Borba Gato e os bandeirantes: do mito à desconstrução
Luiza Franco
26 de julho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h28)Incêndio em estátua de sertanista na zona sul paulistana chama atenção para as figuras que empreenderam expedições pelo interior do Brasil a partir do século 16
Estátua de Borba Gato em chamas
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), anunciou na segunda-feira (26) que a estátua de Borba Gato, localizada em Santo Amaro, na zona sul da cidade, será restaurada com dinheiro de um empresário cuja identidade não foi revelada.
O monumento foi incendiado no sábado (24) por cerca de 20 pessoas. O grupo Revolução Periférica assumiu a autoria do ato e espalhou lambe-lambes em postes com a pergunta “Você sabe quem foi Borba Gato?”. O incêndio ocorre na esteira de protestos antirracistas e anticolonialistas em diversas partes do mundo.
Neste texto, o Nexo resgata a trajetória de Borba Gato entre os sertanistas (ou bandeirantes), que adentraram o interior do país a partir do século 16, foram alçados à condição de “heróis paulistas” no fim do século 19, batizaram ruas, estradas, a sede do governo do estado e até um canal de TV no século 20 e agora, no século 21, são cada vez mais lembrados como símbolo da violência da história colonial brasileira.
Durante missões no interior do Brasil para encontrar metais preciosos entre os séculos 16 e 17, grupos de sertanistas que viriam a ser chamados de bandeirantes capturaram e escravizaram milhares de pessoas. Há relatos de historiadores de confrontos sangrentos entre os bandeirantes e essas populações, com estupros em série a mulheres indígenas.
Manuel Borba Gato (1649-1718) foi desses bandeirantes. Paulista como boa parte deles, Borba Gato empreendeu expedições a Minas Gerais em busca de metais preciosos no final do século 17 e início do século 18. Era genro de outro sertanista, Fernão Dias Paes Leme, e embarcava com o sogro nessas expedições.
O Brasil colônia era dividido em capitanias hereditárias. A capitania de São Vicente era pobre se comparada à do Rio de Janeiro, à de Pernambuco e à da Bahia. Nesse contexto surgiram as bandeiras, expedições ao interior do país por espaços que hoje são estados como Minas, Paraná e Mato Grosso.
Os bandeirantes partiam de São Paulo em busca de metais preciosos e de indígenas, que eram usados como mão de obra escrava. Uma mudança de política da coroa portuguesa incentivou essas expedições. Portugal passava por longa guerra contra a Espanha, o que drenava seus cofres, segundo Pedro Puntoni, professor de história da USP (Universidade de São Paulo).“A colônia portuguesa mais lucrativa era a do Brasil, e houve grande interesse em fazer ela render ainda mais”, diz ele.
A documentação da época registra que havia resistência. Não raro o conflito acabava em extermínio, diz Puntoni, que estudou a chamada Guerra dos Bárbaros (1650 e 1720), que foram insurgências indígenas no Nordeste do Brasil.
“Borba Gato não estava lá, mas pessoas ligadas a ele provavelmente estavam. Borba Gato é membro de um grupo paulista que se fundava na escravização indígena de forma predatória”, disse Puntoni.
Segundo o jornalista Laurentino Gomes, que escreve uma série de livros sobre a escravidão, Borba Gato ganhou dinheiro buscando indígenas para escravizar e contrabandeando ouro na segunda metade do século 18.
Em 1682, se torna suspeito pelo assassinato de Dom Rodrigo de Castelo Branco, funcionário da colônia que queria saber onde estavam as minas de metais preciosos, e vira um fugitivo da justiça.“Nas vizinhanças do refúgio de Borba Gato estava localizada a Serra de Sabarabuçu, atualmente no município de Sabará, a 23 quilômetros de Belo Horizonte, de onde brotariam as primeiras pepitas de ouro por volta de 1694”, escreveu ele em uma rede social, em 2020.
Acredita-se que tenha mantido em segredo a localização das minas. Anos depois, escreve o jornalista,“em troca da localização das minas, o rei de Portugal não apenas anistiou o bandeirante como lhe cumulou cargos e honrarias. Num piscar de olhos, Borba Gato deixou de ser um criminoso fugido da lei e foi imediatamente promovido a fígado e guarda-mor das Minas de Caetés”.
