Um roteiro para entender o fim da produção da Ford no Brasil
Marcelo Roubicek
12 de janeiro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h17)Após mais de 100 anos no país, montadora americana anunciou que vai fechar suas três fábricas brasileiras em 2021
Fábrica da Ford em Taubaté, São Paulo
A Ford anunciou na segunda-feira (11) que irá encerrar a produção de automóveis no Brasil em 2021. Com a decisão, três fábricas serão fechadas no país: Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). As atividades das duas primeiras serão interrompidas imediatamente. A de Horizonte, que produz jipes para a marca Troller, continuará funcionando até o último trimestre de 2021.
A Ford não irá sair por completo do Brasil. O Centro de Desenvolvimento de Produto, na Bahia, onde são desenvolvidas novas tecnologias, continuará funcionando, assim como a sede administrativa e o campo de provas (usado em testes de automóveis), ambos no estado de São Paulo. Além disso, a empresa continuará vendendo carros no Brasil – mas eles serão importados de outros países.
Ao todo, entre demissões, compensações e pagamento de dívidas, o custo das operações de encerramento deverá ser de US$ 4,1 bilhões (R$ 22,5 bilhões no câmbio de 12 de janeiro de 2021).
O anúncio da montadora americana não foi recebido com surpresa por especialistas. Dois anos antes, no início de 2019, a multinacional já havia anunciado o fechamento da fábrica de São Bernardo . Abaixo, o Nexo traz os pontos-chave para entender a interrupção da produção da Ford no Brasil.
Até o início de 2021, a Ford empregava 6.171 pessoas no Brasil. Boa parte delas deve ser demitida até o fim do ano, com o encerramento da produção da montadora americana no país.
Ao portal de notícias G1, a empresa informou que cerca de 5.000 pessoas serão demitidas no Brasil e na Argentina – outro país onde a empresa passará por reestruturação em 2021. A companhia não detalhou exatamente quantas pessoas perderão trabalho em cada país.
Não há definições sobre destino das fábricas onde a Ford está instalada. Segundo o blog da jornalista Ana Flor, da GloboNews, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), entrou em contato com as embaixadas da China, do Japão e da Coreia do Sul para uma visita à planta Camaçari. O processo para atrair uma nova montadora para o local, portanto, já foi iniciado.
Na nota em que anunciou o fim da produção no Brasil, a Ford elencou alguns dos motivos por trás da decisão. O primeiro ponto citado é a transformação do mercado automotivo global, com início do processo de migração para carros elétricos e autônomos. Esse movimento ocorre por demandas de consumidores e também por regulações ambientais mais rígidas de governos pelo mundo.
A priorização dos carros elétricos não é exclusividade da Ford no início de 2021. Apesar de ainda incipiente no Brasil e no mundo, o novo modelo de automóvel tem atraído e exigido cada vez mais investimentos, trazendo um custo alto para desenvolvimento de produtos. Esse foi um dos motivos por trás da fusão entre a italiana Fiat e a francesa Peugeot, aprovada pelos acionistas em 4 de janeiro de 2021.
Outro aspecto levantado pela Ford na nota publicada na segunda-feira (11) é a pandemia do novo coronavírus, que, segundo a própria empresa, trouxe “persistente capacidade ociosa da indústria e redução das vendas na América do Sul, especialmente no Brasil”.
O mercado de carros já vinha em baixa no Brasil desde 2014, ano de início da recessão que durou até 2016. Até 2020, o nível de vendas de 2013 nunca chegou a ser recuperado. A pandemia derrubou ainda mais os números da indústria automotiva no Brasil – em 2020, a produção total de carros caiu 31,6% em relação ao ano anterior. Dados da FGV (Fundação Getulio Vargas) obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo confirmam que o setor tem grande capacidade ociosa , operando em nível mais baixo que a média do restante da indústria de transformação.
Em 2020, o desempenho da Ford foi pior que a média do restante do mercado no Brasil: a empresa teve queda de quase 40% nas suas vendas. A multinacional, que historicamente era a quarta maior montadora do país, caiu para a quinta posição no ranking de parcela do mercado brasileiro em 2020.
