Quais as perspectivas para o emprego em 2022
Marcelo Roubicek
29 de janeiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h48)Desocupação vai ao menor nível desde o início da pandemia, mas renda também cai. Economistas falam ao ‘Nexo’ sobre o que esperar do mercado de trabalho no ano em que Bolsonaro tenta a reeleição
Pessoas leem anúncios de emprego no centro de São Paulo
O desemprego continuou caindo no período entre setembro e novembro de 2021, conforme divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na sexta-feira (28). A taxa de desocupação ficou em 11,6%, menor nível em quase dois anos. Ainda assim, são 12,4 milhões de pessoas desempregadas no país.
A queda do desemprego é acompanhada pela redução da renda média dos trabalhadores. O rendimento médio do brasileiro nunca esteve tão baixo na série histórica do IBGE, iniciada em 2012.
Neste texto, o Nexo detalha os dados divulgados na sexta-feira (28) e ouve economistas sobre o que esperar para o mercado de trabalho em 2022. As perspectivas são que o desemprego deve estabilizar em nível alto e que a renda não deve ter melhora significativa.
No primeiro trimestre de 2021, o desemprego atingiu recorde , chegando ao maior nível desde ao menos 1976 . A partir do final do primeiro semestre, o desemprego começou a ceder.
Essa queda contínua fez com que a taxa de desocupação recuasse, entre setembro e novembro de 2021, ao menor patamar desde o trimestre de novembro de 2019 a janeiro de 2020. Ou seja, é a menor taxa de desemprego desde a chegada da pandemia de covid-19, decretada em março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde.
A retomada do emprego foi puxada sobretudo por vagas informais , que têm maior vulnerabilidade e, geralmente, menor remuneração. Um reflexo desse avanço da informalidade foi a queda da renda média do trabalho, que chegou ao menor nível na série histórica iniciada em 2012.
O gráfico acima ilustra esse movimento. Os dados já corrigem os efeitos da inflação, e consideram apenas os rendimentos das pessoas empregadas.
A alta da renda até meados de 2020 aconteceu porque, no início da pandemia, os informais foram os mais atingidos pela crise. As vagas formais, com maior proteção e maiores salários, foram menos prejudicadas num primeiro momento.
Como informais geralmente ganham menos, uma proporção menor de vagas desse tipo significa maior remuneração média no mercado de trabalho. A partir do momento em que o emprego começou a se recuperar puxado pelos informais, o movimento reverso ocorreu e a renda média caiu.
A queda do desemprego ocorre em um cenário de estagnação econômica , com retração do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo e terceiro trimestre de 2021. Ao mesmo tempo, a inflação em dois dígitos ajudou a corroer a renda da população, principalmente a de mais baixa renda .
O Nexo conversou com economistas para entender as perspectivas para o mercado de trabalho no Brasil em 2022, ano em que o presidente Jair Bolsonaro tentará a reeleição.
Renan Pieri Temos uma grande incógnita pela frente. Tudo indica, se olharmos para a série histórica desde 2016, que a taxa de desocupação tende a se estabilizar nos próximos meses. Agora, é claro que o mercado mudou bastante por conta da pandemia. E acho que essa é um pouco da incógnita: a diferença de agora com antes [crise de 2014 a 2016] é a queda da remuneração do trabalho, que despencou.
A renda real do trabalhador – a quantidade de produtos que ele consegue comprar com um salário – é bem menor do que foi antes. O emprego melhorou nos últimos meses, claro, por conta do avanço da vacinação, que permitiu a diminuição das restrições para funcionamento de comércio e do setor de serviços. Mas também porque houve um ajuste para baixo nos salários. As pessoas estão ganhando menos, a mão de obra ficou mais barata, então as pessoas contratam mais.
