Por que o PIB cresceu mesmo com a piora da pandemia
Marcelo Roubicek
01 de junho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h10)Resultado positivo de 1,2% no primeiro trimestre de 2021 supera expectativas. Economistas explicam a característica desse crescimento e analisam o otimismo do governo
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Caminhão é carregado com soja em fazenda em Porto Nacional, no Tocantins
O PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021 em relação ao último trimestre de 2020, segundo dados divulgados na terça-feira (1°) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número superou as expectativas dos agentes de mercado, que projetavam uma alta abaixo de 1%.
O PIB é o resultado da soma de todos os bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. O resultado mostra, portanto, que o Brasil produziu mais nos três primeiros meses de 2021 que nos três últimos de 2020— apesar de uma piora considerável da pandemia do novo coronavírus.
Abaixo, o Nexo mostra o cenário econômico e sanitário do começo de 2021, e conversa com economistas para entender o resultado do PIB.
Em 2020, a pandemia levou a uma paralisação parcial da economia, que foi mais forte nos primeiros meses de crise sanitária, quando o tombo da atividade econômica foi histórico . Mesmo com o início da recuperação no segundo semestre, o PIB fechou o ano com uma queda de 4,1% , terceiro pior resultado anual desde 1901.
O crescimento do primeiro trimestre de 2021 recolocou a economia brasileira no patamar do final de 2019, anterior à pandemia. É o que mostra o gráfico abaixo.
O crescimento do início de 2021 foi caracterizado pela forte expansão do setor agropecuário e pela alta da indústria, sobretudo nas atividades extrativa e de construção civil. O setor de serviços teve crescimento modesto em relação aos outros dois, e segue abaixo do patamar pré-pandemia.
Os primeiros meses do ano também foram marcados pelo encerramento de programas sociais como o auxílio emergencial (que foi retomado em abril) e pelo recorde de desemprego registrado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), produzida pelo IBGE.
Além disso, o país viveu uma piora significativa da pandemia no começo de 2021, com registro de colapso no sistema de saúde de diversos estados. O número de mortos pela covid-19, que já vinha subindo desde novembro de 2020 , cresceu consideravelmente.
Segundo dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde), 50.997 pessoas morreram pela covid-19 entre outubro e dezembro de 2020. Nos três meses seguintes, as mortes pela doença foram 126.566— um salto de 148%. Isso não impediu o crescimento de 1,2% do PIB na comparação entre os dois períodos.
O Nexo conversou com economistas para entender por que a atividade econômica cresceu— e acima do esperado — mesmo em meio à piora da crise sanitária.
Mayara Santiago O que estamos vendo é que apesar da piora na questão sanitária, a atividade não foi tão afetada. Isso se deve ao fato de que o aperto de medidas restritivas não foi tão forte neste início de ano. Em 2020, muitas empresas e estabelecimentos fecharam completamente as portas.
Neste início de 2021, vimos uma coisa um pouco diferente: houve medidas restritivas, mas quando comparamos com o início da crise em 2020, foi completamente diferente. Então não teve um efeito tão grande em termos econômicos— apesar de que houve piora na situação sanitária e no número de mortes.
Guilherme Mello A base de comparação [final de 2020] é bastante baixa. Além disso, mesmo com a segunda onda da pandemia, a decisão— tanto dos governos como da própria população — foi não restringir tanto a circulação. Isso gerou, por um lado, o pior momento da pandemia, com hospitais lotados e muita gente morrendo. Mas por outro lado, isso teve um impacto de curto prazo de estabilização do nível de atividade.
Há outros fatores para além da base rebaixada e da restrição não ter sido tão aguda quanto em 2020. Uma questão que me parece mais permanente é o boom das commodities — há um aumento expressivo no preço e na demanda por commodities, porque há uma recuperação mais rápida das economias centrais, como China, EUA e Europa. Combinamos isso com uma safra muito boa — especialmente da soja; o preço aumentou e estamos produzindo mais commodities. Isso explica em parte a recuperação: há um crescimento mais forte das exportações (apesar das importações terem crescido bastante) e isso se reflete, por exemplo, no crescimento mais forte da indústria, muito puxado pela indústria extrativista. E essa indústria extrativista mais forte também faz investimentos. Não vejo uma reversão no preço e na demanda por commodities pelo menos até o ano que vem [2022]. Esse setor vai nos ajudar no próximo ano, ano e meio.
Outro fator um pouco mais conjuntural é o [crescimento da] construção civil. Acho que é mais conjuntural porque o setor de construção civil depende um pouco mais de crédito barato. Como estamos com aumento da inflação e a taxa de juros está aumentando, esse setor pode acabar desacelerando ao longo do próximo ano. O boom imobiliário não estava relacionado a uma redução do deficit habitacional. É um boom imobiliário especulativo: a taxa de juros estava baixa e as pessoas investiram em imóveis. Se a taxa de juros subir bastante, esse boom arrefece.
