Expresso

Mais um recorde de mortes. Mais jovens hospitalizados

Camilo Rocha

02 de março de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h00)

Brasil registra maior número de óbitos em um único dia desde o início da pandemia. Hospitais estão lotados, agora com um perfil diferente de pacientes

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FOTO: AMANDA PETROBELLI/REUTERS

Três homens usando traje de proteção branco depositam caixão de madeira em cova. Em volta, há outras covas abertas

Homem vítima de covid-19 é enterrado no Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo

O Brasil bateu um novo recorde de mortes por covid-19 na terça-feira (2). Foram 1.726 óbitos em todo o país registrados num período de 24 horas, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa.

É o número mais alto registrado desde que a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou estado de pandemia, em 11 de março de 2020. O Ministério da Saúde registrou 1.641 óbitos, também o maior número de sua série.

Na média móvel, que leva em conta os sete dias anteriores, o saldo diário também bateu recorde , com 1.274, segundo o consórcio de imprensa. Já são 41 dias de média móvel de mortes acima de 1.000.

Os números alarmantes confirmam expectativas de piora no quadro nacional da covid-19 por parte de autoridades e especialistas, incluindo o colapso de sistemas de saúde por todo o país, com UTIs sem leitos para receber novos pacientes que morrem à espera de atendimento .

Enquanto médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde lutam pela sobrevivência dos pacientes cada vez mais numerosos, o governo federal patina na vacinação. Há pouco mais de 3% da população imunizada .

O presidente Jair Bolsonaro, por sua vez, mantém a sabotagem às medidas de isolamento social e seu discurso anticientífico, que prioriza remédios ineficazes contra a doença que já matou mais de 255 mil brasileiros.

Governadores e prefeitos têm apertado as medidas de restrição de circulação de pessoas, com fechamento de todos os comércios não essenciais e toques de recolher durante a noite. Secretários estaduais de Saúde cobram uma ação coordenada federal , o que ainda não ocorreu.

A pressão nos hospitais e o perfil dos internados

O estado de São Paulo, maior do país, registrou um recorde de internações por covid-19 na terça-feira (2), com 16.359 pessoas hospitalizadas com suspeita ou confirmação da doença. Desse total, 9.332 estão em enfermarias e 7.027 estão em UTIs.

De acordo com a Secretaria de Saúde do estado, esse aumento vem se dando por causa de pacientes mais jovens. Segundo a pasta, cerca de 60% dos leitos das UTIs do estado se encontram preenchidos por pessoas entre 30 e 50 anos nessa condição.

Embora não existam ainda dados concretos sobre o que está por trás dessa tendência, especialistas e autoridades compartilham as mesmas hipóteses, entre elas a maior circulação pela rua e participação em eventos com aglomeração dessa faixa etária e o começo de uma imunização entre idosos devido às vacinas.

FOTO: IVAN ALVARADO/REUTERS-18.6.20

Mulher totalmente paramentada com EPIs debruçada sobre pessoa idosa com respirador em um leito de UTI

Familiar se despede de paciente com covid-19 na UTI do hospital universitário da Universidade do Chile, localizado em Santiago

O novo perfil do internado em estado grave por covid-19 se repete em outros estados, como Santa Catarina, Pernambuco e Maranhão. No estado do sul, dados da Dive/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina) indicam que 43% dos casos ativos da Covid-19 no estado são em indivíduos com idade entre 20 e 39 anos.

É uma inversão do que acontecia na primeira onda da covid-19, que se instalou no país em março de 2020. “Antes eram idosos e portadores de doenças crônicas, o que chamamos de comorbidade”, declarou à imprensa o secretário de Saúde do estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, em entrevista coletiva.

Além disso, como boa parte chega ao hospital com a doença mais desenvolvida, acabam ficando mais tempo internados. De acordo com Gorinchteyn, enquanto a média anterior era de 7 a 10 dias de internação na UTI, agora ela saltou para um período entre 14 a 17 dias.

Ao Nexo Marcelo Osuka, coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia, disse que as pessoas mais jovens tendem a circular e se expor mais. Entre o final de 2020 e o Carnaval, houve inúmeros registros de aglomerações em praias, bares, eventos esportivos e festas clandestinas, frequentados principalmente por pessoas mais novas.

“São pessoas que se sentem à vontade para sair, pensam que só vão perder paladar e olfato, mas perdem vida e vida das pessoas em torno”, assinalou o secretário de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn .

No fim de semana entre 26 e 28 de fevereiro, uma ação conjunta do Procon, Vigilância Sanitária e Polícia Militar multou 286 estabelecimentos na capital do estado por infrações que incluem funcionar fora do horário autorizado e ter clientes e funcionários sem máscaras. “Fiscais ficaram assustados de ver o número de estabelecimentos abertos e de pessoas (agindo) como se houvesse amanhã”, declarou Cristina Megid, chefe da Vigilância Sanitária, ao UOL .

