De voos a hospitais: como o efeito ômicron paralisa serviços
Estêvão Bertoni
07 de janeiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h17)Devido à alta no contágio, atividades essenciais podem ser interrompidas por falta de mão de obra. Para evitar parada, países já reduziram tempo de isolamento e Brasil estuda adotar a medida
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Profissional de saúde fecha porta de ambulância em frente a hospital de Londres, no Reino Unido
A disseminação da variante ômicron do novo coronavírus foi considerada ainda no final de 2021, pela OMS (Organização Mundial da Saúde), como um “tsunami de casos de covid” . Nos países mais atingidos, setores da economia estão sofrendo interrupções devido ao afastamento de trabalhadores infectados. Os serviços essenciais, como os de saúde, são os que mais preocupam as autoridades.
Apenas em dezembro, quando os casos já cresciam no Brasil em meio a uma apagão de dados do Ministério da Saúde, cerca de 20% da força de trabalho dos hospitais do Rio de Janeiro, por exemplo, foi afastada por ter se contaminado. O mesmo problema tem sido enfrentado em países como o Reino Unido, onde 50 mil trabalhadores do sistema público de saúde estavam em isolamento na última semana de dezembro. O governo britânico prometeu fazer 100 mil testes por dia em profissionais de áreas essenciais para tentar controlar a transmissão.
Neste texto, o Nexo mostra qual tem sido o impacto da ômicron nos serviços e quais as respostas dadas pelos governos para tentar minimizar o problema.
Na quarta-feira (5), o mundo bateu recorde de novos casos de covid-19 em apenas 24 horas. Foram 2,59 milhões de infectados. O número foi puxado principalmente pelos Estados Unidos, que um dia antes, pela primeira vez na pandemia, superou 1 milhão de casos num único dia — o dobro do registrado em 26 de dezembro de 2021.
Embora a velocidade de transmissão seja superior à da variante delta, até então predominante no mundo, os sintomas causados pela ômicron têm sido mais leves. Os números de internações em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) e de mortes não estão acompanhando as altas de casos. Por isso, muitos países evitam adotar medidas restritivas.
Segundo a TV americana CNN , na sexta-feira (7), padarias, restaurantes, bares, empresas de informática e lojas de departamentos estão fechando as portas ou reduzindo o horário de funcionamento nos Estados Unidos não por ordem do governo, mas devido à falta de disponibilidade de funcionários. Grande parte das equipes estão se contaminando ao mesmo tempo, o que os obriga a se isolar.
O problema não afeta apenas pequenas empresas. A Apple, por exemplo, decidiu fechar para os clientes todas as suas lojas de Nova York durante uma semana. Já a loja de departamentos Macy’s reduziu o horário de funcionamento de segunda a quinta-feira, em janeiro. Por causa do impacto do vírus, algumas agências de classificação de risco já preveem um crescimento menor da economia americana em relação às estimativas feitas antes do aparecimento da nova cepa.
Empresas como a Alphabet, dona do Google, e a Apple, que iriam retomar as atividades presenciais em seus escritórios no começo de 2022, decidiram postergar a decisão , pelo menos até fevereiro.
O avanço da variante também afeta os setores de transportes e da educação. Apenas no primeiro domingo do ano, cerca de 4.000 voos foram cancelados no mundo, mais da metade deles nos Estados Unidos, em parte por causa da escassez de funcionários.
Escolas americanas também decidiram interromper as atividades presenciais e retomar as aulas remotas porque, nas regiões do país mais afetadas pela pandemia, houve aumento de infecções entre os funcionários. Na primeira semana de 2022, ao menos 3.229 escolas no país ficaram fechadas, segundo dados divulgados pela Bloomberg .
Apesar de crianças e jovens serem menos afetados pela covid-19, as características de maior contágio da ômicron têm aumentado o número de casos nesses grupos. Dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos e da Academia Americana de Pediatria divulgados na sexta-feira (7) apontam um recorde de hospitalização de crianças no país desde o início da pandemia.