O comunicado da empresa também cita um desejo de sustentar o modelo de negócios no Brasil e na América do Sul em SUVs, picapes e veículos comerciais. Ou seja, a empresa deve focar em modelos mais rentáveis , algo que já faz parte de sua estratégia global desde 2018. O deslocamento da produção para a Argentina é parte desse movimento. A planta argentina foca em picapes; a fábrica de Taubaté é especializada em motores e a fábrica de Camaçari produz modelos EcoSport e Ford Ka.
Um último fator levantado pela Ford é a desvalorização do real frente ao dólar em 2020. O câmbio alto aumentou os custos de importação de insumos importantes da linha de produção, encarecendo e prejudicando as operações da empresa.
Os primeiros automóveis Ford a serem comercializados no Brasil eram importados dos EUA e começaram a ser vendidos em 1904 .
A montadora foi a primeira a fabricar carros no Brasil – as operações duraram mais de 100 anos. A planta pioneira foi inaugurada em 1919, no centro de São Paulo, produzindo o famoso modelo Ford T.
A empresa esteve presente no boom de automóveis no Brasil nos anos 1950, favorecida pela política econômica do governo de Juscelino Kubitschek. No final dos anos 1970, a greve dos metalúrgicos do ABC contou com a participação dos funcionários da fábrica da Ford em São Bernardo. Nesse contexto, notabilizou-se o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, uma figura que marcaria a política do país nas próximas décadas.
As mudanças anunciadas pela Ford no Brasil no início de 2021 se inserem em um contexto maior da atuação global da empresa. O foco em linhas mais rentáveis e a preparação para a chegada do carro elétrico e autônomo motivaram alterações na sua estrutura em outros países nos últimos anos.
Essa estratégia exige corte de gastos e concentração de recursos em investimentos com maior rentabilidade. Em 2016, a montadora americana fechou suas fábricas na Austrália . Três anos depois, foi a vez da planta da Ford na França . Em 2019, cortes de empregos foram feitos na Rússia , nos EUA e no Reino Unido. No Brasil, a fábrica de São Bernardo foi fechada também em 2019.
Em 2021, o ano começa com o anúncio da reestruturação na América do Sul, afetando principalmente o Brasil.
Com o fim da linha de produção brasileira, o país deve importar carros da Ford do Uruguai e da Argentina. A empresa americana também fala em importação de “outros mercados”, sem especificar os países de origem. Um dos resultados dessa migração é que a empresa deixará de produzir e ofertar os modelos EcoSport e Ford Ka – apesar de manter os serviços de manutenção e assistência.
Em dezembro de 2020, o presidente da Ford na América do Sul, Lyle Watters, anunciou um programa de investimentos de US$ 580 milhões na Argentina, onde a produção é centrada em picapes. Além da expansão da produção, os recursos serão usados para modernizar a planta localizada na Grande Buenos Aires.
A fábrica na Argentina é considerada mais rentável, por ter uma operação menor e produzir veículos de uma linha com maior valor agregado. A preferência dada à produção argentina estaria também ligada à maior dolarização da economia do país, o que facilitaria o repasse de custos. Ou seja, com fornecedores e clientes aceitando fazer transações em dólar, a montadora fica menos dependente de movimentos do câmbio local. No Brasil, onde a economia não é dolarizada, as operações são mais dependentes da trajetória do câmbio.
A Ford não mencionou diretamente o governo brasileiro no anúncio do fechamento das fábricas. Portanto, não é possível afirmar que a decisão da empresa esteja diretamente ligada a alguma política ou medida do governo. Mas empresários e políticos se pronunciaram na segunda-feira (12).
AAnfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) afirmou em nota que o acontecimento “corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano sobre a ociosidade local, global e a falta de medidas que reduzam o custo Brasil”. Custo Brasil é uma expressão usada geralmente para se referir à soma de obstáculos que dificultam os negócios no país, como sistema tributário complexo e ineficiente , problemas de infraestrutura, alta burocracia e insegurança jurídica.
