Expresso

As chances de a variante ômicron se tornar predominante

Estêvão Bertoni

05 de dezembro de 2021(atualizado 28/12/2023 às 23h33)

Cepa do novo coronavírus preocupa especialistas pelo número incomum de mutações que podem facilitar sua entrada nas células humanas

O Nexo depende de você para financiar seu trabalho e seguir produzindo um jornalismo de qualidade, no qual se pode confiar.Conheça nossos planos de assinatura.Junte-se ao Nexo! Seu apoio é fundamental.

FOTO: SARAH MEYSSONNIER/REUTERS – 3.DEZ.2021

Imagem mostra mulher agasalhada, com máscara e segurando um guarda-chuva em rua movimentada em Paris, na França

Mulher com máscara se protege da chuva em rua de Paris, na França

Identificada em 24 de novembro, a variante ômicron do novo coronavírus causou preocupação imediata na comunidade científica internacional pela grande quantidade de mutações. Se a delta, responsável atualmente por 99% dos casos de covid-19 no mundo, traz nove mutações, a ômicron tem 50, sendo 32 delas na proteína usada pelo vírus para entrar nas células humanas.

Com um potencial até seis vezes maior de infectar pessoas do que a delta, a ômicron já havia sido detectada em todos os continentes menos de uma semana depois de ter sido classificada como variante “preocupante” pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Na sexta-feira (3), o porta-voz da entidade, Christian Lindmeier, afirmou em entrevista não haver dúvidas de que ela irá se “expandir” globalmente. Apesar da afirmação, a organização tem feito um apelo para que o mundo não entre em pânico, devido às incertezas que envolvem o vírus.

Neste texto, o Nexo mostra como as variantes se tornam predominantes na pandemia e quais as hipóteses discutidas entre os cientistas sobre o comportamento da ômicron, que aparentemente causa apenas sintomas leves nos infectados, embora os dados ainda sejam escassos.

Como surgem as variantes

Uma vez no organismo, os vírus sequestram o maquinário das células humanas e o utilizam para se reproduzir. Mas, diferentemente do que acontece na replicação do DNA humano, no qual a enzima responsável pela cópia corrige possíveis erros assim que os identifica — evitando, por exemplo, doenças genéticas —, a enzima que faz a cópia do RNA do vírus comete erros naturais e mesmo assim segue em frente, como explica em entrevista ao Nexo o doutor em virologia Gúbio Soares Campos, professor de microbiologia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e o primeiro a identificar o zika vírus no Brasil em 2015.

Por isso, segundo ele, é normal que, numa pessoa infectada por um vírus de RNA, como o Sars-CoV-2 (que causa a covid-19), forme-se no organismo uma “população de vírus” com mutações, chamada de “quase espécie”. “Essa ‘quase espécie’ pode ser muito mais forte do que o vírus que entrou e dominar tudo, porque sofreu mutações importantes em regiões importantes do material genético”, afirmou o pesquisador.

Nesse processo, o vírus procura cada vez mais se adaptar ao ser humano, conhecendo melhor as células e o sistema de defesa do organismo para poder sobreviver. Quando o vírus escapa da defesa de uma célula, ele adquire uma informação sobre isso e se multiplica com ela, tornando-se mais forte. “Não significa que a variante será mais letal. O vírus quer sobreviver e ‘descobre’ que provavelmente é melhor não matar o receptor. Pode ser que no futuro a gente tenha [com a covid] uma gripe sem um número de mortes tão alto”, disse o professor.

Para ele, os pesquisadores sul-africanos não tiveram sorte em identificar a variante ômicron. A identificação aconteceu porque o vírus já vinha se multiplicando com vantagens evolutivas “há muito tempo”. “Para chegar a esse nível de detecção, tem que atingir um patamar de multiplicação no ser humano. Quando detectamos pela primeira vez o zika vírus no Brasil, havia 300 pessoas infectadas no hospital. Para conseguir identificar, já havia uma epidemia que ninguém sabia o que era, com mais de 3.000 pessoas infectadas”, lembrou.

Como as variante se tornam predominantes

Atualmente, a delta é a responsável por quase todos os casos de covid-19 identificados no mundo. Surgida no final de 2020, na Índia, ela ganhou força entre abril e maio em países como Estados Unidos e Reino Unido.

