Como o preço do minério de ferro impacta o Brasil
Marcelo Roubicek
26 de agosto de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h31)Valor da commodity, segundo produto mais importante das exportações do país, acumula queda desde a segunda metade de julho. O ‘Nexo’ explica o que está por trás do movimento
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Mina de minério de ferro na região de Pilbara, na Austrália
O preço do minério de ferro no mercado internacional chegou ao nível mais baixo em seis meses na segunda-feira (23). A desvalorização acelerou a partir do fim de julho – em 30 dias, a queda do preço foi da ordem de 26%.
A queda do minério de ferro ocorreu após uma forte tendência de alta do produto observada entre o início de 2020 e o primeiro semestre de 2021. Embora tenha operado em alta na terça e na quarta-feira (24 e 25), o produto seguiu longe de recuperar o patamar anterior ao tombo. O recuo nos preços pode ter efeitos negativos para o Brasil, um dos principais exportadores de minério de ferro do mundo.
Neste texto, o Nexo relembra a trajetória de alta do minério de ferro, explica o que está por trás da queda do seu preço no segundo semestre e como ela impacta o Brasil. Também detalha quais podem ser os efeitos desse movimento para o chamado ‘boom das commodities’.
Apesar do choque negativo causado pela pandemia do novo coronavírus sobre a economia global, o minério de ferro teve um bom ano em 2020. Os preços do produto no mercado internacional subiram mais de 70% no ano – e o movimento de alta continuou na primeira metade de 2021.
131%
foi a alta do preço médio mensal de minério de ferro entre dezembro de 2019 e julho de 2021, segundo dados do Banco Mundial
A alta do minério de ferro em 2020 esteve associada fundamentalmente à demanda chinesa pela commodity – nome dado aos produtos primários, com baixo valor agregado. O país asiático foi o único entre as maiores economias do planeta a registrar crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro ano de pandemia.
A China foi o primeiro epicentro da pandemia de covid-19 no mundo. Após alguns meses de medidas rigorosas de isolamento social em diversas regiões no início de 2020, o país conseguiu manter a doença sob controle , de modo geral.
Com isso, a economia chinesa ganhou tração – algo que não foi possível em países onde o vírus continuou (e continua) circulando a taxas altas.
A recuperação chinesa foi comandada pelo setor industrial do país. Em 2020, a atividade industrial chinesa contou com papel importante do governo – algo que já vinha desde antes da pandemia , mas que ganhou peso ainda maior. O investimento de empresas públicas cresceu, assim como os subsídios e incentivos.
Aportes em projetos públicos de infraestrutura – como na área de energia – cresceram, e os governos locais aumentaram seus endividamentos para elevar despesas e investimentos. Esses gastos ajudaram a aquecer a economia e a manter mais pessoas empregadas no momento de crise.
O crescimento da indústria chinesa aumentou a demanda por aço, que, por sua vez, elevou significativamente as compras de minério de ferro, ingrediente fundamental da siderurgia. Segundo dados da Associação Mundial do Aço, a produção na China em 2020 foi 5,2% maior que em 2019. O país produz cerca de 58% de todo o aço no mundo – o que o torna, de longe, o maior importador de minério de ferro do planeta.
No primeiro semestre de 2021, a China continuou expandindo a atividade industrial e a produção de aço, enquanto outros países deram sinais de aceleração no processo de retomada econômica.
Os EUA – maior economia do mundo e maior rival da China no cenário global – também elevaram sua produção e demanda por aço. Isso em meio aos grandes pacotes de gasto público, que em 2021 incluem também novos planos de investimentos de grande porte em infraestrutura.
A partir de meados de julho de 2021, no entanto, o minério de ferro começou a cair. E o fator central por trás disso está novamente na China.
A queda do minério de ferro em julho e agosto de 2021 está ligada à expectativa de diminuição da demanda chinesa pelo produto. Há duas frentes que explicam isso.
