Expresso

Vacinação um mês depois: escassez, fura-filas e doses de vento

Estêvão Bertoni

16 de fevereiro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 22h58)

País imuniza menos de 3% da população. Rio suspende campanha por falta de imunizantes enquanto governadores cobram cronograma. Polícia investiga fraudes em aplicações

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FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 2.FEV.2021

Imagem mostra fila de idosos em frente a hospital; eles usam máscara e o mais alto deles, grisalho e usando óculos escuros, parece olhar para a câmera

Idosos fazem fila para receber vacina contra a covid-19, em hospital de Brasília

Um mês depois de ter iniciado a vacinação contra a covid-19, o Brasil enfrenta dificuldades para fazer os imunizantes chegarem aos grupos prioritários. Algumas regiões interromperam a campanha por falta de doses. O cenário de escassez acontece em meio ao recrudescimento da doença no país e ao aparecimento de uma variante do vírus que pode ser ainda mais transmissível, o que torna o processo de imunização em massa ainda mais necessário para frear a pandemia.

O Ministério da Saúde tem sido cobrado a apresentar opções para agilizar a vacinação da população, como a disponibilização da russa Sputnik V, e um cronograma de entrega dos imunizantes aos estados.

Nos 30 dias da vacinação, iniciada em 17 de janeiro, menos da metade (45,5%) das doses distribuídas havia sido aplicada. O país — que já vacinou em três meses 100 milhões de pessoas contra o H1N1, em 2010 — imunizou apenas 5,3 milhões de pessoas até a terça-feira (16), mesmo passando pela maior crise sanitária de sua história.

O número equivale a apenas 2,5% da população. Estima-se que quase a totalidade das pessoas aptas a serem vacinadas precisem ser imunizadas para que o vírus pare de circular. Pelo ritmo atual, a meta só seria alcançada em 2024. O Brasil está atrás de vizinhos como o Chile, que já conseguiu vacinar quase 11% de sua população.

A imunização pelo mundo

Gráfico mostra porcentagem da população vacinada em cada país

A piora da pandemia

O quadro no Brasil voltou a se agravar no início de 2021, como resultado das aglomerações durante as festas de fim de ano. No domingo (14), o país registrou a maior média móvel de mortes desde que o vírus começou a circular. Foram 1.105 mortes por dia, calculadas com base nos sete dias anteriores.

Três dias antes, o Brasil havia registrado 1.452 mortes por covid-19 em apenas 24 horas. Foi a maior marca de 2021 e a terceira desde o início da pandemia, em março de 2020. O número só não foi maior do que os observados em 4 de junho (1.470) e 29 de julho (1.554). Perto de registrar 10 milhões de casos de infecção, o país ultrapassou a marca de 240 mil mortos pela doença na terça-feira (16).

O agravamento da pandemia pressiona os sistemas de saúde. Um terço dos estados estão com as UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) lotadas, segundo um levantamento divulgado pelo jornal O Globo na sexta-feira (12). Governadores cobram do governo federal recursos para manter as vagas de UTI, e ao menos dois estados (São Paulo e Maranhão) recorreram ao Supremo Tribunal Federal para que os repasses sejam feitos. O ministério reduziu pela metade o número de leitos habilitados desde o final de 2020 por falta de planejamento orçamentário.

A identificação de uma nova variante do vírus, descoberta em Manaus, também tem causado preocupação. Ela foi observada quando a cidade passava por uma segunda onda de covid-19, que sobrecarregou os hospitais locais. Pacientes morreram devido à falta de oxigênio.

Na segunda-feira (15), o estado de São Paulo confirmou 25 casos da nova variante, dos quais 16 estavam em Araraquara . A cidade do interior paulista decidiu decretar lockdown para tentar isolar a cepa. As transmissões ocorreram entre pessoas que não viajaram a Manaus nem tiveram contato com quem esteve no Amazonas, o que indica que o vírus já está circulando na região.

O fim dos estoques de vacinas

Enquanto países como o Canadá garantiram a compra de seis doses de vacinas contra a covid-19 para cada habitante, em contratos fechados com sete laboratórios diferentes antes mesmo que as vacinas ficassem prontas, o Brasil apostou apenas em duas — sendo que uma delas foi fruto de uma iniciativa própria do governo de São Paulo.

Por isso, o país ficou dependente dos imunizantes da universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca e da Coronavac. Ambas precisam de insumos importados da China para serem envasadas no Brasil, e a liberação das importações travou em janeiro. Com as dificuldades, o país não tem conseguido fornecer as doses necessárias para os grupos prioritários, formado por profissionais de saúde, idosos, indígenas e quilombolas, a depender dos critérios locais.

