Expresso

Como a crise do clima afeta os sistemas de saúde no mundo

Mariana Vick

04 de dezembro de 2020(atualizado 28/12/2023 às 23h28)

Estudo da revista The Lancet mostra que países ricos e pobres não têm infraestrutura sanitária adequada para enfrentar desafios da mudança climática 

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FOTO: ANUSHREE FADNAVIS/REUTERS – 29.10.2018

Homem, de costas para a câmara, anda em um grande corredor ao ar livre onde, no fim, aparece o monumento Porta da Índia. Há uma neblina forte de cor amarelada em toda a foto, indicando a poluição do ar no país.

Homem anda sob neblina em frente à Porta da Índia, em Nova Deli, na Índia

Todos os países, sejam ricos ou pobres, têm sistemas de saúde despreparados para lidar com os desafios da mudança do clima global , segundo um relatório publicado na revista científica The Lancet na quarta-feira (2). O impacto da crise climática inclui fenômenos como o aumento das temperaturas e de eventos extremos, como secas.

A pesquisa, que analisou 101 países, afirma que apenas 51 deles têm planos de preparar a infraestrutura de saúde para a mudança climática, e menos ainda — 4 — disseram ter recursos o suficiente para implementá-los. Entre os países que não têm planos, 48 ainda não verificaram se seus sistemas sanitários estão vulneráveis à crise.

das cidades globais analisadas no relatório da revista The Lancet esperam que a mudança do clima “ comprometa seriamente ” sua infraestrutura de saúde pública

O estudo se chama “ Contagem regressiva ”, e teve uma edição anterior em 2016. Os resultados de 2020 trazem um cenário pior, atribuído ao aumento crescente das emissões de gases de efeito estufa e à pandemia do novo coronavírus .

Coordenado por representantes de 35 institutos de pesquisa e de agências da ONU, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), o estudo faz uma revisão das descobertas e do consenso científico sobre clima e saúde. Em 2020, o texto traz mais de 260 referências.

Mesmo com o prognóstico preocupante, a pesquisa traz avanços feitos pelos sistemas de saúde nos últimos anos. Entre 2018 e 2019, o setor aumentou em 3% os recursos voltados à adaptação para a crise climática. Os sistemas de saúde também buscam reduzir suas emissões de gases-estufa, que hoje representam de 4% a 6% do total emitido no mundo, segundo o texto.

Qual a relação entre clima e saúde

A crise do clima tem impactos que podem influenciar de forma direta ou indireta a saúde. É o caso de ondas de calor que afetam o bem-estar físico das pessoas, secas que levam à redução da disponibilidade de água e de alimentos, e eventos intensos, como inundações, que podem causar ferimentos graves ou a morte.

A pesquisa da Lancet mostra que, desde 2000, houve um aumento de 54% de mortes relacionadas ao calor entre idosos, atingindo o total de 296 mil óbitos em 2018. O aumento do calor e a seca provocam também mais risco de exposição a incêndios, que podem causar queimaduras e problemas para o coração e os pulmões.

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eventos climáticos extremos que ocorreram de 2015 a 2020 foram relacionados à crise do clima por estudos científicos, segundo o texto

Os danos que a exposição ao fogo causa para a saúde podem ser vistos nas queimadas que se espalharam pela Amazônia em 2019 e 2020. A temporada do fogo na floresta coincidiu com o aumento de 25% das internações entre indígenas por problemas respiratórios causados pela fumaça, segundo estudo do Instituto Socioambiental.

A pesquisa da Lancet traz também dados sobre a agricultura, que perdeu de 1,8% a 5,6% de seu potencial de rendimento entre 1981 e 2019. Por depender da oferta de água, o setor de alimentos pode sofrer perdas em quantidade e em qualidade com o aumento de secas. Outros eventos, como grandes inundações, podem destruir safras. O cenário pode aumentar a insegurança alimentar .

FOTO: DAVID GRAY/REUTERS – 20.07.2018

Árvore em região afetada por seca na Austrália

Todos esses danos, diretos ou indiretos, recaem sobre os sistemas de saúde dos países, que passam a receber mais doentes afetados por problemas que seriam imprevisíveis no passado, quando os efeitos da mudança climática tinham menos impacto sobre as populações. A perspectiva é que esses efeitos se intensifiquem nas próximas décadas.