No Brasil, sua expansão se deu entre junho e julho e não gerou um aumento de internações e mortes, como em outros países, porque o país já havia sido recentemente devastado pela gama, surgida também no final de 2020, no Amazonas. A variante brasileira causou uma grande onda de casos e mortes entre março e abril. Sua disseminação, paralela ao avanço da vacinação, acabou criando uma certa imunidade em grandes parcelas da população, segundo alguns pesquisadores.

Mesmo assim, a delta superou a gama e predomina atualmente no Brasil. Ela é até 60% mais transmissível que a alfa, surgida no Reino Unido, e duas vezes mais contagiosa do que o vírus original identificado em Wuhan, na China, no final de 2019. Algumas características são apontadas pelos cientistas como determinantes para sua disseminação:

  • Estima-se que uma pessoa infectada pela delta produza até mil vezes mais partículas virais do que se tivesse se contaminada com a alfa.
  • Mutações fizeram com que a variante indiana obtivesse maior eficácia em se ligar aos receptores das células humanas, facilitando sua entrada.
  • A delta também é capaz de escapar de anticorpos neutralizantes , tornando as vacinas menos eficazes contra ela.

Em entrevista ao Nexo , o doutor em biologia evolutiva Fábio Mesquita lembra que o predomínio de uma nova variante não significa que as anteriores, como a alfa e a beta, deixem de existir.

“Elas apenas afetarão menos pessoas. No longo prazo, essas cepas tendem a se extinguir pelo fato de não conseguirem se replicar ao encontrarem pessoas já imunizadas ou pela vacinação ou pela infecção com a variante mais contagiosa”, afirmou.

As características da ômicron

Na África do Sul, onde foi identificada pela primeira vez, a ômicron já respondia no final de novembro por 88% dos novos casos de covid-19. O país teve um aumento de 151% no número de infectados entre 26 de novembro e 1º de dezembro. O fato de grandes proporções da população do país terem contraído a doença anteriormente indica que a ômicron pode infectar alguém que já pegou a delta, por exemplo.Em três dias, os casos de covid-19 na África do Sul quase quadruplicaram: nesta sexta-feira (3), o país registrou 16.055 novos casos da doença, contra foram 4.373 casos relatados na terça-feira (30).

Durante uma entrevista à imprensa na sexta-feira (3), a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, afirmou que a ômicron é “muito transmissível” , mas ressaltou ainda ser “cedo” para tirar conclusões sobre seu comportamento na pandemia. “Essa variante [ômicron] teria que ser mais transmissível [que a delta] para competir e se tornar dominante mundialmente. É possível [que aconteça], mas não é possível prever”, disse.

Em artigo publicado no site de conteúdo acadêmico The Conversation, na terça-feira (30), o professor de doenças infecciosas emergentes Suresh Kuchipudi, da Universidade Penn State, nos Estados Unidos, também afirma que ainda é muito cedo para saber se a ômicron vai superar a delta, mas lembra que a nova variante tem dez mutações que fortalecem a ligação do vírus com os receptores das células humanas, contra apenas duas mutações semelhantes na delta.

“Entretanto, também é possível que o número incomum de altas mutações pode ser prejudicial ao vírus e torná-lo instável”, afirmou. Segundo ele, o exemplo do vírus influenza, que causa a gripe, mostra que a adaptação dos vírus nunca termina. Novas mutações vão continuar acontecendo, afirmou.

Fábio Mesquita, doutor em biologia evolutiva, diz concordar que é difícil prever como será a transmissibilidade da ômicron. “O que podemos dizer, por hora, é que ela tem potencial de se sobrepor à delta, mas não há certeza de que esse potencial será concretizado”, afirmou.

Ele também concorda com especialistas que consideram haver uma vantagem na substituição da delta pela ômicron caso os sintomas associados à nova variante se mantenham leves, o que poderia reduzir os riscos de internações e mortes pela covid-19.

Segundo ele, as mutações estão sujeitas a ocorrer com mais frequência em contexto de baixa cobertura vacinal, como na África. “Se a cobertura vacinal é elevada, menos pessoas são infectadas, logo, há menos possibilidades de replicação viral e, por consequência, há menos chance de mutação. Nesse contexto, é fundamental investir na expansão da cobertura vacinal”, disse.

NEWSLETTER GRATUITA

Nexo | Hoje

Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Gráficos

nos eixos

O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você

Este site é protegido por reCAPTCHA e a Política de Privacidade e os Termos de Serviço Google se aplicam.

Navegue por temas