Apenas na última semana de 2021, 672 crianças com covid-19 deram entrada nos hospitais americanos, em média, por dia. Foram 325 mil novos casos até 30 de dezembro, 64% a mais em comparação com a semana anterior.
No Canadá, até a Biblioteca Pública de Toronto anunciou o fechamento de parte dos serviços por causa dos casos da doença. A instituição decidiu remanejar internamente os funcionários para manter os maiores e mais acessados setores do local em funcionamento.
O impacto mais preocupante, porém, tem sido nos serviços de saúde. No Reino Unido, às vésperas do Natal, cerca de 19 mil trabalhadores estavam afastados por terem tido covid-19. Na última semana do mês, o número tinha pulado para 50 mil . Em muitas regiões, consultas e cirurgias não urgentes foram canceladas.
O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, reconheceu em entrevistas que o Serviço Nacional de Saúde, conhecido pela sigla em inglês NHS, está sobrecarregado e que passará por momentos críticos nas próximas semanas. Mesmo assim, ele tem se recusado a endurecer as regras de enfrentamento à pandemia. No final de 2021, o país adotou uma série de medidas que incentivam o trabalho remoto, o uso de máscaras e a apresentação do passaporte vacinal, para evitar lockdowns.
Nos Estados Unidos, por causa da alta de casos entre profissionais de saúde, metade dos sistemas hospitalares do país adiou a realização de cirurgias eletivas , segundo um levantamento da agência Reuters. Em algumas regiões da Flórida, trabalhadores de instituições que estão sofrendo com escassez de mão de obra têm reclamado de exaustão , já que precisam trabalhar mais na ausência de parte da equipe.
Outros serviços públicos também estão sendo afetados. Em entrevista à TV CNN no domingo (2), o imunologista Anthony Fauci, conselheiro do governo americano para o combate à covid-19, afirmou estar preocupado com a manutenção da normalidade de algumas atividades essenciais. “Nós já sabemos de relatos de bombeiros e da polícia em diferentes cidades que eles estão com 10%, 20%, 25% e às vezes 30% das pessoas doentes”, disse.
No final de dezembro, em Nova York, cerca de 30% dos trabalhadores das equipes médicas de emergência, quase 17% dos bombeiros e 21% dos policiais estavam com covid-19, segundo fontes oficiais. O número era superior ao observado entre março e abril de 2020, quando a região era considerada o epicentro da doença nos Estados Unidos.
Por causa da situação, as autoridades pediram à população que pedisse ajuda pelo 911 apenas em caso de “real emergência”. A orientação era que as equipes médicas não transportassem pacientes com situação considerada estável para priorizar os casos graves.
O apagão de dados no Ministério da Saúde desde o começo de dezembro por causa de um ataque hacker deixou o Brasil às escuras sobre sua situação epidemiológica, enquanto a ômicron avançava pelo país. Às vésperas do Natal, o aumento de buscas por testes rápidos nas farmácias já sinalizava uma piora do quadro. Ele era ainda mais preocupante por causa de uma epidemia de gripe que ocorre simultaneamente à pandemia de covid-19.
A alta de casos da doença no Rio de Janeiro afetou 20% da mão de obra dos hospitais, desde dezembro, segundo a secretaria municipal de Saúde. Ao todo, foram afastados 5.500 profissionais de saúde que se infectaram com o novo coronavírus ou com o H3N2, subtipo do Influenza A.
“A maior parte dos afastamentos foi por covid, agora [no começo de janeiro]. Isso influencia e gera sim muita pressão sobre o sistema de saúde como um todo, mas nós estamos conseguindo suprir essa força de trabalho, e muitos desses profissionais já estão voltando às atividades”, afirmou o secretário de Saúde da cidade, Daniel Soranz, ao jornal O Globo, na sexta-feira (7).
Segundo ele, ainda não foi preciso adiar consultas e cirurgias, como vem sendo feito em outros países, porque o aumento de casos não está sendo acompanhado pelo aumento de internações. As pessoas que procuram os serviços de saúde são atendidas e voltam para a casa.
