O que a crise diz sobre a forma como o Brasil produz e vende comida
Redator
30 de agosto de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h20)Estudo mostra que pandemia exacerbou fragilidades no sistema alimentar do país, baseado em grandes produtores e varejistas
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Comerciante oferece manga a comprador em feira no Rio de Janeiro
Cerca de 19 milhões de brasileiros enfrentaram a fome no último trimestre de 2020, o maior número desde 2004, e mais da metade da população viveu algum grau de insegurança alimentar no mesmo período, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.
O problema da fome foi agravado pela crise econômica e o desemprego gerados pela pandemia de covid-19. Mas a situação também expõe fragilidades pré-existentes no sistema alimentar brasileiro — a forma como o país produz, consome, comercializa e descarta comida —, de acordo com um estudo publicado nesta segunda-feira (30) pela revista Demetra e divulgado pela Agência Bori.
Realizado por pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e do Ministério do Meio Ambiente, o estudo ressalta a importância de fortalecer “cadeias locais e circuitos curtos de produção, feiras livres e pequenos comércios, como açougues, mercados de frutas, legumes e verduras, padarias, entre outros”.
Neste texto, o Nexo explica como está estruturado atualmente o sistema alimentar brasileiro e como a pandemia mostra seus impactos na economia, na saúde pública e no meio ambiente.
Na análise feita pelos pesquisadores, o sistema alimentar hegemônico no país é um “modelo baseado na larga escala de propriedade, [emprego] de tecnologia e voltado para produção de commodities”, que “favorece a concentração da distribuição de alimentos em poucos grandes grupos de hipermercados e supermercados, em detrimento das feiras livres e dos pequenos varejos distribuídos”.
Os pequenos produtores familiares, apesar de representarem cerca de 80% dos estabelecimentos agropecuários e produzirem parte significativa dos alimentos consumidos pelos brasileiros (em especial das frutas, legumes e hortaliças), ocupam somente 23% da extensão de terras destinadas a essa atividade, segundo dados do Censo Agropecuário de 2017, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Ainda de acordo com o IBGE, a agricultura familiar encolheu no país à medida que o agronegócio cresceu em anos recentes. Entre 2006 e 2017, houve uma redução de 9,5% no número de estabelecimentos e uma perda de 2,2 milhões de postos de trabalho. Enquanto isso, a agricultura não familiar ganhou 702 mil empregos durante o mesmo período.
Produtores médios e grandes também recebem a maior parte dos investimentos do governo federal na agropecuária:
R$ 251,2 bilhões
valor total de crédito concedido à agropecuária pelo Plano Safra 2020-2021
R$ 39,3 bilhões
crédito concedido à agricultura familiar pelo Plano Safra 2020-2021
Já no comércio, os supermercados concentram cerca de 93% do faturamento no varejo de alimentos, enquanto o varejo tradicional (açougues, quitandas, mercearias e feiras livres) é responsável por apenas 7%, segundo dados da agência de pesquisas Nielsen. A porcentagem de compras feitas por brasileiros em supermercados também tem aumentado com o tempo , de acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE.
O estudo publicado na revista Demetra aponta as consequências negativas desse sistema, que são relacionadas entre si e foram exacerbadas pela pandemia de covid-19.
O Brasil vem batendo sucessivos recordes de produção no campo e foi o terceiro maior produtor de alimentos do mundo em 2020. Apesar disso, dados da Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE mostram que a insegurança alimentar voltou a crescer no país a partir de 2013. Esse índice, que mede a falta de acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, vinha caindo desde 2004.
Segundo os autores do estudo, “a contraditória concomitância entre aumento de produção de alimentos e de insegurança alimentar” é explicada pela prioridade dada à exportação de commodities no sistema alimentar brasileiro.
Essa característica ficou ainda mais evidente durante a crise econômica causada pela pandemia de covid-19. Com a desvalorização do real em relação ao dólar, e a alta na demanda por alimentos em países estrangeiros como a China, o agronegócio tem registrado recordes de exportação.
19,8%
foi a alta das exportações do agronegócio entre janeiro e abril de 2021, na comparação com o mesmo período em 2020, segundo dados do Ministério da Agricultura
O aumento das exportações, por sua vez, levou à diminuição da disponibilidade de alimentos no mercado interno, o que fez subir preços do arroz, da carne, do óleo de soja, entre outros elementos comuns no prato dos brasileiros.
