O emprego no Brasil durante a pandemia em 3 pontos
Marcelo Roubicek
28 de janeiro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 22h57)Taxa de desemprego cai e vai a 14,1%, ainda em patamares altos. O ‘Nexo’ mostra a trajetória do mercado de trabalho desde o início da emergência sanitária
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Ambulante vende balas e doces no semáforo em São Paulo
A taxa de desemprego no Brasil ficou em 14,1% no período entre setembro e novembro de 2020. É o que divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quinta-feira (28).
A taxa referente ao período de setembro a novembro de 2020 foi divulgada como parte da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), publicada todos os meses. A pesquisa entrevista sempre em torno de 211 mil domicílios de todo o território nacional, levando em conta localização e classe social, e coleta informações sobre trabalho e renda, entre outros itens.
O risco de contágio pelo novo coronavírus levou o IBGE a fazer mudanças em suas atividades e calendário . A coleta de dados , antes feita em visitas a casas selecionadas, passou a ser feita por telefone a partir da segunda metade de março de 2020.
Em relação aos três meses anteriores, houve queda na taxa de desemprego entre setembro e novembro. Entre junho e agosto, o indicador estava em 14,4% – primeira vez na série histórica do IBGE, iniciada em 2012, que ultrapassou 14%. A taxa de desemprego ficou acima desse patamar em todos os dados divulgados desde então pelo IBGE. Portanto, apesar da queda no trimestre encerrado em novembro, o número continua em patamares historicamente altos.
A taxa de desemprego não é o único dado importante para entender a crise do mercado de trabalho brasileiro na pandemia. Isso porque tecnicamente o IBGE só considera como desempregada aquela pessoa que está sem trabalho mas busca novas oportunidades. Portanto, o indicador deixa de fora as pessoas que perderam emprego mas decidiram se retirar do mercado.
Abaixo, o Nexo mostra outros números importantes que ilustram a trajetória do mercado de trabalho desde março de 2020.
A série do IBGE sobre emprego só ia até novembro de 2020 – até janeiro de 2021, não havia dados de dezembro e janeiro. Considerando que a pandemia começou em março de 2020, é possível separar os dados do emprego no período de crise sanitária em três trimestres: de março (quando a Organização Mundial da Saúde decretou estado de pandemia) a maio; de junho a agosto; e de setembro a novembro. O gráfico abaixo mostra o saldo de vagas fechadas e criadas em cada um desses períodos.
O gráfico mostra como o maior impacto da pandemia sobre o mercado de trabalho ocorreu no primeiro trimestre da crise sanitária. O período entre março e maio ficou marcado pelo maior rigor das medidas de isolamento social – sejam elas impostas pelas autoridades locais ou adotadas voluntariamente por pessoas com medo do contágio pelo coronavírus.
Mas mesmo a partir de junho, com maior flexibilização das medidas de restrição à circulação, o emprego continuou caindo . Eventuais aumentos no consumo não foram suficientes para recuperar muitas das empresas afetadas pela crise econômica. O ajuste de contas das firmas – que muitas vezes significou redução do quadro de funcionários – continuou ocorrendo.
Entre setembro e novembro, o mercado de trabalho reverteu a situação e começou a gerar empregos pela primeira vez desde o início da pandemia. Mas o número de vagas novas não foi suficiente para compensar as perdas dos seis meses anteriores.
8,13 milhões
foi o total de vagas de trabalho fechadas no Brasil nos primeiros nove meses de pandemia
Destrinchados, os saldos de emprego mostram como os mercados de trabalho formal e informal foram impactados de forma diferente em cada um dos três trimestres de pandemia. O gráfico abaixo mostra como os trabalhos formais e informais foram afetados entre março e novembro.
Os mais afetados pela pandemia num primeiro momento foram os trabalhadores informais – como vendedores ambulantes e entregadores e motoristas de aplicativos. Esse movimento expôs a maior vulnerabilidade dessa categoria, que vinha crescendo no Brasil desde a recessão de 2014 a 2016.
