A solidariedade internacional com a Índia no pico da pandemia
João Paulo Charleaux
27 de abril de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h06)Americanos e europeus respondem com prontidão aos pedidos de ajuda de Nova Déli, que vive explosão no número de casos da covid-19
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Os governos dos EUA e das potências europeias anunciaram nesta segunda-feira (26) o envio de um pacote de ajuda emergencial à Índia para mitigar os efeitos da pandemia, que vem batendo recordes no país asiático no mês de abril.
EUA, Reino Unido, França e Alemanha, entre outros países, estão enviando oxigênio de uso hospitalar, ventiladores para respiração assistida e toneladas de outros suprimentos de uso médico para aliviar a pressão sobre o sistema indiano, que entrou em colapso após o país bater recordes seguidos de infecção pelo vírus.
Os britânicos mandaram cem ventiladores por via aérea. A França despachou oito unidades produtoras de oxigênio hospitalar capazes de abastecer um hospital com 2 mil leitos. A Alemanha mandará um navio com suprimentos adicionais. Os EUA falam em liberar seu excedente de vacinas e de insumos para a fabricação de vacinas.
“Os EUA estão determinados a retribuir a ajuda que a Índia nos deu no início da pandemia, quando nossos hospitais estavam lotados”
“A União Europeia está mobilizando recursos para responder rapidamente aos pedidos indianos de socorro”
Na quarta-feira (21), foram 295.041 novos casos e 2.023 mortes na Índia. No dia seguinte, quinta-feira (22), foram 314.835 novos casos diagnosticados, com 2.104 mortes em 24 horas. O aumento fez o primeiro-ministro, Narendra Modi, telefonar para líderes mundiais, incluindo o presidente dos EUA, Joe Biden, a quem pediu socorro nesta segunda-feira (26).
De acordo com a imprensa indiana, a ofensiva diplomática também incluiu contatos feitos pessoalmente por membros de embaixadas e de consulados da Índia nas principais capitais do mundo, para reforçar o pedido de ajuda emergencial.
A resposta dada pelos países mais ricos do mundo para ajudar a Índia neste momento contrasta com a resposta que foi dada por esses mesmos países quando o Brasil estava em situação semelhante , 18 dias atrás.
A principal diferença está na decisão americana de liberar para outros países até 60 milhões de lotes da vacina de Oxford/AstraZeneca que foram encomendados pela Casa Branca.
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Essas entregas foram encomendadas pelos EUA, mas ainda não foram recebidas da fábrica em sua totalidade. Além disso, a vacina de Oxford/AstraZeneca ainda não tem aprovação das autoridades sanitárias americanas para ser aplicada na população local.
Apesar disso, o governo Biden fazia questão de manter, até agora, seus contratos e seus estoques, liberando apenas uma pequena quantidade para seus dois únicos vizinhos de fronteira: México, ao sul, e Canadá, ao norte.
O Brasil revelou no dia 20 de março que havia enviado uma carta ao governo americano uma semana antes, pedindo para receber parte dessas vacinas estocadas pelos EUA. Em resposta, o governo americano publicou um comunicado no dia 23 de março frustrando a expectativa brasileira . A Casa Branca disse na ocasião que enviaria o excedente ao consórcio Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e não para um país específico.
“Os EUA estão cientes dos pedidos de outros países sobre as doses de vacinas do governo dos EUA, e quando determinarmos que podemos compartilhar mais vacinas, trabalharemos em estreita colaboração com a Covax e outros parceiros internacionais”
O comunicado do Departamento de Estado americano dava a entender que os EUA ainda não estavam decididos a compartilhar essas doses excedentes, mesmo diante do colapso do sistema de saúde no Brasil e mesmo apesar dos pedidos feitos pelo governo do presidente Jair Bolsonaro.
Nesta segunda-feira (26), após ter falado com o premiê indiano por telefone, Biden anunciou a decisão de compartilhar 60 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca com outros países, tão logo o produto seja aprovado pelas autoridades sanitárias locais.
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Não está claro se a distribuição desse excedente será feita diretamente para alguns países – como ocorreu com México e Canadá – ou se essas doses serão direcionadas ao consórcio Covax Facility para uma redistribuição intermediada pela OMS, como havia sido dito ao Brasil. O jornal britânico The Guardian diz que as vacinas excedentes americanas irão inicialmente para a Índia . A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse que 10 milhões de doses podem ser liberadas “ nas próximas semanas ”, sem especificar o destino.
Índia e Brasil têm respectivamente a segunda e a sexta maiores populações do mundo. Até terça-feira (27), a Índia era o segundo país com maior número de contaminados pela covid-19 – com um total de 17,6 milhões , atrás apenas dos EUA, com 32,1 milhões. O Brasil era o terceiro, com 14,3 milhões .
Apesar das condições semelhantes, a resposta recebida pelos governos do Brasil e da Índia foram muito diferentes.
“O Brasil foi o epicentro da pandemia por meses, mas Bolsonaro não conseguiu convencer o governo Biden a enviar matérias-primas para a produção de vacinas. Agora que um surto de covid abalou também a Índia, Biden reagiu rapidamente, permitindo o envio do material aos indianos”, disse o professor de relações internacionais da FGV de São Paulo, Oliver Stuenkel.
A explicação para essa diferença, segundo ele, tem quatro pontos:
O fato de a Índia ter obtido melhor resposta dos EUA do que o Brasil conseguiu ao pedir ajuda não significa que não exista cooperação entre Washington e Brasília na pandemia. A Embaixada dos EUA na capital brasileira diz que empresas e governo deram o equivalente a R$ 418 milhões em ajuda ao Brasil desde o início da pandemia, em 2020.
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