Variante ômicron: que países restringiram voos da África do Sul
João Paulo Charleaux
26 de novembro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h33)EUA, Reino Unido, Alemanha e Israel, entre outros, se fecham para evitar disseminação de nova variante, potencialmente mais transmissiva. No Brasil, Bolsonaro é contra medidas do gênero
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Trem leva vacina a regiões afastadas de grandes cidades da África do Sul
A detecção de uma nova variante da covid-19 – potencialmente mais transmissiva – provocou alarde no mundo nesta sexta-feira (26), levando diversos países a impor restrições à entrada de cidadãos dos países da África Austral, epicentro da variante que foi batizada de ômicron (15ª letra do alfabeto grego). Cientistas devem levar semanas para concluir se essa variante é mais resistente às vacinas já existentes.
Até sexta-feira (26) essa decisão já havia sido implementada pelos governos de EUA, Reino Unido, Alemanha, Itália, França, República Tcheca, Israel, Cingapura e Japão, numa lista que tende a crescer rapidamente, à medida que cresce o medo, sobretudo na Europa, de que essa nova variante dê impulso à quarta onda da pandemia, já em curso. A Bélgica reportou o primeiro caso europeu da ômicron, numa pessoa que chegou do Egito.
Neste texto, o Nexo mostra o que já se sabe sobre a ômicron, relembra o impacto de outras variantes já surgidas e as medidas de contenção adotadas no passado.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) batizou nesta sexta (26) a nova variante de ô micron e colocou a cepa no mesmo status das anteriores: alfa, beta, gama e delta. A medida ajuda a reduzir o estigma em relação ao local em que ela foi encontrada pela primeira vez, pois oferece uma alternativa neutra em relação a nomes como “variante sul-africana”.
A ômicron teve um número alto de mutações e uma rápida propagação entre a população jovem da província de Gauteng, a mais populosa da África do Sul, de acordo com informações do ministro da saúde do país, Joe Phaahla. Ele disse ter registrado um “aumento exponencial” num intervalo de entre quatro a cinco dias.
“Esta nova variante tem muito, muito mais mutações, incluindo mais de 30 na proteína spike que afeta a transmissibilidade. Podemos ver que a variante está se espalhando potencialmente muito rápido. Esperamos começar a ver pressão no sistema de saúde nos próximos dias e semanas”
As autoridades de saúde do local ainda tentam determinar qual porcentagem dos novos casos estão marcados pela emergência dessa nova variante, que também já foi encontrada em países vizinhos, na África Austral – região composta por 12 países, incluindo dois de língua portuguesa: Angola e Moçambique. As primeiras suspeitas são de que essa variante já responda por 90% dos novos casos em Gauteng, o epicentro.
A vacinação é muito baixa na África, de maneira geral, e nos países da África Austral, em particular, como mostra o gráfico abaixo, produzido a partir de dados compilados pelo monitor de vacinação da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Autoridades sanitárias da África do Sul lançaram um apelo internacional por doações de doses e de recursos adicionais para acelerar a imunização da população em toda a região, sob risco de os sistemas de saúde colapsarem.
“Nossos países pobres e nossa população carente não pode ser confinada em lockdown sem receber apoio internacional”, afirmou o Ceri em suas redes sociais em uma série de posts sobre o tema. Túlio de Oliveira, que dirige o centro, marcou bilionários como Jeff Bezos, Elon Musk e Bill Gates, além de instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, pedindo doações.
Diversos países do mundo impuseram restrições a voos vindos não apenas da África do Sul, mas também de outros países da África Austral, como no caso de Israel, que – após ter detectado o primeiro caso da variante em seu território, de uma pessoa vinda do Malauí – vetou a entrada de viajantes ou a saída de seus cidadãos para Lesoto, Zimbábue, Botsuana, Moçambique, Namíbia e Eswatini (ex-Suazilândia).
Presidente da Comissão Europeia. Ursula von der Leyen, fala sobre a estratégia europeia de vacinação, em Bruxelas
Os passageiros que não são cidadãos desses países, mas retornam de viagens a essa região, estão sendo submetidos a testes e quarentenas obrigatórias, como forma de tentar evitar que a nova variante se espalhe.
No Brasil,o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, informou que o governo vai publicar uma portaria neste sábado (27) proibindo a entrada no país de quem esteve, nos últimos 14 dias, em seis países africanos: África do Sul, Botsuana, Essuatíni, Lesoto, Namíbia e Zimbábue.
O secretário de Saúde do Reino Unido, Sajid Javid, disse que a nova variante pode ser “mais transmissível” que a dominante cepa delta, e que “as vacinas existentes atualmente podem ser menos eficazes” contra ela.
A União Europeia deve anunciar medidas restritivas em bloco nesta sexta-feira (26), de acordo com aviso publicado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nas redes sociais dela.
Ao mesmo tempo, a OMS adverte os países a não entrarem numa corrida alarmista que não esteja baseada estritamente em informações confiáveis, baseadas em achados científicos, sob risco de desatar uma campanha de pânico e preconceito. A advertência foi feita nesta sexta-feira (26) por Christian Lindmeier, porta-voz da instituição, que disse ainda que levará semanas até determinar em que medida as vacinas existentes são ou não eficazes contra a ômicron.
“Nós falamos de variantes, mas a questão é que se trata de um mesmo vírus. É o mesmo vírus que, se nos vacinarmos, ficamos bem protegidos contra a transmissão, principalmente contra óbito e casos graves. É o mesmo vírus que, se fizermos distanciamento e dermos preferência sempre a ambientes abertos e ventilados, conseguimos evitar transmissão e contágio”, disse a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
“Não é com desespero que vamos lidar com uma situação assim. Temos de entender a razão do surgimento dessa variante, e já sabemos que uma dessas razões é a baixa cobertura vacinal que os países da África estão enfrentando. É mais um alerta sobre a questão da iniquidade no acesso às vacinas. É o mesmo risco que existe no Leste Europeu, que estagnou numa baixa vacinação. Os aprendizados estão aí. Muito do que está acontecendo não foi por falta de aviso ou por falta de conhecimento”, afirmou.
Para ela, “é compreensível” a adoção de medidas restritivas, como a proibição da entrada de voos. Ela considera que o governo brasileiro também deveria seguir o mesmo caminho, atendendo à recomendação da Anvisa. Porém, o mais importante, diz a pesquisadora, é que os países ricos que agora impõem restrições, ajudem a aumentar a cobertura vacinal africana.
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