A mobilização nas redes para que jovens tirem título de eleitor
Isabela Cruz
22 de março de 2022(atualizado 28/12/2023 às 22h26)Dados do TSE mostram baixa procura pelo documento de pessoas na idade em que votar ainda é facultativo. Segundo pesquisas, rejeição a Bolsonaro é maior entre população mais nova
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Jovem em São Paulo vota no primeiro turno das eleições municipais de 2020
Nas redes sociais, uma campanha lançada com o incentivo do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para que jovens tirem seus títulos de eleitor e votem em outubro tem mobilizado cada vez mais os perfis críticos ao presidente Jair Bolsonaro. O público de 16 a 24 anos é o que apresenta atualmente maior rejeição à atual gestão, segundo as pesquisas de intenção de voto.
57%
dos jovens de 16 a 24 anos consideram o trabalho de Bolsonaro ruim ou péssimo, segundo pesquisa do PoderData publicada no dia 3 de março (registro BR-01570/2022 no TSE)
A mobilização do antibolsonarismo ocorre após Tribunais Regionais Eleitorais terem registrado, faltando pouco mais de um mês para o fim do prazo para se tirar o título eleitoral, no dia 4 de maio, a mais baixa procura pelo público jovem em toda a série histórica computada pela Justiça Eleitoral, iniciada há três décadas.
Neste texto, o Nexo mostra as evidências e as hipóteses de explicação do desinteresse dos jovens pela política, relata como o poder público e os próprios políticos tentam engajar essa fatia do eleitorado, e explica como ela se posiciona atualmente na pré-campanha presidencial.
No Brasil, os jovens de 16 anos ou mais têm o direito de votar, conforme estabeleceu a Constituição de 1988. Assim, quem tem 15 anos agora, mas completará 16 até o dia 2 de outubro também já pode providenciar um título de eleitor. A obrigatoriedade da participação eleitoral vem com os 18 anos.
Segundo o TSE, pouco mais de 10% dos jovens entre 15 e 17 anos que estarão aptos a votar em outubro de 2022 já estão com seus títulos de eleitor.
835 mil
menores de idade aptos a votar em outubro estão registrados na Justiça Eleitoral, segundo o TSE
O total representa pouco mais de ¼ dos 3,2 milhões de jovens dessa idade votantes em 1992, primeiro ano da série histórica da Justiça Eleitoral sobre o engajamento político da faixa etária. Era um contexto de redemocratização do país e de extravasamento da vontade de participação política represada durante a ditadura militar que ainda vigorava na década anterior.
O envelhecimento de lideranças políticas , com a consequente falta de identificação entre eleitores e candidatos, e o fato de que os pré-candidatos favoritos à vitória, Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já são conhecidos (e desgastados) entre o eleitorado são apontados por cientistas políticos como alguns dos fatores que explicam o desinteresse dos jovens pela política partidária-eleitoral.
A esses fatores estruturais da queda do interesse de adolescentes em participar das eleições, a cientista política Carolina Botelho, do Doxa (Laboratório de Estudos Eleitorais da Uerj) e da Universidade Mackenzie, acrescenta que em 2022 aparecem também as dificuldades criadas pela pandemia de covid-19.
“Nos últimos dois anos, a pandemia alijou jovens das sociabilidades na escola, na família e nos círculos de amigos, isto é, de espaços onde debates políticos poderiam ser travados e onde informações sobre o direito e a importância do voto poderiam circular”, disse Botelho ao Nexo .
O afastamento da política ocorre mesmo fora do campo institucional. Em setembro de 2021, uma pesquisa do Ipec focada em jovens de 16 a 34 anos mostrou que 60% das pessoas dessa faixa etária no país preferem não comentar nada de política nos ambientes polarizados das redes sociais, como forma de evitarem ser julgados,“cancelados” ou tratados de forma agressiva.
Por outro lado, novos campos de debate político aparecem atualmente. Segundo o cientista político Márcio Black, coordenador do Programa de Democracia e Cidadania Ativa da Fundação Tide Setubal, os espaços clássicos de formação política, como sindicatos, movimento estudantil, grêmios e juventudes partidárias, “foram desmobilizados”, mas “hoje, o jovem se forma politicamente na cultura periférica, na batalha de rap, na igreja e até no ‘pancadão’ [festas]”, disse Black ao jornal O Estado de S. Paulo.
Uma campanha promovida pelo TSE nas redes sociais, na chamada Semana do Jovem Eleitor 2022 (encerrada no dia 18 de março), buscou reverter esse cenário.
Segundo informou o tribunal a partir de dados do Twitter, um “tuitaço” para incentivar os jovens a tirar o título alcançou mais de 88 milhões de pessoas, a partir de postagens e repostagens de 4.700 usuários , incluindo perfis oficiais de times de futebol como o Corinthians e o Flamengo e os fãs do grupo de kpop BTS.