A pesquisa nota que esses danos são desiguais, porque têm mais impacto sobre as populações mais pobres . “A mudança climática interage com as desigualdades sociais e econômicas”, segundo o texto. “Políticas intensivas em carbono levam à má qualidade do ar, à má qualidade dos alimentos e à má qualidade das habitações, o que prejudica desproporcionalmente a saúde de grupos desfavorecidos.”

FOTO: AKINTUNDE AKINLEYE/REUTERS – 06.10.2016

paisagem com casas de madeira submersas

Moradias submersas em região próxima ao rio Ogun, na Nigéria

No Brasil, o estudo identifica problemas como as mortes prematuras causadas pela inalação de poluição no ar, causada pelos transportes.

Os efeitos da mudança do clima na saúde também trazem prejuízos para a economia, segundo o texto. Por causa do calor extremo, o Brasil perdeu mais de 4 bilhões de horas de trabalho em 2019, número 36% maior no início da década de 1990. O cálculo desse prejuízo é expresso em horas por pessoa, ou seja, as horas perdidas por cada pessoa afetada.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

Efeitos

A emissão de gases formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

1,2ºC

foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19, segundo estudo da Lancet

Previsões

Em 2018, um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) mostrou que a temperatura mundial poderia aumentar 0,5ºC em uma década se as emissões de CO₂ não tivessem cortes imediatos. Outras projeções mostram que o aquecimento poderia chegar a 6ºC até 2100 se o ritmo da economia continuasse o mesmo. Os efeitos da crise do clima devem se intensificar nas próximas décadas, e, se o aumento das temperaturas se concretizar, o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, escassez de alimentos, inundações e secas severas deve piorar.

Qual a relação com a pandemia

A The Lancet publicou, ao lado do estudo sobre clima e saúde, um editorial em que aponta a relação entre o aquecimento global e o risco de pandemias como a do novo coronavírus, declarada pela Organização Mundial da Saúde em março e com 65 milhões de casos e 1,5 milhão de mortes até o início de dezembro.

Pandemias compartilham a mesma causa que a mudança do clima: a degradação ambiental . Além de elevarem os níveis de carbono na atmosfera, o desmatamento e a expansão desorganizada da agropecuária causam desequilíbrios ecológicos que podem levar à transmissão de novos vírus.

Estudos apontam que o novo coronavírus surgiu provavelmente de um morcego . Do animal, o vírus migrou para um intermediário — como um pangolim, tipo de tamanduá — e acabou se espalhando e se adaptando ao organismo humano. O processo, chamado de “transbordamento”, não acontece por acaso, mas pelo contato forçado entre humanos e esses animais.

O aumento de temperaturas também favorece a transmissão de doenças infecciosas, como a dengue. O estudo da Lancet mostra que, desde a década de 1950, houve um aumento de 15% da incidência de dengue transmitida pelo Aedes albopictus. Houve também alta da malária em determinadas regiões.

Os pesquisadores que assinam o editorial da Lancet consideram que, como clima e saúde são problemas entrelaçados, eles devem ser tratados em conjunto. Os autores propõem que, para sair da crise causada pela pandemia, os países adotem projetos de retomada verde — nome dado à recuperação da economia pelo investimento em setores não poluentes.

“Há uma oportunidade genuína de alinhar as respostas à pandemia e à mudança climática para proporcionar uma tripla vitória: melhorar a saúde pública, criar uma economia sustentável e proteger o meio ambiente. Mas o tempo é curto”

Maria Neira

diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, após a publicação do relatório da revista The Lancet

O editor-chefe da The Lancet, Richard Horton, afirmou que, “assim como vimos com a covid-19, uma ação retardada [contra a crise do clima] causará mortes evitáveis”.

Trata-se de uma crítica ao que uma série de cientistas chamam de inação dos países . Em 2019, o Índice de Segurança Global de Saúde, criado pela ONG Nuclear Threat Initiative e a Universidade Johns Hopkins, nos EUA, mostrou que nenhum país estava preparado para lidar com pandemias. Eles pontuaram em média 40,2 (de 100 pontos), e 90% não tinham estrutura para se antecipar ou reagir a doenças.

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