Expresso

Como a vacinação está mudando o perfil da covid no Brasil

Estêvão Bertoni

26 de julho de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h16)

Idade média de pessoas internadas ou mortas pela doença caiu após início da vacinação, mas proporção de idosos entre vítimas voltou a crescer desde o fim de junho de 2021

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FOTO: UESLEI MARCELINO/REUTERS – 29.MAR.2021

Imagem mostra idosa com olhos fechados recebendo vacina no braço esquerda. Ela usa uma máscara florida e fundo da fotografia é colorido

Idosa é vacinada contra a covid-19 durante campanha de imunização em Brasília


Desde o início da pandemia do novo coronavírus, em março de 2020, os idosos foram as principais vítimas da covid-19. A vacinação iniciada no Brasil em meados de janeiro de 2021, colocando os mais velhos no começo da fila, alterou o perfil das pessoas internadas ou que morrem em decorrência da doença. Pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) chamam o processo de rejuvenescimento da pandemia.

Um levantamento publicado pelo portal G1 na sexta-feira (23), com base em dados do sistema Sivep-Gripe, do Ministério da Saúde, ilustra essa mudança. Em junho de 2021, pela primeira vez, o número de mortes por covid-19 entre não idosos superou o de idosos no estado de São Paulo. As principais vítimas foram as pessoas de 40 a 59 anos. Eles representaram, naquele mês, 54,6% das mortes pela doença. Até então, os óbitos ocorriam, principalmente, entre idosos de 60 a 79 anos.

Neste texto, o Nexo mostra como a vacinação contribuiu para a redução da média de idade de internados e de mortes pela covid-19 e por que a tendência de rejuvenescimento está sendo revertida, desde o final de junho, com um crescimento na proporção de idosos nos indicadores.

A covid por faixa etária

A infecção respiratória causada pelo novo coronavírus é mais perigosa em idosos por uma série de fatores, como a capacidade imunológica e a maior frequência de comorbidades nesse grupo, segundo o doutor em saúde pública Raphael Guimarães, que é pesquisador da Fiocruz, em entrevista ao Nexo .

Ao longo de 2020, houve picos de rejuvenescimento no perfil dos internados e das mortes devido a medidas não farmacológicas, como o distanciamento e o isolamento social. “Em algum momento, os idosos foram um pouco mais poupados no que diz respeito às atividades diárias. Eles ficaram mais reclusos”, disse o pesquisador. Os idosos continuaram, porém, como maiores vítimas.

O processo de rejuvenescimento começa a ser sentido mais claramente a partir do início da vacinação. Segundo o boletim epidemiológico do Observatório Covid-19, da Fiocruz, publicado na sexta-feira (23), a idade média dos internados com covid-19 caiu para 53 anos até meados de julho (a análise vai até a semana que termina em 17 de julho). Na primeira semana de 2021, a idade média era de 62,5 anos.

64,3

era a idade média de mortes pela covid-19 em meados de julho; na primeira semana de 2021, a mesma média ficava em 71,4 anos, segundo boletim da Fiocruz

Rejuvenescimento em 2021

Março

Começa a vacinação de pessoas de 60 a 70 anos.

Abril

É observada uma tendência de queda nas internações e óbitos entre os idosos.

Maio/Junho

No final de maio, começa a imunização da população geral, abaixo dos 60 anos. Os resultados do rejuvenescimento no perfil etário se tornam mais claros.

Junho/Julho

Depois de estagnar, a proporção de internações e mortes de idosos volta a subir lentamente.

“Como os idosos começaram a ser vacinados, houve uma queda relativa em internações, formas graves da doença e mortes nesse grupo. Com os idosos sendo menos acometidos pelos casos graves e fatais, inevitavelmente os jovens passaram a contribuir mais de forma relativa para a pandemia”

Raphael Guimarães

pesquisador da Fiocruz

Mais jovens doentes

O aumento da participação dos mais jovens nas internações e nas mortes coincide tanto com o início da vacinação dos idosos, que reduziu os casos graves e fatais nesse grupos, quanto com o aparecimento de uma variante do novo coronavírus em Manaus, considerada mais contagiosa. Ela logo se espalhou por todo o país, o que contribuiu para uma nova onda de covid-19 em março.

Segundo Guimarães, naquele momento, uma população de meia idade estava voltando às atividades presenciais devido à interrupção do trabalho remoto ou pela perda do emprego, o que forçou pessoas a procurarem outros serviços presenciais.

“Quem esteve puxando os números da pandemia para baixo no Brasil até o momento foram os grupos de idade mais avançada, que em grande medida já passaram por etapas completas de vacinação contra a covid-19”

Observatório Covid-19

em boletim publicado na sexta-feira (23)

Nova alta entre idosos

No fim de junho, porém, a tendência de rejuvenescimento da pandemia se reverteu, e a proporção de idosos voltou a aumentar. “Desde a semana epidemiológica 26 (de 27/6 a 3/7), a maioria dos casos voltou a se concentrar acima dos 60 anos”, diz o boletim do Observatório Covid-19.

Guimarães destaca que a vacinação tem feito a mortalidade e o número de internações cair em todas as faixas etárias, o que cria um cenário aparentemente mais favorável. Aparentemente, porque a média de mortes diária por covid-19 no Brasil continua acima de mil.

Segundo o pesquisador, a proporção de idosos entre as vítimas voltou a subir justamente porque a vacinação avançou sobre as faixas etárias mais jovens.

“A gente tem conseguido atingir uma cobertura relativamente boa dessa população não idosa. Quando isso acontece, volta a aumentar a proporção de idosos evoluindo de forma grave ou fatal. No cômputo geral, em termos absolutos, temos menos casos. Mas de forma proporcional, como os mais jovens também estão se beneficiando da vacinação, volta a ter aquele cenário original em que os idosos têm proporcionalmente maior participação na situação”

Raphael Guimarães

pesquisador da Fiocruz

Segundo ele, o aumento não significa que a proteção das vacinas caiu com o tempo ou que funciona menos entre os mais velhos. Um estudo feito no Chile, por exemplo, sugere que a proteção da Coronavac, vacina mais usada no Brasil, cai após seis meses. Outro estudo no Brasil mostra que a proteção é menor quanto maior a idade do vacinado.

Guimarães afirma que a proporção de idosos entre as vítimas tende a se estabilizar, de forma que os idosos contribuam de maneira mais ou menos o estável no cômputo total de casos e óbitos. Um possível problema com as vacinas só seria percebido entre os idosos se a proporção aumentasse significativamente, o que não vem acontecendo. Ele lembra também que ainda não há consenso científico sobre a necessidade de uma terceira dose de reforço nos mais velhos.

O pesquisador também diz acreditar que, com o avanço da vacinação, a proporção de crianças e adolescentes entre as vítimas da covid-19 aumente.

“O que a gente observa é que os custos da doença na população mais jovem tendem a ser mais brandos. Eventualmente, pode aumentar o número de casos, em números absolutos. Mas quando toda a população até 20 anos estiver imunizada, a cobertura vacinal vai ser grande o suficiente para bloquear a circulação do vírus. E, quando isso acontecer, mesmo que os adolescentes não estejam vacinados, eles estarão indiretamente protegidos”, afirmou.

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