Nos hospitais de Porto Alegre, também houve alta no número de funcionários com covid-19 no início de 2022, o que já preocupa as instituições, embora o número de afastados ainda seja inferior ao observado em março de 2021, durante a pior onda da doença no Brasil.
Em 4 e 5 de janeiro, ao menos 408 profissionais estavam em isolamento e afastados das atividades, após terem sido diagnosticados com covid-19, segundo um levantamento do jornal Zero Hora.
Em entrevista à CNN Brasil na sexta-feira (7), coordenador-executivo do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, João Gabbardo, afirmou que muitos hospitais já “enfrentam problemas para montar suas escalas de plantão porque os profissionais estão sendo contaminados e precisam se afastar de suas funções”.
“Essa nova forma da transmissão da doença, tão elevada, vai nos colocar um desafio importante: muitos serviços terão que ser suspensos porque não teremos pessoas para desenvolver atividades. Estou falando isso em relação a transporte coletivo, transporte aéreo, unidades de saúde, as pessoas estão ficando contaminadas e o afastamento delas leva a uma dificuldade muito grande”, afirmou.
Entre as empresas aéreas, o problema também já vem ocorrendo. A Azul informou ter tido um alto número de dispensas médicas no começo de janeiro e afirmou, em comunicado interno, que os próximos dias serão “desafiadores”. Por causa da falta de tripulantes, ao menos 17 voos tiveram redução no número de passageiros até a quinta-feira (6), segundo o site G1 . A Gol também confirmou ter havido um aumento dos “casos positivos entre colaboradores”, mas disse que não precisou cancelar nenhum voo.
No Rio de Janeiro, o setor de bares e restaurantes sofreu com as ondas da covid-19 e da gripe, com reduções de 20% a 30% das equipes. “Se o funcionário tem algum sintoma, ele é afastado por pelo menos três dias, até testar. Nos bares e restaurantes, as equipes são pequenas, em média, de seis pessoas. Nos maiores, que têm cerca de 15 a 20 funcionários, às vezes um terço tem suspeita. Isso afeta muito o negócio”, afirmou Paulo Solmucci, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), em entrevista ao jornal O Globo , na sexta-feira (7).
Para tentar minimizar o impacto da ômicron nos serviços, o CDC, nos Estados Unidos, decidiu reduzir ainda no final de dezembro o tempo de isolamento que antes era de dez dias para cinco para quem foi diagnosticado com covid-19 mas não manifestou a doença, ou não teve febre no período e já se curou dos outros sintomas. Nos cinco dias após o isolamento, a recomendação é usar máscaras.
Com a medida, trabalhadores poderiam voltar mais rapidamente ao serviço. Sindicatos e especialistas, porém, contestaram a decisão . Segundo representantes dos trabalhadores, a orientação poderia ser usada por empresas para apressar o retorno de funcionários mesmo eles ainda estando doentes e jogaria o problema todo nas costas dos trabalhadores.
Imunologistas também dizem que os períodos de duração da doença variam muito. Reduzir para apenas cinco dias, dizem, não garante uma interrupção na cadeia de transmissão do vírus. Muitos destacam que seria importante realizar um teste antes do retorno, para garantir que a pessoa não está mais transmitindo o vírus.
No Reino Unido, o tempo de isolamento de profissionais de saúde, considerados trabalhadores essenciais, foi reduzido de dez para sete dias no sistema público de saúde. É preciso apresentar um teste negativo da doença.
No Brasil, a secretaria municipal de Saúde do Rio de Janeiro reduziu o isolamento para cinco dias para pessoas que coram diagnosticadas com o coronavírus e estão assintomáticas. No caso de quem apresentou os sintomas, o afastamento é de, no mínimo, sete dias.
Na sexta-feira (7), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, defendeu a redução do tempo de isolamento para pacientes assintomáticos para cinco dias. “É possível que adotemos essa mesma conduta. Isso está em estudo na área técnica, na Secretaria de Vigilância e Saúde”, disse. Segundo ele, o Brasil pode seguir a mesma orientação dos Estados Unidos e da França, onde a regra serve para profissionais de saúde.
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