Na segunda-feira (15), o prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), anunciou que a campanha na cidade será suspensa na quarta-feira (17) por falta de vacinas. “Recebi a notícia de que não chegaram novas doses. Teremos que interromper amanhã [terça foi o último dia da vacinação] a nossa campanha. Hoje vacinamos pessoas de 84 anos e amanhã de 83. Estamos prontos e já vacinamos 244.852. Só precisamos que a vacina chegue. Nova leva deve chegar do Butantan na próxima semana”, publicou em suas redes sociais. A falta de vacinas no Rio não prejudica quem precisa da segunda dose, pois elas foram reservadas.

Para acelerar a vacinação, os governadores marcaram uma reunião com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na quarta-feira (17). Eles querem que o governo federal detalhe o cronograma da entrega de vacinas até abril, prazo previsto originalmente para a conclusão da primeira fase do plano operacional de vacinação contra a covid-19.

“Neste ritmo, o plano do governo de vacinar até junho 50% da população não vai se concretizar. Seguindo nesta lentidão, o Brasil deve chegar a cerca de 20% da população vacinada”, afirmou o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), ao jornal Folha de S.Paulo, no domingo (14).

Os governadores também devem cobrar a compra e a autorização para o uso de novas vacinas, como a russa Sputnik V, além da manutenção da medida provisória que encurta o prazo de aprovação de um imunizante pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)para apenas cinco dias. Bolsonaro pode vetar o trecho.

As irregularidades na vacinação

Além da lentidão, a campanha tem sido marcada pela desorganização e por indícios de irregularidades. Nas redes sociais, vídeos denunciam profissionais de saúde que fingem aplicar a vacina com seringas vazias.

No Rio de Janeiro, a Polícia Civil e o Ministério Público do estado investigam a atuação de técnicos de enfermagem em ao menos três cidades. Eles foram flagrados simulando a aplicação de imunizantes em idosos. Uma das suspeitas alegou que não aplicou a vacina por cansaço. Especialistas têm aconselhado que as pessoas verifiquem se a vacina estava cheia antes e se foi esvaziada na aplicação.

As denúncias das “vacinas de vento”, como ficaram conhecidas, se somam às acusações de que grupos não incluídos entre os prioritários furaram a fila em vários estados. No Amazonas, a Justiça chegou a suspender a vacinação para apurar as irregularidades.

Os casos fizeram a Câmara dos Deputados aprovar um projeto de lei na quinta-feira (11) que torna crime “infringir a ordem de prioridade de vacinação ou afrontar, por qualquer meio, a operacionalização de plano federal, estadual, distrital ou municipal de imunização”.

O texto aprovado, que ainda precisa passar pelo Senado, prevê pena de um a três anos de reclusão e multa para quem furar a fila. A pena pode ser aumentada em um terço se a pessoa falsificar documentos e fizer uso deles para se beneficiar ou ajudar outras pessoas.

O ministro sob investigação

Devido à crise na saúde que vem se agravando desde o início do ano, Pazuello passou a ser investigado por sua conduta diante do caos na área enfrentado pelo Amazonas. O general esteve no estado dias antes de pacientes morrerem por falta de oxigênio. A investigação foi pedida pela Procuradoria Geral da República e autorizada pelo Supremo Tribunal Federal com o objetivo de apurar uma possível omissão da União no caso.

Ao visitar Manaus, o ministro lançou um aplicativo de uso restrito de profissionais de saúde que indicava a prescrição de cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina para casos de covid-19. No combate à pandemia, o governo federal insistiu num tratamento precoce que não existe. O kit divulgado contém remédios que não fazem efeito para a doença.

Na segunda-feira (15), o ministro do Supremo Ricardo Lewandowski pediu um levantamento sobre os gastos federais com compra e distribuição de cloroquina . Elas foram produzidas por ordem de Bolsonaro pelo laboratório do Exército e até pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Lewandowski também autorizou que os investigadores tenham acesso aos e-mails institucionais trocados pelo Ministério da Saúde com as Secretarias de Saúde do Amazonas e de Manaus sobre a situação da pandemia no estado.

Depois das investigações, Pazuello mudou o discurso dizendo que nunca havia recomendado o uso de remédios, embora haja uma série de registros em vídeo em que o general aparece ao lado de Bolsonaro fazendo propaganda da cloroquina.

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