicado do ponto de vista econômico, dado o momento em que o mercado de trabalho está muito precarizado e em que potencialmente ainda sentiremos as consequências da pandemia e da nova onda — ainda sem ter uma vacina. A eliminação do auxílio vai naturalmente impactar a atividade econômica muito negativamente, porque vai retirar poder de consumo das famílias – e justamente as mais pobres, que são boa parte da população e que consomem a maior parte da sua renda.
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