Como as sanções de Trump empurraram o Irã para a linha-dura
João Paulo Charleaux
19 de junho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h29)Ruptura de acordo nuclear e assassinato de general fortaleceram candidatura ultraconservadora de Ebrahim Raisi, que venceu eleição presidencial no primeiro turno com 62% dos votos
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Ebrahim Raisi deposita seu voto em Teerã
O novo governo do Irã será mais religioso e mais radical que o do atual presidente Hassan Rohani. O ultraconservador Ebrahim Raisi, atual chefe do Judiciário iraniano, venceu ainda no primeiro turno as eleições realizadas na sexta-feira (18). Ele obteve 62% dos votos .
Raisi é próximo a Ali Khamenei, o líder Supremo do Irã, e conta com a simpatia dos clérigos que dão as cartas nas intrincadas estruturas do poder do país persa.
A troca de um moderado como Rohani por um radical como Raisi, ou equivalente, é uma decisão de certa forma imposta pelas autoridades da teocracia xiita iraniana aos eleitores do país.
Ninguém pode se lançar candidato no Irã sem o consentimento do Conselho dos Guardiães. Esse Conselho é formado por 12 membros, sendo seis teólogos xiitas escolhidos pelo Líder Supremo e seis juristas, especialistas em leis islâmicas, escolhidos pelo Chefe do Judiciário, que é o próprio Raisi.
E nesta eleição presidencial, o Conselho dos Guardiães peneirou cinco candidatos de perfil conservador entre os 600 que tentaram se inscrever para disputar a presidência.
A decisão de privilegiar candidaturas conservadoras e radicais foi tomada como resposta à ruptura, em 2018, pelo então presidente dos EUA, Donald Trump, do acordo nuclear que havia sido firmado originalmente com o Irã em 2015 pelo antecessor dele, Barack Obama.
A ruptura do trato, por parte dos americanos, foi acompanhada de nova rodada de sanções impostas pela Casa Branca ao Irã, que estrangularam a economia local, tiraram o prestígio da ala moderada envolvida no acordo e fortaleceram o discurso dos radicais, que usaram a postura intransigente de Trump como argumento para dobrar a aposta na linha-dura do regime.
Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, em Teerã
O acordo previa essencialmente que a comunidade internacional pudesse monitorar a quantidade de urânio e o nível de enriquecimento desse material para garantir que ele não pudesse ser usado com fins militares pelo Irã. Ao formular o texto, Obama e as potências europeias envolvidas, consideraram que essa era melhor forma de manter sob controle um programa que dificilmente poderia ser destruído. Em troca, o país persa se beneficiava do relaxamento das sanções que estrangulavam a economia. Trump, no entanto, derrubou o texto por considerá-lo benéfico demais com um regime não confiável.
Iranianos carregam o caixão de Qassim Suleimani em cortejo fúnebre em Teerã
Além da ruptura do acordo nuclear, um segundo fato alimenta os rancores iranianos e inflaciona o valor das candidaturas radicais nesta eleição: o assassinato do Qassem Suleimani , um general com status de herói de guerra e de ídolo local, que foi morto num ataque de drones americanos em Bagdá, por ordem de Trump, em janeiro de 2020.
Essa coleção de ressentimentos e desconfianças do Irã em relação aos EUA da era Trump é o que alimenta a opção por um novo governo iraniano que seja capaz de endurecer o jogo, mas sem romper as negociações.
Esse equilíbrio delicado envolve uma aparente contradição: o Irã vem fazendo e seguirá fazendo de tudo para restabelecer o acordo atômico de 2015 e, assim, poder afrouxar de novo as sanções econômicas que pesam contra si. Esse relaxamento permitiria ao país voltar a trabalhar com a tecnologia nuclear para fins pacíficos, sob tutela internacional, em vez de correr o risco de ter seu programa definitivamente sabotado ou simplesmente bombardeado por Israel, país do entorno que mais teme essa ascensão atômica.
Com o levantamento das sanções, a economia iraniana voltaria a receber recursos e materiais. Essa nova circulação econômica teria dois efeitos: faria a economia e o consumo interno girar, por um lado, amenizando a pressão e o descontentamento da população com o governo, enquanto, por outro lado, daria ao regime o poder necessário para seguir influenciando atores regionais alinhados a si, como o Hezbollah no sul do Líbano e as facções xiitas no vizinho Iraque.
Essa projeção não é um mero exercício de adivinhação sobre o futuro. Foi exatamente o que ocorreu entre 2015 e 2018, enquanto vigorou o tratado e enquanto as sanções foram relaxadas. Para o regime, a volta dessa dinâmica é o melhor cenário possível.
“Se isto parece contraditório , é porque, bem, parece. Existe um fio unificador que atravessa tudo isto: negociar efetivamente com o regime islâmico do Irã – de maneira a eliminar permanentemente o comportamento maligno – é impossível. Portanto, ao lidar com o Irã, você faz o que pode, onde pode, como pode, mas com o entendimento de que: 1 – perfeito não está no menu; e 2 – o regime islâmico do Irã não irá mudar”, resumiu o analista internacional Thomas Friedman, colunsta do jornal americano The New York Times.
“Para a comunidade internacional – e especificamente para os EUA – colocar o programa nuclear [iraniano] de volta em uma caixa é fundamental ”, disse Sanam Vakil, vice-diretora do programa de Oriente Médio e Norte da África da organização britânica Chatham House, ao Washington Post. “É importante porque, além do acordo nuclear, os negociadores esperam, em última instância, aprofundar e fortalecer o pacto . E não há como chegar lá até que o acordo atual seja restabelecido.”
Candidatos iranianos moderados, como Mohsen Mehralizadeh, que ficou de fora da disputa, provavelmente também trabalhariam pelo restabelecimento do acordo nuclear, que é visto como vital pelos clérigos que mandam no regime. A diferença é que um moderado como Mehralizadeh talvez resistisse a manter a ambiguidade que tem pautado a postura do Irã nessa negociação. O país alega que seu programa tem fins pacíficos, mas muitos países duvidam dessa informação, a começar por Israel.
Os adversários do regime no plano internacional acreditam que o Irã tente apenas ganhar tempo, recursos e dinheiro para seguir influenciando seu entorno, enquanto mantém o programa atômico em marcha lenta, sem perder a tecnologia e a possibilidade de, em momento de necessidade, converter esse programa pacífico numa alternativa militar nuclear.
“Não estou muito seguro de que a vitória de Raisi signifique um isolamento internacional. Não se espera que ele adote um tom radical na política exterior, porque muitos acreditam que Raisi necessita que o acordo nuclear sobreviva ou ressuscite ”, disse Luciano Zaccara, especialista em questões iranianas e professor da Universidade do Qatar, ao jornal Folha de S.Paulo.
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