39,7%
foi a alta do preço do arroz entre agosto de 2020 e julho de 2021, segundo dados do IBGE
34,3%
foi a alta das carnes entre agosto de 2020 e julho de 2021
A alta nos preços durante a pandemia tem impulsionado a procura por alternativas mais baratas aos alimentos tradicionais, como carnes “de segunda” ou fragmentos de arroz . Embora sejam menos valorizados, esses ingredientes não têm valor nutricional menor, segundo disse ao Nexo Lourence Alves, doutora em Alimentação, Nutrição e Saúde pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e historiadora pela mesma instituição.
O mesmo não pode ser dito sobre os alimentos processados e ultraprocessados, que também vêm sendo consumidos com mais frequência pelos brasileiros, segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE. Entre 2002 e 2018, o aumento no consumo desses produtos foi mais acentuado na parcela mais pobre da população (subiu 62,3%), e menos acentuado entre os mais ricos (subiu 27,3%).
Consumidores avaliam preços em supermercado no Rio
Os ultraprocessados muitas vezes derivam de commodities produzidas pelo agronegócio, como o milho e a soja, aos quais são adicionados açúcar, sódio, gordura, conservantes e outros componentes cosméticos que os deixam mais duráveis e palatáveis. Pesquisas indicam que o maior consumo desses produtos está associado ao aumento do risco de desenvolvimento de obesidade e de outras doenças crônicas , como diabetes e hipertensão.
A parcela de brasileiros afetados por essas doenças tem crescido em anos recentes, de acordo com dados do Ministério da Saúde.
72%
foi o aumento da porcentagem obesa da população entre 2006 e 2019, segundo a pesquisa Vigitel do Ministério da Saúde
Isso é especialmente preocupante no contexto de uma pandemia que já matou mais de 579 mil brasileiros até o fim de agosto de 2021, visto que doenças como hipertensão e obesidade aumentam o risco de desenvolver um quadro de sintomas mais grave da covid-19.
O modelo produtivo do agronegócio está associado ainda a graves impactos ambientais. A produção massiva de commodities incentiva a monocultura , amplia o uso da terra e reduz a biodiversidade. Um estudo publicado em julho de 2020 na revista Science estimou que um quinto das exportações brasileiras de soja e carne advém de desmatamento ilegal na Amazônia e no Cerrado.
Além de causar alterações no regime de chuvas que geram prejuízos à própria produção agrícola , o desmatamento aproxima os humanos de espécies animais silvestres. Isso aumenta o risco de contaminação por zoonoses contra as quais os humanos não têm proteção imunológica, que podem se espalhar e dar origem a pandemias.
Conforme as commodities são industrializadas na produção de alimentos ultraprocessados, há mais consumo de água, energia e geração de resíduos usados em embalagens, como o plástico. Em comparação com a agricultura familiar, esse processo tende a demandar também mais gastos com transporte, o que gera mais emissões de gases do efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global.
Área desmatada na região amazônica de Itaituba, no Pará
A agricultura familiar, distribuída por meio de pequenos comércios, é apontada pelos autores do estudo publicado na revista Demetra como um sistema mais benéfico do que o agronegócio, por se basear em modelos produtivos mais sustentáveis, oferecer produtos in natura ou minimamente processados (e portanto mais saudáveis) e por estabelecer os chamados CCCs: “circuitos curtos de comercialização”, caracterizados por menor distância e menos intermediação entre produtor e consumidor.
Ainda de acordo com os autores, os CCCs proporcionam “maior transparência nas relações de compra, rastreabilidade, redução da poluição ambiental e do custo devido à menor distância de transportes, aumento de oportunidades de emprego para a população local, apoio às atividades de pequenos produtores e maior autonomia dos consumidores quanto a sua alimentação”.
Na pandemia, os pequenos produtores foram especialmente atingidos pela suspensão de contratos de compra, o fechamento de restaurantes e lanchonetes e a mudança de hábitos do consumidor durante a quarentena. Perda de estoque, prejuízo financeiro e incerteza com relação a safras futuras estão entre os problemas enfrentados pelo setor.
Iniciativas da sociedade civil, como os projetos Campo Favela e Orgânico Solidário , têm surgido como forma de apoiar os agricultores e doar alimentos frescos a comunidades em situação de insegurança alimentar. Mas os autores destacam a importância da ação governamental: “Não basta fomentar sistemas alimentares saudáveis, é necessário desinvestir em sistemas degenerativos. Isso implica em reconfigurar e redirecionar uma parte maior das políticas e recursos públicos […] para nutrir sistemas alimentares que resultem em benefícios mais sistêmicos”.
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