Expresso

2 anos na linha de frente da covid: das UTIs lotadas ao alto contágio

Estêvão Bertoni

03 de fevereiro de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h19)

Pesquisa de entidades médicas mostra que 87,3% dos profissionais contraíram a doença durante a onda da variante ômicron. Sobrecarga e exaustão ficaram mais prevalentes 

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FOTO: DIEGO VARA/REUTERS – 14.JAN.2022

Imagem mostra duas mulheres de avental azul e máscaras brancas conversando no corredor de um hospital. Uma delas apoia a mão no ombro da outra

Médicos conversam em corredor de UTI voltada a pacientes com covid no Hospital das Clínicas, em Porto Alegre


Quando a variante ômicron do novo coronavírus passou a se disseminar de forma descontrolada pelo mundo em dezembro de 2021, autoridades alertaram para o risco de colapso dos hospitais devido ao afastamento de profissionais de saúde contaminados. Uma pesquisa feita pela Associação Médica Brasileira e a Associação Paulista de Medicina divulgada na quinta-feira (3) mostra que a preocupação tinha fundamento: entre dezembro e janeiro, 87,3% dos médicos brasileiros tiveram covid-19.

O levantamento ouviu 3.517 profissionais, a maioria (82%) no Sudeste, entre 21 e 31 de janeiro. Cerca de 45% dos entrevistados disseram ter encontrado um cenário de falta de médicos, enfermeiros e outros profissionais no enfrentamento à variante. Em fevereiro de 2021, às vésperas da fase mais letal da doença no país, o problema foi relatado na mesma pesquisa por apenas 32,5%. Embora as UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) não estejam tão cheias agora como no passado, a sobrecarga com o trabalho é citada por 64% — contra 58% em 2021.

Neste texto, o Nexo mostra quais são, segundo a pesquisa, as percepções dos médicos sobre a pandemia no início de 2022, quando a crise sanitária declarada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em março de 2020 se aproxima dos dois anos, e que avaliação a categoria faz da resposta dada pelo poder público no Brasil.

A pressão na linha de frente

Em entrevista ao Nexo em dezembro de 2020, a pesquisadora Maria Helena Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que coordenava na época o estudo sobre as condições de trabalho dos profissionais de saúde no contexto da covid-19 no Brasil, já citava a exaustão dos profissionais como um elemento que ampliava o risco de colapso nos hospitais.

Segundo ela, o problema da categoria era anterior à crise sanitária. “Na pré-pandemia, muitos deles [profissionais de saúde] tinham vínculos precários, com condições de trabalho não adequadas, salários baixos. Na pandemia, esses profissionais passam a assumir uma responsabilidade extraordinariamente grande, acarretando uma sobrecarga de trabalho imposta pela crise sanitária”, afirmou.

A pesquisadora apontava que, além dos riscos de contaminação no ambiente de trabalho, o impacto psico-emocional e físico para os trabalhadores na linha de frente do combate à pandemia foi “extremamente brutal” logo na primeira onda, no começo de 2020.

893

é o número de médicos brasileiros mortos pela covid-19 do início da pandemia a outubro de 2021, segundo o Conselho Federal de Medicina

As sensações de estresse, sobrecarga e exaustão, que já eram altas no começo da crise sanitária, se mantiveram nos mesmos patamares e até aumentaram na onda da ômicron. Em julho de 2020, pesquisa da Associação Paulista de Medicina com quase 2.000 médicos mostrava que os problemas mais comuns citados pela categoria eram ansiedade (69,2%), estresse (63,5%), sensação de sobrecarga (50,2%) e exaustão física ou emocional (49%).

A ansiedade foi a única que caiu em quase dois anos de pandemia, indo para 56,8% na pesquisa de janeiro de 2022. Nesse meio tempo, os profissionais de saúde tiveram de enfrentar um colapso nos hospitais, inclusive com falta de medicamentos de intubação, na pior fase da pandemia, entre março e abril de 2021. Na época, o país ultrapassou 4.000 mortes por dia pela covid-19. O estresse em 2022 se manteve no mesmo patamar do começo, com 62,4% (a pesquisa tem uma margem de erro de dois pontos percentuais). Já a sobrecarga de trabalho pulou para 64,2%, e a exaustão atingiu 56,2%.

Durante apresentação da pesquisa , na quinta-feira (3), o presidente da Associação Paulista de Medicina, José Luiz Gomes do Amaral, afirmou que a onda da ômicron concretizou um temor que os médicos tinham desde o começo: a falta de profissionais de saúde nos hospitais.

“Os profissionais de saúde agora se encontram acometidos com uma frequência muito grande da própria covid em função do fato de essa variante ter uma contagiosidade muito maior do que as que a precederam. Mesmo utilizando os equipamentos de proteção individual, em função do tempo de exposição, os médicos acabam se contaminando. E quando não se contaminam no ambiente de trabalho, se contaminam fora. Nós temos um grande número de colegas forçados a se ausentar temporariamente do trabalho”, disse.

