Por que manter os cuidados, mesmo com o recuo da covid
Mariana Vick
20 de julho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h15)Números em queda indicam nova fase da pandemia no Brasil, mas especialistas alertam que patamar de casos e mortes ainda é alto e cobertura vacinal é insuficiente para bloquear transmissão
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Vacinação de pessoas em situação de rua em Curitiba (PR)
Meses depois de ter atingido o pico da pandemia, entre março e abril de 2021, o Brasil vê em julho quedas simultâneas nos números de novos casos, mortes e internações por covid-19, ao mesmo tempo em que a vacinação avança entre a população adulta.
Embora o quadro represente um recuo na crise sanitária, os números da covid-19 no país ainda são altos, e os cuidados para evitar o contágio devem ser mantidos, segundo especialistas ouvidos pelo Nexo . O alerta também vale para as pessoas vacinadas com uma ou duas doses.
Neste texto, o Nexo explica o quadro atual da pandemia e por que ainda não é o momento para recuar nas medidas de prevenção, segundo especialistas. Mostra também medidas de redução de danos para evitar o contágio.
Segundo o boletim mais recente do Observatório Covid-19 da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), com dados até 10 de julho, o país vive uma nova fase da pandemia , marcada pela manutenção, durante semanas consecutivas, de uma tendência de queda nos indicadores da covid-19.
A fase atual da pandemia também é marcada pela vacinação. Na segunda-feira (19), 42,5% da população havia sido vacinada com uma dose, e 16,2%, com as duas, segundo consórcio de veículos de imprensa.
Os gráficos abaixo mostram onde o país está em comparação com o pico da pandemia, entre março e abril. As curvas de novos casos e óbitos por covid-19 começaram a cair em junho, e até hoje estão em queda. Análises da última semana mostram que essa tendência continua.
O quadro geral brasileiro de ocupação de leitos de UTI no SUS (Sistema Único de Saúde) também segue há semanas uma tendência de melhora, segundo a Fiocruz. Apenas cinco estados (Rondônia, Amazonas, Pará, Tocantins e Goiás) tiveram aumento no índice até 12 de julho.
Embora os números estejam em queda, o patamar de casos e óbitos continua elevado, segundo a Fiocruz. Na segunda-feira (19), a média semanal de mortos pela covid-19 foi de 1.218. A taxa de positividade de testes também está alta, o que sugere intensa circulação do vírus.
A publicação recomenda que as pessoas mantenham as medidas de distanciamento social, uso de máscaras e higiene. “Estamos em uma fase em que dá para respirar, mas a pandemia não acabou”, disse ao Nexo Raphael Guimarães, do Observatório Fiocruz Covid-19.
“É uma nova fase. Temos a chance de refazer a rota: ver o que aconteceu de errado na pandemia e tentar fazer melhor. Mas há uma preocupação, porque, em cenários de melhora, as pessoas relaxam mais. Qualquer relaxamento pode levar a repiques”
Os cuidados valem inclusive para quem se vacinou. Membro do Observatório Covid-19 BR e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Roberto Kraemer lembrou ao Nexo que a maior parte dos vacinados no país tomou uma dose, quando o necessário para defesa completa contra o vírus são duas.
Embora os imunizantes protejam contra covid-19 grave e morte, pessoas vacinadas ainda estão sujeitas à infecção em um cenário de alta circulação do vírus. Elas também podem transmiti-lo para outras pessoas. Os cuidados servem para proteger não só a si, mas os outros.
70%
é quanto precisa ser a cobertura vacinal com duas doses para se chegar a um patamar seguro, segundo estimativas; taxa no país é de menos de 20%
“Outra coisa importante são as sequelas. Casos sintomáticos de covid podem ter consequências de longo prazo”, segundo o físico Roberto Kraenkel,professor da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo) e pesquisador do Centro de Contingência contra Covid-19 no estado. “Seria uma loucura abrir tudo porque a população mais vulnerável a casos graves está majoritariamente vacinada”, disse ao Nexo .
Outro motivo para manter os cuidados contra o contágio é a variante delta , que entrou no país em maio. Identificada em 2020 na Índia, a cepa é considerada responsável por novos repiques da pandemia em lugares com alta cobertura vacinal, como EUA e Reino Unido.