No período seguinte, entre junho e agosto, os mais afetados foram os trabalhadores formais – seguindo o movimento de continuidade de revisão de gastos das empresas. Entre setembro e novembro, a criação de novas vagas foi puxada pelo setor informal , refletindo a maior facilidade de reinserção nas atividades em que a contratação é mais barata e menos burocrática.
Apesar da retomada mais forte das vagas informais no terceiro trimestre da pandemia, o fechamento de postos informais desde o início da crise sanitária continuou superando o de postos formais. Das mais de 8 milhões de vagas perdidas nos nove primeiros meses de pandemia, 4,6 milhões (56,5%) eram informais.
A taxa de informalidade antes da crise era de cerca de 40%. Portanto, os trabalhadores informais arcaram com a maior parte das demissões, mesmo tendo menor participação no mercado de trabalho antes da pandemia.
Por causa da pandemia, muitas pessoas saíram do mercado de trabalho – optaram por não procurar oportunidades, por medo de contágio pelo vírus ou por falta de vagas na cidade onde moram.
O auxílio emergencial , programa articulado pelo Congresso Nacional, foi um fator importante para permitir que isso acontecesse. Ao garantir uma renda mínima à população mais vulnerável, o benefício manteve algum potencial de consumo desses brasileiros. Sem o auxílio, muitas pessoas não teriam recursos para a subsistência e não teriam outra opção além de procurar trabalho e, consequentemente, se expor ao vírus.
Na pandemia, o maior momento de retirada da força de trabalho – que soma quem está trabalhando e quem está procurando emprego – ocorreu entre março e maio, quando 7,4 milhões de pessoas deixaram a força de trabalho. Isso indica, no saldo das operações, que quase todas as pessoas que perderam trabalho (7,7 milhões) decidiram não voltar a procurar emprego imediatamente. Isso explica por que a taxa de desemprego não disparou mesmo no momento mais grave da crise econômica.
O movimento de desidratação da força de trabalho continuou entre junho e agosto, quando o processo de reabertura econômica começou. Mas a retirada do mercado de trabalho nesse período ocorreu em um ritmo mais lento que nos três meses anteriores.
A partir de setembro, dois fatores colaboraram para a volta do crescimento da força de trabalho. Primeiro, a pandemia deu sinais de arrefecimento – os números de mortes e novas infecções pelo coronavírus começaram a cair. Além disso, o auxílio emergencial teve seu valor reduzido de R$ 600 para R$ 300, o que apertou o orçamento de famílias de baixa renda e significou, em alguns casos, a necessidade de retorno ao mercado de trabalho.
Os fatores citados como importantes para determinar a dinâmica do mercado de trabalho – estado da pandemia, medidas de isolamento e auxílio emergencial – passaram por mudanças na virada de 2020 para 2021.
Os números de mortes e contágios pelo coronavírus aumentaram significativamente a partir de novembro. Em janeiro, a média móvel de mortes no Brasil voltou a ser superior a mil por dia pela primeira vez desde agosto . Em muitos lugares do Brasil, isso significa endurecimento das medidas de restrição da circulação. Além disso, o avanço da pandemia pode levar mais pessoas a terem receio de sair de casa para buscar emprego – podem, assim, decidir permanecer fora da força de trabalho.
Mas nem todos terão essa opção. O fim do auxílio emergencial em 31 de dezembro significou, para milhões de brasileiros, uma redução total de renda em meio à crise. Mais pessoas devem voltar ao mercado de trabalho por conta da necessidade imposta pelo encerramento do programa.
Não se sabe exatamente o ritmo pelo qual o mercado de trabalho será capaz de absorver pessoas que buscam oportunidades. Economistas apontam que a criação de novas vagas dependerá do ritmo de recuperação da economia, mas não há consenso sobre a velocidade em que isso ocorrerá.
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