Por que a ômicron alimenta temores de inflação pelo mundo
Marcelo Roubicek
18 de janeiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h18)Variante leva a recordes de infecções e paralisa serviços. Economistas falam em possíveis efeitos sobre as cadeias globais de produção, já abaladas na pandemia
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Supermercado com prateleiras vazias em Washington D.C., nos EUA
A variante ômicron do coronavírus, mais transmissível, foi detectada pela primeira vez na África do Sul, no final de novembro de 2021. Desde então, ela vem causando recordes de infecções no mundo todo, inclusive no Brasil – embora o número de mortes e quadros graves não suba no mesmo ritmo, em partedevido ao avanço da vacinação.
Nos países mais atingidos pela ômicron, setores da economia estão sofrendo interrupções devido ao afastamento de trabalhadores infectados. Serviços de diferentes tipos sofreram com falta de mão de obra, de aeroportos a hospitais.
Os impactos vão além disso: a nova variante também alimenta temores de um novo impulso inflacionário ao redor do mundo. Neste texto, o Nexo explica por que existe preocupação de que a ômicron leve a um aumento de preços a nível global.
A ômicron foi detectada já em um momento de inflação alta no mundo. Em 2021, diferentes países registraram aceleração dos preços – incluindo os EUA , que atingiram a maior inflação desde 1982 . No Brasil, o aumento de preços ficou acima de 10% pela primeira vez desde 2015, movido por combustíveis, conta de luz e alguns alimentos como café e açúcar.
A alta mundial de preços está ligada à desorganização das cadeias de produção no planeta após a chegada da pandemia. No início de 2020, a crise sanitária levou a uma redução da demanda global e fez com que produtores diminuíssem suas atividades – seja por redução de vendas ou necessidade de aderir às medidas de restrição da circulação. Ao mesmo tempo, a covid-19 impôs dificuldades de transporte e logística e criou a necessidade de encontrar novos fornecedores.
Houve algumas exceções: produtos cujas demandas aumentaram apesar da paralisação parcial da economia mundial. Alguns exemplos são computadores, jogos eletrônicos e bicicletas ergométricas – produtos ligados a atividades caseiras. Nesses mercados, houve dificuldade de atender à demanda crescente em meio à reorganização da atividade global e às restrições às operações de fábricas. Algo semelhante ocorreu com comidas associadas à alimentação caseira.
Passado o choque inicial, conforme as economias pelo mundo foram se recuperando – e a demanda no geral voltando a crescer em ritmo rápido –, muitos produtores não conseguiram se adaptar ao ritmo mais aquecido. Um dos motivos para isso eram os níveis baixos de estoques , que já vinham desde antes da pandemia.
A oferta, em muitos casos, não conseguiu acompanhar a demanda crescente. E esse desequilíbrio começou a se traduzir em escassez de produtos , incluindo alguns insumos importantes para as cadeias globais de produção. Um dos bens que ficaram em falta são os chips eletrônicos , centrais em mercados de eletroeletrônicos e carros .
A ômicron logo se firmou como variante dominante na pandemia, justamente por ser bastante mais contagiosa . Entre os últimos dias do ano e o começo de 2022, o recorde de novos casos registrados no mundo foi renovado diversas vezes.
Em janeiro, o mundo superou a marca de 3 milhões de novas infecções em apenas 24 horas. Após um apagão de dados que deixou o monitoramento da pandemia no escuro por cerca de um mês, o Brasil bateu recorde de novos casos diários na terça-feira (18), com132.254 infecções registradas.
Com infecções em alta, muitas pessoas precisaram (e ainda precisam) cumprir isolamento e ficar afastadas do trabalho. Nos EUA e em diferentes países, serviços foram afetados por falta de mão de obra, de restaurantes a voos comerciais. No Brasil, isso também ocorreu – também na terça, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) autorizou algumas companhias a voarem com tripulação menor após aumento de casos ligados à ômicron.
Fábricas pelo mundo também sofreram com o número de trabalhadores doentes aumentando. Em alguns casos, isso levou a queda na produção. Em outros, houve aumento de custos por causa da necessidade de contratar mais pessoas para manter o ritmo de produção.
Em muitos países – incluindo o Brasil –, o tempo de isolamento para pessoas infectadas foi reduzido . A medida foi adotada para acelerar a volta de funcionários que tiveram covid ao trabalho. Epidemiologistas criticaram a decisão e afirmam que falta embasamento científico para ela.
Embora o número de casos tenha disparado, muitos países têm evitado endurecer as regras de circulação. Em parte, essa estratégia é adotada porque a infecção está menos associada a casos graves e mortes do que a delta e as variantes anteriores – situação que também é atribuída ao avanço da vacinação contra a covid-19
Nesse cenário, a China é exceção. O país asiático, primeiro epicentro da pandemia no início de 2020, adotou ao longo da crise sanitária políticas rigorosas para conter a disseminação da covid-19.
E, na virada de 2021 para 2022, o governo chinês manteve a estratégia . Diante de avanços da ômicron, o poder público vem isolando cidades, fechando fábricas e restringindo operações em portos.
A preocupação de economistas em torno da ômicron não está tão ligada aos impactos que ela pode causar sobre a demanda. Diferentemente dos primeiros momentos da pandemia, o consumo não é afetado de forma tão acentuada pela alta de casos causada pela ômicron, seja porque boa parte das pessoas está vacinada ou porque agora se sabe mais sobre como se proteger contra o vírus.
Ainda assim, há o temor de que, com mais pessoas optando por ficar em casa para evitar o risco de contágio, ocorram um aumento da demanda por bens e uma redução da procura por serviços fora, como restaurantes e eventos culturais. Nesse sentido, alguns mercados podem ser pressionados pela demanda.
Mas a maior parte dos possíveis efeitos inflacionários da ômicron é apontada do lado da oferta. A ômicron pode levar à maior persistência – ou até à piora – das disrupções das cadeias globais de produção.
Com os casos subindo rapidamente, serviços de transportes são afetados, e não só para passageiros. Problemas de logística têm sido registrados, tanto em transporte rodoviário como marítimo .
Ao mesmo tempo, a queda na produtividade e a possibilidade de fechamento de fábricas – como já está acontecendo em alguns locais da China – significa que mais uma vez a oferta pode perder a capacidade de acompanhar a demanda. O caso chinês, em especial, gera temores, já que o país é um dos principais produtores e exportadores globais de peças e insumos industriais.
Em meados de janeiro de 2022, os efeitos da ômicron sobre a inflação não são certos. Embora haja preocupação, dados oficiais sobre avanço de preços ainda não captam claramente movimentos gerados pela nova variante.
Ainda assim, já há registros de aumento de preços e nova onda de escassez de produtos em alguns locais. Na Austrália , por exemplo, a falta de mão de obra, a redução da produtividade de fábricas e os problemas na cadeia de transportes têm levado ao esvaziamento de prateleiras em mercados.
Caso a preocupação inflacionária em torno da ômicron se concretize pelo mundo, ela se somaria a uma situação já problemática na oferta global de produtos.
No Brasil, os impactos da nova variante nos preços também não são claros. Mas uma possível piora da inflação a nível global seria agravada pelo dólar alto, que amplifica aumentos de produtos importados, como aconteceu em 2021 .
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