Como a tomada de Cabul pelo Taleban ameaça mulheres
Taís Ilheu
15 de agosto de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h20)Em outras regiões tomadas pelo grupo fundamentalista já há relatos de casamentos forçados e obrigatoriedade da burca
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Homem cobre de tinta branca imagem de mulher em Cabul
A tomada de Cabul neste domingo (15) pelo grupo fundamentalista islâmico Taleban já gera um clima de pânico entre as afegãs que vivem na capital. Centenas de mulheres que moravam em cidades do interior já tomadas pelo grupo fugiram para a capital afegã nas últimas semanas, em uma tentativa de escapar da violência e forte repressão de gênero imposta pelo Taleban.
Em entrevista à BBC, uma mulher de 35 anos que havia fugido para Cabul afirmou que os radicais estavam exigindo que meninas e mulheres se casassem à força com membros do grupo. Agora, também não estão mais seguras na capital. Nas redes sociais, circulam imagens de grandes congestionamentos e aglomerações nas ruas enquanto pessoas tentam deixar a cidade. Na segunda-feira (16), houve mortes no aeroporto após uma multidão adentrar o local na tentativa de deixar o país.
Enquanto o Talibã avança sobre Cabul, inclusive com terroristas libertados em outras cidades, moradores da capital tentam fugir em desespero. Aeroporto é única saída. 🇦🇫 pic.twitter.com/2Fr4rkK9dQ
— André Fran (@andrefran) August 15, 2021
Neste texto, o Nexo mostra como era a vida das mulheres sob o regime do grupo nos anos 1990, as proibições que podem retirar direitos conquistados pelas mulheres nos últimos anos e como ativistas tentam denunciar as ações do Taleban.
Revisitar a história do Taleban ajuda a entender porque o grupo é visto com tanto temor pelas mulheres. Durante os anos em que assumiu o controle do Afeganistão, na década de 1990, o Taleban estabeleceu um regime teocrático e radicalmente contra hábitos associados a cultura ocidental.
As mulheres foram proibidas de estudar ou trabalhar e o uso das burcas se tornou obrigatório. Também precisavam estar acompanhadas de algum homem para sair de casa. A infração dessas regras resultava em punições violentas como espancamentos em público.
Agora, apesar das promessas de moderação na transição do governo, já existem indicativos de que leis como essas serão retomadas.
No início de julho, a Reuters ouviu relatos de mulheres que trabalhavam noBanco Azizi, na cidade de Kandahar, sul do Afeganistão. Depois de tomar a cidade, radicais do Taleban invadiram o banco e escoltaram nove mulheres que trabalhavam no escritório até suas casas, ordenando que deixassem seus cargos. O grupo orientou que os parentes homens dessas funcionárias deveriam assumir o lugar delas a partir daquele momento. “É realmente estranho não poder trabalhar, mas agora é assim”, disse Noor Khatera, de 43 anos.
As portas das universidades também começaram a se fechar para as mulheres nos últimos meses conforme o Taleban avançava pelo Afeganistão. Na cidade de Herat, próxima à fronteira com o Irã, as alunas estão impedidas de entrar na universidade, e aguardam em casa até que os líderes locais do grupo fundamentalista decidam se elas poderão retornar às salas de aula.
A ex-embaixadora da Juventude da ONU, Aisha Khurram, contou em uma postagem no Twitter que o clima na Universidade de Cabul já é de despedida para as alunas. Na manhã de domingo (15), a universidade foi evacuada e os professores despediram-se das universitárias, com o temor de que elas não voltem a frequentar o espaço daqui para frente.
Some teachers said goodbyes to their female students as everyone was evacuated from Kabul University this morning... and we might not see our graduation like thousands of students around the country.
— Aisha Khurram (@AishaKHM) August 15, 2021
Taliban are placed all over the city, just waiting for the right time...
Um repórter da BBC no Afeganistão ouviu de um dos comandantes do Taleban, na sexta-feira (13), que quem não abrisse mão da cultura ocidental em Cabul seria morto. Mulheres que já vivem em regiões controladas pelos radicais também relataram que são forçadas ao uso da burca e que pessoas foram espancadas por infringirem regras como essa.
Todas as acusações são negadas por porta-vozes do Taleban, comoSuhail Shaheen, que faz contato com a imprensa estrangeira no Gabinete Político do grupo em Doha. “É uma propaganda venenosa”, afirmou. Outro porta-voz, Zabihullah Mujahid, não respondeu a um questionamento da Reuters sobre se as mulheres seriam autorizadas a trabalhar daqui em diante. Disse apenas que “após o estabelecimento do sistema islâmico, será decidido de acordo com a lei e, se Deus quiser, não haverá problemas”.
A ativista Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz , se pronunciou neste domingo (15) e expressou seu temor pelas mulheres do Afeganistão. Paquistanesa, Malala foi vítima de um ataque do Taleban em 2013, quando foi baleada a caminho da escola e virou símbolo da luta pela educação.
“ Estou profundamente preocupada com mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos. Poderes globais, regionais e locais devem pedir um cessar-fogo imediato, fornecer ajuda humanitária urgente e proteger refugiados e civis”
A ativista pelos direitos humanosZarmina Kakar, que vive em Cabul, também se manifestou sobre o avanço do Taleban. Quando Kakar era criança, o Afeganistão ainda vivia sob o regime do grupo, e ela conta que presenciou sua mãe ser chicoteada em público pelos talebans por revelar o rosto na rua. Hoje, depois de duas décadas de direitos conquistados, a ativista teme por uma volta ao passado. “Mais uma vez, sinto que se os talebans chegarem ao poder voltaremos aos mesmos dias sombrios”, afirmou antes do grupo invadir a capital do Afeganistão, onde ela vive.
Em entrevista ao canal Euronews, a diretora-adjunta da organização humanitária CARE International disse que acredita não ser possível um regresso ao Afeganistão da década de 1990, mesmo com a volta do Taleban ao poder. “Não se pode deseducar milhões de pessoas”, afirmou. Outras organizações de direitos humanos não são tão otimistas.
A ONG de direitos humanos Human Rights Watch já denuncia os novos ataques às mulheres no país e alerta para os riscos que eles representam. Em um relatório publicado no dia 5 de agosto de 2021, a organização afirma que o governo afegão fracassou em responsabilizar os responsáveispela violência contra mulheres e meninas, o que prejudicou o progresso na proteção dos direitos das mulheres.
“Os ganhos das forças do Taleban à medida que os Estados Unidos concluem a retirada das tropas deixam incertos o atual Estado afegão e, em particular, os direitos das mulheres.”
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