Além disso, segundo ele, o problema da contaminação se juntou à exaustão, que não é exclusiva dos médicos, mas de toda a sociedade.

“Nós, médicos, somos igualmente afetados [pela exaustão], talvez até com agravante, com o misto de cansaço por excesso de trabalho e cansaço por se repetirem esses mesmos problemas, essa sensação de estarmos enxugando gelo, de que esse assunto não se resolve e agora volta outra vez”

José Luiz Gomes do Amaral

presidente da Associação Paulista de Medicina, em anúncio sobre a pesquisa feita pela entidade, na quinta-feira (3)

Além de cansados, a maior parte não vê uma solução: 57,1% dos médicos dizem acreditar no surgimento de novas variantes que resultem em mais um aumento de casos de infecção, mas com baixa letalidade — como ocorre com a ômicron.

O impacto da onda da ômicron

Apesar de causar recordes de casos por onde passa, a ômicron não elevou o número de hospitalizações e mortes como as variantes anteriores. A nova cepa do vírus ataca principalmente as vias aéreas superiores, como nariz e garganta, e não resulta em tantos quadros de pneumonia, o que explica por que ela é menos letal. Sua disseminação também encontrou uma população mais protegida pelas vacinas.

Apesar disso, a variante é tão transmissível que inevitavelmente acabou elevando a pressão sobre os hospitais. Na pesquisa com médicos brasileiros, 96,1% dos entrevistados que atuam no atendimento a pacientes com covid-19 observaram tendência de alta em algum grau na busca por ajuda médica. A situação das UTIs, porém, não se agravou como em outros momentos. Ao todo, 81,4% dos médicos ouvidos disseram que a ocupação dos leitos de terapia intensiva estava menor em janeiro do que nos momentos mais críticos de 2021.

Mesmo sendo considerada menos letal, a ômicron também causa sintomas persistentes de covid-19, como destacado por 70,7% dos entrevistados. As principais sequelas relatadas em pacientes curados foram fadiga e dor de cabeça incessante (50,3%) e anosmia (perda do olfato) e ageusia (perda do paladar), apontados por 39,4% dos médicos.

Avaliação da resposta governamental

A pesquisa também revela que a avaliação da atuação do Ministério da Saúde pelos médicos continua ruim desde a saída do cargo do médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, no começo de 2020, por desentendimentos com o presidente Jair Bolsonaro, que manteve um comportamento negacionista e anticientífico durante toda a crise.

Naquela época, 72% dos profissionais consideravam a gestão ótima ou boa. O número caiu para 17% em maio, depois que o oncologista Nelson Teich, substituto de Mandetta, também deixou o governo menos de um mês após tomar posse. O general Eduardo Pazuello assumiu inicialmente como interino, e ficou dez meses no cargo.

Nem a chegada do cardiologista Marcelo Queiroga ao ministério, em março de 2021, foi suficiente para devolver o entusiasmo dos médicos com a pasta. Apesar da aprovação ter voltado a subir — ela fica atualmente em 25% — a reprovação ao governo federal é de 72%.

Na apresentação da pesquisa, na quinta-feira (3), o presidente da Associação Paulista de Medicina, José Luiz Gomes do Amaral, listou problemas como a falta de testes, o apagão de dados nos sistemas de notificação, a negação de dados científicos sobre a eficácia das vacinas e as manifestações contra o passaporte sanitário como fatores que contribuíram para a péssima avaliação da Saúde.

“Se não fossem as ações das outras esferas, das secretarias estaduais e municipais, eu não sei onde nós estaríamos. É muito esperado esse desencantamento com o ministério, sabendo que ele poderia muito bem estar conduzindo com melhor propriedade essa situação”, disse.

Ao todo, 68,7% dos médicos reprovam a atuação do Ministério da Saúde especificamente quando o assunto é a orientação à população sobre a importância da vacinação. A avaliação das secretarias estaduais é positiva para 52,6%, e a aprovação das municipais chega a 54,3%, segundo a pesquisa. Apesar disso, há descrença quanto aos governos — 84% dizem que o papel social dos médicos não é reconhecido por gestores e que isso não ocorrerá ou se converterá em valorização e melhores remunerações. A maioria dos médicos (65,1%) disse orientar o trabalho pelas sociedades de especialidades e associações médicas.

Para mais da metade dos médicos, a disseminação de fake news sobre vacinas e outros temas da área (como tem sido feito pelo próprio presidente) dificultam o trabalho dos profissionais de saúde e a aceitação das decisões médicas pelos pacientes, além de fazer as pessoas minimizarem a gravidade da pandemia.

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