Também participou da Guerra dos Emboabas (1707-1709), dos paulistas contra migrantes de outras regiões, pelo terreno que hoje é o estado de Minas Gerais.
Em vídeo publicado nas redes sociais após o incêndio da estátua de Borba Gato, o escritor Eduardo Bueno, que se dedica à história, afirmou que o personagem“não era santo”, mas que não era “caçador de índios”, e sim de “esmeraldas”. Segundo ele, durante o período em que esteve foragido por causa do assassinatode Dom Rodrigo de Castelo Branco, Boba Gatoi teve relação “ estável e fecunda ” com indígenas.
“O sertanista existiu, o bandeirante é um mito”, diz a historiadora do período colonial e professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Denise Moura.
A palavra bandeirante não aparece na documentação colonial. Ela começou a ser usada no fim do século 19 e se tornou mais popular a partir da década de 1910, quando São Paulo começou a se projetar economicamente, com o ciclo do café, segundo Moura.
“Uma história que buscava exaltar São Paulo transformou essas pessoas em ‘bandeirantes’, uma palavra com mais apelo do que ‘sertanista’. O bandeirante foi escolhido como figura do período colonial que simbolizava uma identidade regional heroicizada. Uma elite endinheirada escolhe essa figura que, como contavam, penetrou sertões, era exploradora, empreendedora”, disse ela ao Nexo .
“A elite econômica e a elite cultural eram a mesma coisa”, disse Alberto Luiz Schneider, professor do Departamento de História da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.
O historiador Afonso de Taunay (1876-1958) foi quem mais escreveu sobre os sertanistas e construiu o mito dos bandeirantes. Taunay vinha de uma importante família de cafeicultores de Vassouras, no Rio de Janeiro, e era casado com uma mulher que vinha de uma das famílias mais ricas de São Paulo, exemplifica o professor.
Taunay também foi diretor do Museu Paulista, a instituição responsável pela cristalização da imagem do bandeirante que foi disseminada ao longo da primeira metade do século 20, segundo o historiador Paulo César Garcez Marins, professor do museu atualmente.
Esse mito, de acordo com historiadores, foi sobrevivendo nos livros escolares e na memória coletiva. “Representações que atenuam a brutalidade das bandeiras”, disse Marins.
Além de Borba Gato, outros bandeirantes são homenageados pelo estado. Há ainda símbolos e homenagens para representar todos esses sertanistas, como o Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, também na zona sul paulista, a rodovia dos Bandeirantes, o Palácio dos Bandeirantes, de onde despacha do governador, e a TV Bandeirantes.
A estátua em Santo Amaro de Borba Gato, feita pelo artista plástico Julio Guerra e inaugurada em 1963, é uma extensão da manutenção desse mito. Um mito que, na visão dos historiadores ouvidos pelo Nexo , vem cada vez mais sendo desconstruído por estudiosos.
“É uma estátua para um vândalo, é como se tivesse em Berlim a estátua de um general da Gestapo [a polícia secreta nazista]”
Para os historiadores ouvidos pelo Nexo , monumentos com o que homenageia Borba Gato não devem permanecer como estão. Alguns sugerem que sejam retirados e enviados a museus. Já Schneider vê como solução a construção de outro monumento, no mesmo espaço, que explicite a violência da colonização e, dessa forma, conteste a homenagem à figura do colonizador.
“O movimento para rever espaços de memória é muito saudável e correto. Tem sido atacado como revisionismo. Não se trata disso. A história é reescrita o tempo inteiro, é lugar de disputa e mudanças de atitude. A sociedade se democratizou e parte da luta é a proposta de uma sociedade mais justa e que respeite a diversidade. O elogio desses mitos criados por elite comprometida com a escravidão deve ser revisto. É saudável que isso aconteça”, disse Puntoni.
Em 2020, manifestantes derrubaram e lançaram no rio Avon uma estátua de Edward Colston (1636-1721) na cidade britânica de Bristol. Em maio deste ano, foi anunciado que a estátua será exposta em um museu da cidade, junto com placas do movimento Black Lives Matter. Será feita uma pesquisa com a população para que decidam o que deve ser feito da obra.
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