Por um lado, a China colocou em abril de 2021 a meta de desacelerar o setor de siderurgia para tentar conter as emissões de gases poluentes no país. As estimativas são de que a produção de aço seja responsável por cerca de 15% de todas as emissões chinesas. Os efeitos dessa política apareceram pela primeira vez nos números da indústria siderúrgica em julho de 2021.
8,4%
foi a queda na produção de aço na China em julho de 2021, na comparação com julho de 2020
Por outro lado, há também os efeitos ligados aos sinais de desaceleração da economia chinesa como um todo. Em julho de 2021, diversos indicadores econômicos vieram abaixo da expectativa – incluindo a produção industrial.
A possível desaceleração da economia chinesa é associada à diminuição de incentivos do governo, que atingem a indústria siderúrgica, a construção civil e o mercado imobiliário – outro setor cuja demanda por aço ajuda a estimular a demanda por minério de ferro. A diminuição do ritmo da atividade econômica também é atribuída aos registros de surtos da variante delta do coronavírus, que, embora controlados e ainda pouco numerosos, levaram à adoção de medidas de restrição à circulação em algumas cidades do país.
O Brasil é o segundo maior exportador de minério de ferro no mundo – o país produz quase 20% de todo o minério que é negociado internacionalmente. A Austrália, líder mundial, é responsável por pouco mais da metade das exportações globais.
O minério de ferro é um produto bastante relevante para a balança comercial brasileira . Trata-se do segundo bem com maior valor exportado pelo Brasil, atrás apenas da soja. A China é a principal compradora do minério de ferro brasileiro, sendo responsável por cerca de dois terços das exportações do país.
16,5%
foi a participação do minério de ferro nas exportações totais brasileiras entre janeiro e julho de 2021, segundo dados do Ministério da Economia
A queda do preço do minério de ferro, portanto, pode significar uma menor entrada de dólares no Brasil – o que pode levar a um possível aumento do câmbio.
Além disso, a Vale, maior mineradora brasileira, pode ver sua rentabilidade cair. A empresa registrou lucro recorde de R$ 40,1 bilhões no segundo trimestre de 2021, impulsionado pela alta do minério de ferro. A ação da Vale acompanhou a queda do produto a partir do final de julho, registrando desvalorização de 15% entre 23 de julho e 23 de agosto.
À coluna da jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, economistas avaliaram que a queda no preço do minério de ferro também pode reduzir custos para a indústria siderúrgica brasileira. E isso pode se traduzir em custos menores para setores importantes da economia brasileira, como a indústria automobilística e a construção civil – o que pode ajudar a conter a inflação no país .
Embora o minério de ferro esteja em baixa em julho e agosto de 2021, o cenário a médio prazo é incerto. Segundo economistas ouvidos pelo jornal Valor Econômico, o preço do produto pode sofrer queda maior em 2022 , mas ainda se manter em patamares altos, na comparação histórica. Na terça e na quarta-feira (24 e 25), a tendência nos mercados globais foi de alta, mas sem recuperar a queda observada desde a segunda metade de julho.
Os temores de desaceleração da economia chinesa não afetam apenas o minério de ferro. O petróleo – outro importante produto de exportação brasileiro – também tem registrado queda de preços na segunda metade de 2021. Esse movimento é impulsionado pela expectativa de diminuição da demanda da China, e também pela possível queda na procura por combustíveis no mundo todo, em função do avanço da variante delta do coronavírus.
Outra commodity ligada à atividade industrial que também está em baixa é o cobre . Novamente, o principal fator que explica o movimento é a expectativa de queda na produção da indústria chinesa.
O momento coloca em dúvida a continuidade do boom de commodities – desde meados de 2019, preços de produtos primários vêm crescendo no mundo todo, beneficiando países exportadores como o próprio Brasil .
De acordo com economistas ouvidos pelo portal eInvestidor, do jornal O Estado de S. Paulo, a expectativa em relação às commodities agrícolas é que os preços se mantenham em patamar alto no curto prazo, por causa da demanda chinesa e de fatores climáticos que afetam a produção. Mas a projeção para os próximos anos é de queda gradual nas cotações.
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