O estágio da vacinação contra a covid-19 pelo mundo
Cesar Gaglioni
16 de janeiro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 22h55)Ao redor do mundo, cerca de 50 países já aplicaram mais de 38 milhões de doses. Imunizante da Pfizer/BioNTech é o mais utilizado
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A vacinação é o principal caminho para vencer a pandemia
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou neste domingo (17) o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19 no Brasil. A Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo de São Paulo, e o imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, aposta do governo federal por meio de parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).
A aprovação foi unânime entre os cinco diretores da agência . As áreas técnicas do órgão deram pareceres favoráveis aos níveis de segurança e eficácia dos imunizantes, e atestaram as boas práticas de fabricação e distribuição.
No sábado (16), a agência rejeitou o pedido de uso emergencial feito pela russa Sputnik V, por não cumprir requisitos básicos como a condução de testes no Brasil.
A liberação ocorre 46 dias após o primeiro governo do Ocidente autorizar o início da vacinação em seu território. Em 2 de dezembro de 2020, o Reino Unido liberou o uso emergencial da vacina desenvolvida pela Pfizer. De lá para cá, dezenas de países começaram suas campanhas de imunização em massa.
Até a manhã de 15 de janeiro de 2020, pouco mais de 38,4 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 tinham sido administradas ao redor do mundo, segundo dados compilados pelo site Our World in Data. Os imunizantes contra a covid-19 em uso atualmente exigem duas doses para garantir a proteção.
Em números absolutos, os Estados Unidos são os que mais vacinaram, com 11,1 milhões de doses, o equivalente a 3,03% de sua população.Aos americanos, se seguem a China (10 milhões de doses) e o Reino Unido (3,3 milhões de doses).
Em números relativos, Israel se destaca – o país é apontado como bom exemplo para o restante do mundo. Em pouco menos de um mês, 24,9 doses haviam sido aplicadas a cada 100 israelenses e cerca de um quarto dos 9 milhões de habitantes já estavam imunizados. Emirados Árabes e Bahrein, também no Oriente Médio, são os outros dois países com maior proporção da população vacinada.
De forma geral, a vacinação começou por grupos que têm mais contato com o novo coronavírus ou são mais vulneráveis à doença, como profissionais de saúde e idosos.
Ao todo, 237 imunizantes contra a covid-19 estão sendo desenvolvidos e/ou fabricados ao redor do mundo, de acordo com dados divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na terça-feira (12).
Nove já passaram em testes de eficácia e segurança e foram aprovadas por órgãos sanitários, mas apenas cinco estão sendo de fato usadas na população.
Dos países que já começaram suas campanhas de vacinação, a maioria usa a vacina desenvolvida pela farmacêutica americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech, que apresentou 95% de eficácia geral e foi a primeira a concluir sua fase de testes. Em alguns, como EUA, Canadá e Alemanha, também é aplicado o imunizante desenvolvido pelo laboratório americano Moderna.
Os países restantes estão se dividindo entre a russa Sputnik V (91,4% de eficácia, mas os resultados dos testes ainda não foram disponibilizados à comunidade científica internacional), a britânica de Oxford com a AstraZeneca (70,4% de eficácia média) e a Coronavac (50,4% de eficácia geral).
A maior parte dos países do mundo ainda não havia começado a vacinação até sábado (16).Há locais em que o processo não começou por uma demora na aprovação dos imunizantes e na compra de doses e insumos. É o caso do Brasil, onde houve lentidão nas negociações com farmacêuticas e falta de organização na compra de insumos.
O Brasil também passou por oportunidades perdidas. A Pfizer tentou vender doses de sua vacina para o governo, mas não obteve resposta do Ministério da Saúde.
Há ainda países que não vão começar a vacinação por enquanto, com o intuito de observar como a imunização se desenrola no resto do mundo.É o caso da Nova Zelândia , que, por ter controlado a pandemia, não tem pressa em começar a distribuir doses para sua população. Lá, a previsão é de que a imunização só comece em algum momento do segundo trimestre de 2021.
Mesmo com doses compradas e uma campanha de vacinação planejada, imunizar uma população contra a covid-19 não é tarefa simples.Há dois desafios principais no processo: logísticos e comportamentais.
Os logísticos envolvem garantir a compra, entrega ou fabricação das doses, ter seringas e agulhas suficientes para a aplicação dos imunizantes sem afetar outras campanhas de imunização, armazenar corretamente as substâncias e preparar locais que servirão como pontos de vacinação.
A quantidade limitada de doses disponíveis é o principal desafio logístico neste início de imunização. Por isso, o Reino Unido decidiu adiar a aplicação da segunda dose da vacina, com o objetivo de garantir que o maior número de pessoas receba a primeira. Dinamarca, Alemanha e o Brasil estudam a possibilidade de fazer o mesmo.
O armazenamento das doses também é um obstáculo. Isso porque algumas das vacinas – caso do imunizante Pfizer/BioNTech – precisam ser armazenadas a temperaturas baixíssimas, e parte dos países não dispõe de uma rede de ultracongeladores grande o suficiente, que é o caso do Brasil . No país, há apenas 680 freezers científicos que são capazes de chegar às temperaturas necessárias.
Os desafios comportamentais estão relacionados a convencer a população a se vacinar. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro insiste em apostar em remédios sem eficácia e a desestimular a vacinação.O consenso na ciência é de que a imunizaçao só é efetiva se a maior parte da população se vacinar.
“A vacina não é uma ferramenta individual: eu me vacino, eu me protejo. É uma responsabilidade coletiva ”, disse ao Nexo , em outubro de 2020, Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).
Não existe vacina 100% eficaz: existe a chance de uma pessoa se vacinar e não ficar protegida contra o vírus. Se uma vacina tem 95% de eficácia, significa que 5% da população não obtém a imunidade contra a doença.
Ainda assim, mesmo os desprotegidos estão seguros, por não encontrar quem passe a doença para eles. A circulação do vírus se interrompe e, por isso, uma ampla cobertura gera imunidade coletiva. Por isso a importância de grande parte do público-alvo ser imunizado.
Pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha em dezembro de 2020 mostrou que, no último trimestre do ano, caiu de 89% para 73% a porcentagem de brasileiros que estão dispostos a se vacinar contra a covid-19, ao mesmo tempo que subiu de 9% para 22% aqueles que declararam que não receberão o imunizante.
Para aumentar a confiança da população na vacina e obter mais imunizações, líderes e órgãos estatais precisam apostar em campanhas publicitárias para conscientizar os cidadãos.
Na Indonésia, onde apenas 37% da população declarou ter interesse em se vacinar, o governo apostou em imunizar grandes influenciadores digitais como uma tentativa de convencer os indonésios – especialmente os mais jovens – a receberem a vacina.
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