Chamada também de B.1.1.7, a delta foi classificada como variante de preocupação do novo coronavírus pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em maio de 2021, por conta de sua maior capacidade de transmissão e por sua propagação em mais de 100 países.
Mulher faz compras em lojas de rua no Rio de Janeiro
Os primeiros registros da delta no Brasil ocorreram no Maranhão, em maio. O país identificou mais casos em outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Minas Gerais e Paraná, e cidades como São Paulo e Rio confirmaram transmissão comunitária da nova variante.
Em outros contextos, variantes do exterior não ganharam terreno no país — que hoje tem a maioria de casos de covid-19 ligados à gama, cepa identificada em Manaus. Para Roberto Kraenkel, não se sabe se o mesmo pode ocorrer com a delta, mas subestimá-la é um risco.
Estudos mostram que, além de ser mais transmissível, a delta tem escape parcial da vacina contra a covid-19. Os imunizantes usados hoje, porém, oferecem proteção o bastante contra ela. Para as vacinas com regime de duas doses, é preciso duas para haver defesa completa.
Para Roberto Kraenkel, além de incentivar medidas como o distanciamento social e o uso de máscaras, os governos deveriam aproveitar o momento de recuo da pandemia para adotar medidas como a testagem em massa, que pode evitar a chegada de outra onda.
Sem testes ou rastreio de contatos de quem tem covid-19, “o país está em voo cego” para avaliar ou controlar a pandemia, segundo o professor. Com dados mais precisos sobre a covid-19, os governos poderiam fazer inclusive reaberturas mais seguras no futuro, disse.
Mulher faz teste sorológico no quilombo de Peropava, na cidade de Registro, São Paulo
Kraenkel também defende que os governos invistam mais em vigilância genômica para detectar novas variantes, como a delta, e evitar sua expansão. Considerada fraca, a rede de vigilância brasileira faz poucas análises das amostras dos vírus em comparação com outros países.
Guimarães comentou estratégias de outros países de “conviver” com a covid-19. Na segunda-feira (19), a Inglaterra suspendeu medidas de restrição, apesar de críticas quanto ao momento, porque o país enfrenta uma alta no número de casos, grande parte ligada à variante delta.
Com a ampliação da vacinação, propostas como essa devem aparecer no país. Segundo Guimarães, a reabertura de atividades, porém, não pode ser precipitada. Para se pensar em voltar à normalidade, a cobertura vacinal deve chegar ao patamar de 70%, reforçou ao Nexo .
“Quando um novo vírus começa a circular, ele não volta mais para dentro da caixinha. A perspectiva de que vamos conviver para sempre com o novo coronavírus é real. A questão é que precisamos que ele não represente mais uma ameaça — nem global, nem local”
Mesmo que o distanciamento social seja a medida mais recomendada para evitar o contágio da covid-19, é importante também manter em mente medidas para reduzir os riscos de infecção em determinadas situações.
O ideal é privilegiar saídas ao ar livre ou em ambientes com boa ventilação, considerados menos favoráveis à disseminação do novo coronavírus. Kraenkel também afirma que é importante usar boas máscaras , evitar aglomerações e manter distância de outras pessoas.
Homem exibe máscara PFF2 em fábrica em Socorro (SP)
“É necessário também levar em conta a condição da pandemia”, cujos indicadores variam dependendo do lugar do país. “Estou em um lugar com muita circulação de vírus? Se sim, vou ter mais chances de infecção”, e isso deve ser ponderado, segundo o professor.
Espaços fechados ou com aglomeração devem ser evitados ao máximo. Caso seja inevitável passar por essa situação, é preciso tomar todos os cuidados, segundo Raphael Guimarães. “Já situações não fundamentais precisam ser evitadas agora e ainda por algum tempo.”
“Entendo que existe um cansaço da pandemia. Mas a situação brasileira não é boa, e é preciso ter paciência”, afirmou Kraenkel ao Nexo . “A melhor medida ainda é usar máscaras e evitar o máximo de contatos.”
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