Os diagnósticos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e da Confederação Nacional da Indústria são similares aos da Anfavea. Em notas publicadas na segunda-feira (11), as duas organizações defenderam a aprovação das reformas estruturais – em especial a reforma tributária – como forma de melhorar o ambiente de negócios, reduzir o custo Brasil e evitar que outras empresas decidam encerrar suas atividades no país.
O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) – que articula uma candidatura para disputar a sua sucessão na Casa em fevereiro de 2021 –, disse no Twitter que “o fechamento da Ford é uma demonstração da falta de credibilidade do governo brasileiro, de regras claras, de segurança jurídica e de um sistema tributário racional”.
O governo, por sua vez, buscou se desassociar da decisão da Ford. Em nota, o Ministério da Economia disse que lamenta o acontecimento e afirmou que “decisão da montadora destoa da forte recuperação observada na maioria dos setores da indústria no país”. A pasta também disse que “trabalha intensamente na redução do Custo Brasil”, e reforçou a importância de avançar nas reformas estruturais – que, após a aprovação da nova Previdência em 2019, estão paradas .
Ao longo de seus mais de 100 anos no Brasil, a Ford recebeu diversos incentivos fiscais do governo federal e governos estaduais. A maior parte deles veio na forma de renúncias na cobrança de impostos, visando favorecer as operações da empresa no Brasil – e garantindo renda e emprego para milhares de pessoas.
Isso não é exclusividade da Ford: é uma marca da política geralmente adotada pelo poder público no Brasil com relação às montadoras. Essa prática foi muito presente nas presidências de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010) e Dilma Rousseff (2011 a 2016). Os governos petistas recebiam críticas pelo apoio visto por vezes como excessivo às empresas do setor.
Segundo o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, a Receita Federal estima que a Ford tenha recebido R$ 20 bilhões em incentivos fiscais desde 1999. Isso significa que cifras bilionárias de dinheiro público ajudaram a manter as operações da empresa no país ao longo dos anos – mas não impediram o fechamento das fábricas em 2021.
As montadoras que operam no Brasil também costumam contar com empréstimos do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Segundo levantamento do jornal O Globo, a Ford recebeu mais de R$ 3,5 bilhões em crédito do banco público entre 2002 e 2020. As linhas eram voltadas para projetos de desenvolvimento de novos veículos e ampliação das exportações.
A política de subsídios do governo federal tem passado por mudanças em anos recentes. Os incentivos fiscais, por mais que ainda existam , estão em baixa .
Bolsonaro assumiu em 2019 sob a promessa de reduzir a atuação do governo na economia, o que inclui a diminuição de subsídios para empresas privadas. Logo no primeiro mês de mandato, o secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa, reforçou a resistência do governo aos incentivos fiscais a montadoras. Em reunião com executivos da General Motors que pediam mais incentivos sob a ameaça de encerrar atividades, o secretário disse: “ se precisar fechar [a fábrica], fecha ”.
O próprio Bolsonaro repetiu essa linha de pensamento na terça-feira (12). Em frente ao Palácio do Planalto, o presidente disse que “faltou à Ford dizer a verdade: querem subsídios”. Bolsonaro também afirmou que “num ambiente de negócios, quando não tem lucro, você fecha. Assim é na vida em casa nossa. […] A Ford é mesma coisa, lamento os 5.000 empregos perdidos”.
Além dos subsídios em baixa, o momento ruim do mercado automotivo brasileiro e as adaptações das empresas a nível global ajudam a explicar a decisão da Ford de encerrar as atividades no país. E a montadora americana não é a única: a empresa alemã Mercedes-Benz também anunciou em dezembro de 2020 o fim das operações de produção no Brasil. A decisão afetou 370 trabalhadores de uma fábrica de Iracemápolis (SP), que estão com futuro indefinido no início de 2021 – a empresa diz que está “buscando alternativas” para os empregados.
ESTAVA ERRADO: Uma versão anterior deste texto trazia um valor incorreto ao dizer que oo presidente da Ford na América do Sul, Lyle Watters, anunciou um programa de investimentos na Argentina. São US$ 580 milhões em investimentos, e não US$ 580 bilhões. A informação foi corrigida às 21h02 de 30 de março de 2021.
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