Essa análise gera uma certa preocupação com o futuro do emprego. Ele não está crescendo porque as empresas estão produzindo mais, ou porque há mais demanda pelos produtos brasileiros e as empresas são obrigadas a contratar mais. Não. Parece que é uma reposição de mão de obra que foi demitida durante a pandemia, e também o fato de que a mão de obra ficou mais barata.
Isso é corroborado pelo relatório Focus [do Banco Central, que compila expectativas de agentes do mercado], que tem mostrado uma perspectiva de crescimento de PIB muito pequeno para este ano [2022]. Isso obviamente vai impactar as contratações, porque se o mercado não espera que as vendas cresçam muito, também tende a se planejar para contratar menos trabalhadores.
Marco Rocha Ainda estamos muito afetados pelo cenário da pandemia, que esperamos vá melhorar um pouco, apesar do surgimento da ômicron. Não devemos ter o cenário que tivemos em 2021. É de se esperar que o desemprego ceda um pouco, mas não muito.
O cenário para 2022 desperta bastante pessimismo, por uma série de questões. Primeiro por um certo crescimento da China menor do que estava sendo projetado, o que afeta as exportações brasileiras. Mas [há pessimismo] sobretudo pelo que acontece dentro do Brasil: primeiro, um baixíssimo crescimento e uma falta de perspectivas sobre os indutores desse crescimento. O segundo fator é que a gente já vem de uma inflação elevada, com mercado de trabalho muito desaquecido. Provavelmente vai haver uma inflação um tanto elevada [em 2022] – não no mesmo patamar de 2021 –, o que deve continuar pressionando o rendimento das famílias.
Esses cenários apontam para o seguinte: uma baixa capacidade de recuperação do mercado doméstico, causada por uma menor capacidade de melhorar o poder de consumo das famílias. E há também uma taxa de juros que vem aumentando, e que dificulta a reciclagem de empréstimos e acaba pressionando também as famílias que estão mais endividadas. O que acontece é que a gente tem muito pouca perspectiva de uma recuperação significativa do mercado de trabalho em 2022. Inclusive, as projeções que estão sendo feitas sobre a economia brasileira já estão chegando muito próximo do crescimento zero.
Renan Pieri Há uma certa heterogeneidade. Se olharmos para alguns setores que têm desempenho melhor do que os outros – por exemplo, o setor de tecnologia –, acho que a perspectiva é boa em termos de melhora da remuneração. São setores em que falta mão de obra qualificada, e portanto o mercado deve ter um ajuste de salário.
Agora, para outros setores, a realidade é bem diferente, porque eles crescem menos. Tem uma perspectiva boa de redução da taxa de inflação neste ano, mas deve ficar ainda num nível alto. Nada indica que o mercado como um todo vá melhorar a remuneração sistematicamente enquanto não houver um aumento do crescimento econômico.
Marco Rocha Acredito que há pouca possibilidade de uma recuperação significativa. A inflação alta nesse ano [2021], num momento de economia muito desaquecida e desemprego muito alto, desfavoreceu muito as negociações salariais e os reajustes. Então os salários vão provavelmente ficar ainda mais deprimidos, o que acaba afetando a maior parte da renda da família. Isso impede que a renda circule com mais velocidade na economia, o que vai afetando também uma série de outras atividades.
A gente vem de um cenário de 2021 que foi bem conturbado, por conta da variante delta e de como ela paralisou certas cadeias no começo do ano. Isso gerou um certo período de semi-fechamento da economia brasileira. Então o cenário vai melhorar um pouco, porque o cenário de 2021 foi muito ruim. Algumas atividades, como bares e restaurantes, e atividades de lazer, estão começando a se recuperar. Isso vai produzir algum efeito positivo na economia. O problema é a capacidade desse efeito de se disseminar para o resto da economia. Mas depende também do surgimento ou não de novas variantes.
Para além disso, não vemos nenhum cenário que possa reverter essas projeções que já existem de muito baixo crescimento da economia brasileira. É muito difícil haver uma melhora significativa dessas projeções de estagnação econômica do Brasil em 2022.