De acordo com o secretário Gorinchteyn, muitas das pessoas mais jovens são hospitalizadas já em estado grave. “A doença faz oxigenação baixa sem que o indivíduo sinta, ele consegue andar. Quando chega na unidade, se vê o quanto a saturação está baixa”, frisou.

Segundo levantamento do jornal Folha de S. Paulo , 24,9% das mortes por covid-19 no estado de São Paulo em janeiro de 2021 foram de pessoas até 60 anos.

O papel da nova variante do coronavírus

Uma das possibilidades levantadas para explicar o aumento da infecção entre pessoas mais jovens é a chegada da chamada variante de Manaus, cepa da Sars-Cov-2 conhecida como P.1. A nova cepa já chegou em pelo menos seis estados do país e também viajou para fora do país, sendo detectada no Reino Unido.

Para o infectologista Osuka, existe a hipótese da variante ter uma carga viral maior, capaz de provocar mais sintomas nas parcelas mais jovens da população, enquanto a variante anterior causava impacto apenas nos mais idosos.

FOTO: DIVULGAÇÃO/PREFEITURA DE ARARAQUARA

Imagem mostra cruzamento de ruas no centro de Araraquara; local está deserto, e todas as portas das lojas estão fechadas

Rua de Araraquara vazia devido ao fechamento do comércio , durante a primeira onda de covid-19, em 2020

Em Araraquara, por exemplo, cidade do interior paulista que se encontra sob lockdown pesado, com sistema de saúde colapsado , relacionou a chegada da variante ao aumento de infecções e complicações entre pessoas mais jovens.

A cepa de Manaus chegou na cidade entre o fim de janeiro e começo de fevereiro. O mês de fevereiro registrou então 89 mortes das 113 que ocorreram na cidade por covid-19 em 2021. Profissionais de saúde da cidade detectaram um aumento significativo de infecções e complicações da doença também em indivíduos mais jovens. Em 2020, apenas uma pessoa com menos de 40 anos havia morrido na cidade por covid-19. Em 2021, já são nove .

Uma pesquisa coordenada pela imunologista Ester Sabino, professora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, junto com o pesquisador Nuno Faria, da Universidade de Oxford, constatou que a nova variante pode infectar pessoas que já tiveram covid-19. Para o trabalho, foram analisadas as informações genômicas de 184 pacientes com covid-19 de um laboratório de Manaus.

‘A gente não sabe quem vai ter quadro grave ou não’

O estereótipo da covid-19 como doença de pessoas idosas, propagado inclusive por Bolsonaro, nunca encontrou respaldo na realidade. “A chance de um jovem ter um quadro grave é certamente muito menor”, pontuou Osuka, da Sociedade Brasileira de Infectologia. “Mas isso não significa que ele não possa ter um quadro grave. Acontece que a gente não sabe quem vai ter quadro grave ou não”.

FOTO: RICARDO MORAES/REUTERS – 16.FEV.2021

Imagem mostra homem em primeiro plano usando máscara; ao fundo, praia do Leblon, no Rio, está lotada de pessoas e guarda-sóis

Praia do Leblon, no Rio de Janeiro, durante o período do Carnaval, cancelado por causa da pandemia

Segundo o especialista, há muitos fatores que determinam quem tem mais chance de pegar ou desenvolver covid-19, e isso vale para qualquer idade. Jovens com comorbidades como diabetes e hipertensão também têm risco aumentado para a covid-19. Osuka lembrou ao Nexo que dos 14 milhões de diabéticos que existem no Brasil, cerca da metade não sabe que tem essa condição. “É uma população de risco que desconhece ter esse risco”, ressaltou. “O mesmo vale para os hipertensos que nunca mediram a pressão porque são jovens e acham que não tem nenhum problema”.

O infectologista lembra que existem outras incógnitas com relação à infecção por Sars-Cov-2, como quais indivíduos têm uma expressão maior dos receptores do vírus ou as características genéticas que influenciam na resposta imunológica de cada pessoa.

O especialista reforça, no entanto, que embora jovens tenham de fato menor chance de desenvolver um quadro grave da doença, eles têm contatos com pessoas mais velhas e a transmissão acontece mesmo que não se manifestem sintomas. “É preciso respeitar quem pode ter, pois podem ser pessoas que são queridas”, frisou. “É fundamental que todos comprem a ideia de que eu preciso me cuidar para proteger a sociedade e não só a mim mesmo, é o respeito ao próximo que tem de ser incisivo.”

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