Carne: por que nunca se comeu tão pouco e se exportou tanto
Marcelo Roubicek
18 de junho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h30)Consumo de proteína bovina está em queda, enquanto os preços e as vendas para fora estão em alta. O ‘Nexo’ explica o que está por trás desses movimentos
Mulher compra carne em açougue em Santo André, em SP
Os brasileiros nunca consumiram tão pouca carne bovina como em 2021. É o que mostram os dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), ligada ao Ministério da Agricultura.
Ao mesmo tempo, os produtores brasileiros de carne nunca venderam tanto para fora. Essa combinação de movimentos está ligada às altas de preço no Brasil e à dinâmica do mercado internacional de carnes, marcada em 2021 pela recuperação econômica das potências globais.
Abaixo, o Nexo mostra, com números e gráficos, como o brasileiro tem comido cada vez menos carne e como as exportações de proteína têm crescido. O texto também explica os motivos por trás desses fenômenos.
Os números da Conab mostram que, no Brasil, o consumo de carne bovina por habitante em 2021 está 4,3% mais baixo que em 2020 – ano em que, em meio à chegada da pandemia, o consumo já havia sido 9,8% menor que em 2019.
A queda nesse consumo é uma tendência desde meados da década de 2010. Em 2013 – ano anterior ao início da recessão que durou de 2014 a 2016 –, cada brasileiro consumia, em média, 38,3 kg de carne por ano. Em 2021, a estimativa produzida a partir dos dados dos primeiros meses do ano é de que esse número chegue a 26,4 kg por pessoa no ano.
31,1%
é a queda no consumo de carne bovina no Brasil de 2013 a 2021, segundo a Conab
A queda do consumo desde o início da pandemia está relacionada ao aumento do preço da carne bovina – que foi acompanhado pela diminuição da renda dos brasileiros.
De junho de 2020 a maio de 2021, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o principal índice de inflação do Brasil) cresceu 8,06%. As carnes, por sua vez, tiveram alta de 38%.
Entre as peças que mais subiram nesse período, estão músculo, costela e patinho. A carne de porco também teve alta significativa, de quase 32%. O gráfico abaixo mostra alguns dos cortes que tiveram grandes aumentos no Brasil em 2020 e 2021.
Entre os motivos por trás da alta de preço das carnes, está a menor disponibilidade de bezerros, que diminuiu a oferta para o abate. Além disso, o custo de produção aumentou em função da estiagem e do aumento do preço de grãos que servem de base para a ração do gado. O milho e a soja estão em alta no mercado internacional, acompanhando o boom de commodities .
Além disso, o dólar alto também ajuda a encarecer a carne, já que aumenta o custo de insumos importados que fazem parte da cadeia produtiva.
A alta de exportações de carne em 2021 também ajuda a aumentar o preço. Com mais proteína indo para fora, a disponibilidade interna de carne diminui – esse desequilíbrio entre oferta e demanda leva a um aumento ainda maior do preço.
Em 2021, o Brasil exportou a maior quantidade de carne para o período entre janeiro e maio. Foi a primeira vez na história que o país vendeu mais de 3 milhões de toneladas de proteína para fora – o valor conjunto das exportações foi recorde para o período, chegando a US$ 7,3 bilhões (R$ 36,5 bilhões, pela cotação de 18 de junho de 2021).
O principal destino da carne brasileira no exterior é a China. De janeiro a maio de 2021, 26,5% de todo o volume de proteína exportado por produtores brasileiros foi para o país asiático.
Em termos de valor exportado, a China pagou ao todo US$ 2,63 bilhões por produtos de proteína do Brasil nos primeiros cinco meses do ano. Isso representa 36% de todas as vendas de carne brasileira para fora.
A demanda chinesa pela carne brasileira é movida pela recuperação rápida da economia do país asiático. A China foi a única entre as potências globais a registrar crescimento em 2020, e a atividade mantém o ritmo acelerado em 2021.
Por fim, ainda há efeitos da crise da febre suína africana que reduziu consideravelmente o tamanho dos rebanhos da China em 2019 – a doença não apresenta riscos para humanos. Com a redução dos rebanhos chineses, as alternativas foram importar carne suína e buscar também proteínas de outra origem – entre elas, a bovina, produto que tem o Brasil como maior exportador do mundo.
Apesar de a fase mais aguda da febre suína ter ocorrido no primeiro semestre de 2019, os rebanhos do país asiático seguem em nível reduzido. A demanda chinesa por carne de fora continua alta.
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