Mayara Santiago As variáveis de mercado de trabalho— em especial o emprego — são as últimas a responderem [a momentos de retomada de crise]. O desemprego é sempre a última coisa a responder. Estamos tentando sair da situação de crise, estamos voltando a crescer.
Apresentamos um resultado acima do esperado [no primeiro trimestre de 2021], mas isso não significa que já estamos fora da zona de perigo. Ainda temos questões bastante complicadas— como o desemprego e a inflação. A questão do desemprego é uma em que ainda estamos deixando a desejar. Não vamos recuperar todas as vagas perdidas da noite para o dia.
Guilherme Mello Nos números do PIB, vemos que fatores que não estão atrelados à demanda das famílias estão puxando [a economia] para cima. Os que estão atrelados estão estagnados em nível muito baixo. Olhando para os dados do desemprego [divulgados em 27 de maio], percebemos que para as famílias, a situação é muito ruim. Talvez o atual momento do mercado de trabalho seja o pior momento da história do Brasil.
Apesar de o resultado [do PIB] ter vindo bom, quando olhamos para o consumo das famílias, houve uma pequena queda. Isso preocupa porque, no Brasil, o principal motor do crescimento econômico é o consumo das famílias. O motor principal ainda não voltou a funcionar. E, dados os indicadores do mercado de trabalho, não parece que voltará a funcionar tão cedo. Há muito desemprego, muita subutilização, muito desalento: esse cenário é complicado para o consumo das famílias.
Outro indicador em que isso aparece é o ritmo de recuperação dos serviços, que é mais lento que os outros setores [agropecuária e indústria]. Não só porque ele é mais afetado pelas medidas de isolamento, mas porque o nível de atividade no setor de serviços está muito vinculado à dinâmica da renda das famílias. Se a dinâmica da renda das famílias não se recupera, o setor de serviços tem mais dificuldade de recuperar. E o setor de serviços, do ponto de vista da oferta, é o maior setor. Você precisa que setor de serviços e a renda das famílias se recuperem. A ligação é enorme entre eles. Se a renda das famílias se recuperar, o consumo se recupera e o setor de serviços também.
Mayara Santiago Acho que nem para oito, nem para oitenta. No segundo trimestre, veremos [o efeito da] entrada do auxílio. Houve uma piora na pandemia [concentrada em abril], e o mercado de trabalho não está recuperado. Também no segundo trimestre, vamos ter um efeito base muito significativo, ou seja, o segundo trimestre vai ter uma taxa de crescimento interanual [comparando com o segundo trimestre de 2020] forte e positiva.
Não devemos olhar apenas um lado ou outro. O resultado é uma composição. A palavra de ordem é cautela. Apesar de a economia mostrar um resultado forte, positivo, acima do esperado [no primeiro trimestre], isso não pode ser um incentivo ao descuido com relação à situação sanitária.
Outro fator importante para o qual deveríamos atentar é à inflação— porque sabemos que a inflação, especialmente a de alimentos, atinge muito fortemente as famílias mais pobres, especialmente a inflação de alimentos, que sabemos que compõem boa parte dos gastos das famílias de renda mais baixa. E quando pensamos na aceleração da inflação unida ao fato de que o mercado de trabalho não está com o fôlego recuperado, é um fator muito preocupante. O panorama é complicado.
Guilherme Mello Depende de onde você está na escala da renda. Um trabalhador de classe baixa não tem por que estar otimista. O desemprego é muito alto. A renda não se recupera. A pobreza, a miséria e o risco de insegurança alimentar cresceram. Não há sinais de que essa recuperação da economia vá gerar o volume de atividade, de emprego e de renda que vai impactar a vida dessas pessoas.
E se você for um investidor financeiro que investe em commodities, um empresário do setor extrativista, ou estiver especulando com imóveis, está feliz. Mas essa parcela da população é pequena. Temos a chamada recuperação em K : o topo da pirâmide recupera e vai para cima; a base não recupera.
Salvo o caso de concretização de incertezas— terceira onda, falta de energia —, é possível que cheguemos ao final do ano com um número [de crescimento do PIB] que cause uma boa impressão. Para o nosso histórico recente, [crescer] 5% é maravilhoso. Mas não é um dado que realmente condiz com o ritmo de recuperação da renda das famílias. É um número que expressa em parte o carregamento estatístico do ano passado, e em parte o dinamismo de alguns setores que estão ligados ao mercado externo ou a ciclos especulativos, como no caso do mercado imobiliário. Não vejo com otimismo, mas não nego que pode ser que o número do crescimento seja bom.
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