7,7 milhões
é a população estimada de brasileiros que terão 16 ou 17 anos até o primeiro turno das eleições, em 2 de outubro de 2022
Na terça-feira (22), o Google Trends ainda registrou um aumento das buscas pelos termos “jovens” e “título de eleitor” em relação aos 30 dias mais recentes. Diversos críticos de Bolsonaro fizeram postagens sobre o assunto. “Galera, não adianta só achar ruim . Tem que tirar título e ir votar”, escreveu, por exemplo, Pedro Abramovay, diretor da organização Open Society Foundations para América Latina e Caribe.
Para além das redes sociais, em 2022 os chamados “mesacasts” também prometem ser um canal importante de comunicação política, especialmente com os jovens.
Novidade em relação às eleições de 2018, assim como foi a estratégia de políticos de participarem de jogos online nas eleições de 2020, o formato consiste em convidados, incluindo políticos, e apresentadores sentados à mesa para conversas informais de duas horas ou mais. Os encontros costumam ser disponibilizados em forma de podcast e de vídeo.
Um programa do tipo, o PodPah, conversou com Lula em dezembro de 2021, por exemplo, e bateu recordes de visualizações: foram 3,3 milhões em menos de 24 horas.
“[Nos ‘mesacasts’], os apresentadores não se apresentam e não se portam como jornalistas , é um outro jogo. E nessa, os entrevistados podem impor suas narrativas pessoais sem muito esforço”, disse ao Nexo em dezembro o jornalista Fábio Silvestre Cardoso, mestre em comunicação e produtor do podcast Rio Bravo.
A pesquisa do Ipec sobre as preferências políticas dos jovens também mostrou que n o topo da lista de preocupações dessa população estão o combate à fome e à pobreza, a geração de empregos e a preservação do meio ambiente.
Sobre os pré-candidatos, a pesquisa revelou que 45% dos eleitores entre 16 e 34 anos preferem votar em qualquer outro candidato que não Bolsonaro nas eleições de 2022. Já a rejeição completa a Lula, que aparece como favorito nas pesquisas nacionais, aparece apenas em 10% dessa faixa etária.
Os motivos da rejeição da juventude contra Bolsonaro envolvem, ainda segundo a pesquisa, o modo como ele agiu na pandemia e a situação econômica do país, que enfrenta atualmente altos índices de inflação e desemprego. “Antes do governo Bolsonaro, nunca precisei deixar de comer alguma coisa pelo preço. Nunca vi os alimentos tão caros”, disse a analista de transportes Gisele Caires, de 31 anos, ao Estadão. Ela afirma que votou em Bolsonaro em 2018 e está arrependida.
Em 2018, 31% dos eleitores entre 16 e 34 anos declararam voto em Bolsonaro no segundo turno – mesmo percentual dos que escolheram o oponente Fernando Haddad (PT). Já em março de 2022, as intenções de voto desse segmento se concentram em Lula (50%), segundo pesquisa do Ipespe em relação à primeira quinzena de março de 2022.
22%
dos eleitores entre 16 e 34 anos declaram voto em Bolsonaro, segundo a pesquisa do Ipespe da primeira quinzena de março (registro BR-03573/2022 no TSE)
Nas eleições que levaram Bolsonaro à Presidência também chamou atenção o percentual de eleitores de até 34 anos que não compareceram às urnas ou votaram em branco ou nulo: foram 36%.
Em 2022, a “alienação eleitoral” (soma de brancos, nulos e abstenções) dos brasileiros em geral, que tem aumentado, é uma preocupação maior para Lula do que para Bolsonaro,segundo o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe.
“De onde que vão sair essas intenções de voto que não vão se converter em voto? Em grande medida do Lula. Um pouco de Bolsonaro, um pouco dos demais, mas principalmente do candidato líder. Isso por ele ser líder e por uma outra característica : a concentração de intenção de voto de Lula ocorre na base da pirâmide socioeconômica, que é exatamente onde se dá o mais expressivo contingente de alienação eleitoral”, disse Lavareda ao Nexo em dezembro de 2021.
O título de eleitor é obtido gratuitamente e pode ser solicitado presencialmente ou pela internet, no portal do TSE. Pela via digital, o cidadão deve acessar o “ Autoatendimento do Eleitor ”, clicar em “Atendimento ao Eleitor”, selecionar “Tirar o 1º Título Eleitoral” e seguir as instruções da página.
O cadastro exige a apresentação de comprovante de residência e de documento de identificação. Para jovens homens e maiores de 18 anos, é necessário também o certificado de quitação militar. O prazo para a solicitação do título em 2022 acaba em 4 de maio.
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