Renan Pieri Por um lado, a eleição tem o potencial de impactar o mercado de trabalho por conta do aumento das incertezas – não se sabe qual candidato será eleito, e, portanto, a depender da percepção do mercado com relação a isso, as contratações podem aumentar ou diminuir. Mas o quadro está um pouco menos instável do que em eleições anteriores. Está um pouco mais claro o resultado da eleição: vai ter Lula e Bolsonaro no segundo turno, e não deve sair muito disso. E todo mundo basicamente já sabe o perfil tanto de Bolsonaro quanto de Lula. A incerteza aqui é menor nesse sentido.
Não acho que durante o ano vamos ter grandes surpresas no mercado de trabalho por conta do andamento das eleições. Diferentemente de 2002, por exemplo, quando existia aquela dúvida de quem seria eleito, Serra ou Lula. Conforme Lula foi crescendo nas pesquisas, o mercado se apavorou, e tivemos o chamado efeito Lula, com taxa de juros mais altas, mercado contraindo investimentos e segurando contratações, com medo do que poderia acontecer.
Sobre outros fatores, a questão da inflação é uma questão importante. A população de baixa renda foi bastante afetada em 2021 pelo aumento dos preços de alimentos e energia elétrica. E isso afeta as decisões de compra, e a economia como um todo passa a funcionar de maneira mais lenta. E as contratações acabam sendo afetadas.
Um outro fator é a dimensão do Auxílio Brasil. Não está claro ainda como vai se dar o crescimento do programa, e a gente sabe que isso tem um grande impacto no consumo. E se tem impacto no consumo, também deve ter impacto na contratação. E, principalmente, há a dinâmica da covid-19. A taxa de desocupação oscilou muito nos últimos dois anos nos períodos em que a disseminação da covid-19 estava mais alta ou mais baixa. É claro que estamos em um período diferente agora, porque tem muito mais gente vacinada, mas esse crescimento rápido da onda de covid-19 acende um alerta de que possíveis medidas de restrição podem voltar. E, em voltando, há um impacto direto sobre o emprego.
Marco Rocha Acho que as eleições vão causar pouco impacto, seja positivo ou negativo. Não espero que vá produzir um grau de incerteza muito grande, como foi em 2002. Acho que os candidatos são muito bem conhecidos pelo mercado e pela sociedade brasileira, então não tem por que ter esse tipo de pânico.
Quanto aos outros fatores, o principal vetor de crescimento do PIB brasileiro é o consumo das famílias. A força que pode vir do setor externo é muito pouco para fazer a economia brasileira crescer de forma significativa. É preciso disso e de mais alguma coisa que produza algum efeito diretamente sobre o mercado doméstico, com possibilidade do aumento do rendimento do trabalho ou aumento do gasto público.
Mesmo a PEC dos Precatórios, que possibilitou aumentos de gasto do governo – ou até o Auxílio Brasil – é muito pouco para reverter esse quadro de estagnação econômica. Acho que vamos ter em 2022 um cenário bem complicado para economia brasileira e, dado o estado em que está a população brasileira, vai ser bem complicado em termos sociais para a maior parte das famílias no Brasil.
A inflação também pode impactar, porque significa uma queda na renda disponível das famílias, já que parte disso é consumido no próprio processo inflacionário. Você compra menos alimentos, você bota menos combustível, você posterga a decisão de consumo de certos bens. E aí tudo isso acaba implicando numa menor demanda agregada dentro da economia brasileira, e num menor crescimento. Então, para além da renda, atrapalha de certa forma a recuperação da economia brasileira como um todo.
NEWSLETTER GRATUITA
Enviada à noite de segunda a sexta-feira com os fatos mais importantes do dia
Gráficos
O melhor em dados e gráficos selecionados por nosso time de infografia para você
Destaques
Navegue por temas